“A Missão de Faldan”

Postado por admin em Novembro 15th, 2008 na categoria: Uncategorized
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O

s olhos lentamente se abriram. A visão estava turva e a luz fraca, vinda de uma fresta nas cortinas de uma grande janela, mal iluminava o ambiente. Patton avistou dois vultos de pé a sua frente. Um maior, mais parrudo. O outro, menor e franzino. Levou suas mãos aos olhos e esfregou-os tentando desembaçar a vista.

            O jovem ouviu uma alegre voz feminina dando graças por ele ter acordado. O odor suave de pinho o fazia perceber o lugar aconchegante onde descansava. Quando a visão começou a voltar ao normal ele pode finalmente reconhecer os dois vultos. Alya e Ruprest o observavam de perto e a menina abaixou-se para dar um beijo nos lábios ainda febris do ferido.

            - Se soubesse que os enfermos seriam tão bem tratados nesta casa, não teria deixado que Ernandor me fizesse curativos em Celemar. - disse Ruprest, demonstrando estar bem feliz com a recuperação do amigo.

            Alya afagou o rosto de Patton suavemente e o rapaz retribuiu o carinho com um sorriso. Seu tórax ainda doía bastante e estava envolto em bandagens de algodão. Por baixo das faixas, Ernandor havia feito um curativo passando um láudano à base de ervas deixado por Rino, o druida do Olmo.

            - Há quanto tempo estou aqui inconsciente? E a batalha? Tivemos sucesso? - questionou Patton com uma expressão austera.

            - Calmo garoto! Primeiro você precisa alimentar seu corpo. Depois Faldan lhe contará toda a história. Estivestes no bico do corvo, meu amigo. Por pouco esta menina não virou viúva mesmo antes de se casar. - disse Ruprest, fitando Alya com um sorriso de cumplicidade estampado no rosto.

            Patton também sorriu, mas Alya só respirou aliviada, como se saísse de um pesadelo terrível. Ruprest caminhou até uma porta de madeira fechada, a abriu e mandou que os outros entrassem. Faldan e Ehrin esperavam por notícias no corredor, do lado de fora do aposento. Estavam impacientes e ficaram alegres ao serem chamados por Ruprest. Numa mesa perto da janela estava uma bandeja de prata, repleta de frutas frescas.

            Faldan tinha marcas de ferimentos e exibia alguns curativos no braço e no pescoço, que deixaram Patton curioso. O elfo pegou a bandeja de prata e levou-a para Patton. Alya serviu um copo de água para ele, ajudando-lhe a beber. Depois, ainda intrigado, perguntou:

            - Onde ganhastes estes ferimentos? Parecem feitos por uma fera e não pelas espadas yushers. E mesmo que tivessem garras e dentes afiados, duvido que eles conseguissem te acertar um golpe sequer, quanto mais deixá-lo neste estado.

            - É uma longa história essa, Patton. Mas agora que estamos a salvo e longe dos exércitos do oeste, acho que poderei contar-te-a toda. - respondeu Faldan.

            Ruprest pediu a Ehrin que fosse rapidamente até a sala do trono para avisar à Rainha Thalien e ao druida Ernandor do despertar de Patton. O rapaz saiu em disparada e logo voltou.

            Logo atrás de Ehrin estava Ernandor. Tinha um rosto pálido e parecia mais altivo e nobre do que antes. No entanto, ao entrar, despertou medo em alguns, pois tinha o semblante sério e frio.

            - Pregastes um susto em todos nós, Patton. E, embora eu saiba que não é o momento mais propício para recriminar-te, tu sabes que este incidente poderia ser evitado se você não fosse tão teimoso. - falou o druida severamente, mas ao mesmo tempo com uma suavidade acalentadora na voz - Teu coração é bom, mas duro e cheio de orgulho.

            - Sinto causar este transtorno a todos vocês. Alguma magia me impulsionou no campo de batalha e foi mais forte do que eu poderia imaginar. Quando vi o cavaleiro me desafiando fui tentado a me testar. - desculpou-se o aventureiro.

            - Não foi magia. O inimigo vê teu coração e sabe de tuas fraquezas. Se te chamo a atenção, não é pelo transtorno, Patton. Nossos corações ficaram pequenos, principalmente o de Alya. A sua morte seria como o fim de uma esperança para todos nós. Mas eu conheço muito bem o inimigo e sei de suas artimanhas. Você também deve conhecê-lo para estar preparado para quando voltar a encontrá-lo.

            - Mas o inimigo foi derrotado, Druida. Não haverá uma próxima vez. - disse Alya com uma voz temerosa - Eles se foram, não é mesmo, Patton? - continuou ela, procurando o respaldo do amado.

            Um silêncio sinistro se fez no quarto e Patton baixou os olhos. Mas Alya o abraçou com cuidado para que o ferimento não fosse tocado. Ruprest deu uma pigarreada e olhando para os demais, começou a falar:

            - Se quiseres, agora Faldan pode lhe contar sobre o que aconteceu a ti durante estes nove dias em que ficaste aqui entre a vida e a morte. E Ernandor poderá lhe dar as boas notícias vindas do sul.

 

            Patton olhou para o meio elfo e se ajeitou na cama. Todos tomaram seus lugares nas diversas cadeiras feitas de cedro que estavam ajeitadas em círculo naquele quarto. Apesar de conhecerem aquela história, queriam ouví-la mais uma vez, pois era, sem dúvida, emocionante.

            Faldan prendeu seu cabelo e se preparou para narrar sua aventura. Bebeu um copo de água, levantou-se e pôs-se a contar a história:

           

            - Como você deve se lembrar, o Cavaleiro Negro o desarmou no Campo de Celemar e o atravessou com sua lâmina negra. Poucos dos nossos te viram tombar e, mesmo os que viram, não tiveram coragem o bastante para se aproximar, pois ainda temiam aquela figura aterrorizante.

            - Eu estava em meio à batalha quando percebi Tawan sozinho sem seu cavaleiro. Corri para o local e te achei ferido, estirado no chão. O sangue manchava o uniforme de Locksun e saia por sua boca e seu tórax. Percebi que a situação era grave.

            - Logo Ruprest chegou. Ele ainda tinha uma flecha fincada em seu ombro, mas parecia mais preocupado com seu ferimento do que com o dele próprio. Seu rosto estava pálido e os olhos muito fundos. Parecia um cadáver.

            - Ernandor também nos viu e ordenou que eu te levasse para o norte montado em um unicórnio, pois o ferimento não poderia ser curado com a medicina. Mesmo a água de cura de Nayan não foi o bastante para cessar o sangramento. Segundo as palavras do nosso amigo druida, somente aqui, em Palari Kadun o veneno da lâmina negra poderia ser combatido.

 

            - Rapidamente eu montei no unicórnio e coloquei-o na minha frente. Era um belíssimo animal, que só depois eu vim saber que era Auhin Cembor, Rei dos Unicórnios, a mais veloz e forte montaria de Enthär. Não precisei dar nenhum comando para que ele partisse rápido como um falcão, mas suave como se seus cascos não tocassem o solo.

            - A noite já tinha caído sobre nós e o unicórnio não parava nem por um minuto. A escuridão era grande, até mesmo para mim, que tenho a visão privilegiada. Uma névoa parecia tapar meus olhos. Não era algo natural. Eu sentia que o mal nos seguia e seu corpo estava frio como a neve.

            Ao ouvir este trecho da história Alya, segurou forte a mão de Patton como se sentisse o que as palavras de Faldan narravam. O meio elfo interrompeu a fala por um segundo para beber mais um gole de água e limpar a garganta seca. Ehrin tinha os olhos vidrados nele e estava ansioso para que ele prosseguisse.

            - A esta altura, as patas de Cembor golpeavam fortemente o solo de Celemar, quebrando o silêncio da noite negra. O esforço por vencer o percurso o mais veloz possível era notado em sua respiração pesada e o frio fazia suas narinas exalarem fumaça.

            - Se alguma viva alma nos observasse naquela busca incansável, certamente adivinharia que se tratava de um espectro a passar pelo campo. Cembor cortava o caminho de volta como uma flecha e, o som de seus cascos em choque com a terra parecia com o dos tambores de mil exércitos.

            - Bem, eu imaginei que havia um mal muito grande nos assolando. A noite era escura, sem estrelas e sem lua. Um vento frio soprava do norte quando senti um odor horrível invadindo minhas narinas. Algo como o cheiro de carne podre que senti, durante dias dentro das ruínas, antes que vocês me salvassem. A cada passo de Cembor, o frio aumentava e o odor ia se tornando quase insuportável.

            - Ao longe, avistei dois pontos vermelhos que brilhavam como um fogo pálido de tochas há muito acesas. Prossegui.  Ao me aproximar notei que eram os olhos de uma criatura que as sombras da noite não me permitiam distinguir. Puxei forte a crina de Cembor e te segurei junto a mim para que não caísses. O vulto tinha a forma de um urso, mas era bem maior e fedia bem mais do que cem cadáveres. Ele parecia nos esperar ali, sentado, apoiado sobre suas patas traseiras, com seus olhos brilhantes nos observando.

            O elfo contava a história e ninguém ali ousava interrompê-lo em momento algum. Nos momentos de pausa, podia se ouvir perfeitamente a respiração tensa dos demais. Ruprest segurava firme na empunhadura de sua espada, imaginando a situação terrível passada pelos amigos. O velho ruivo já tinha ouvido aquela trama duas vezes, mas seus nervos ficavam tensos a cada vez que ela era recontada.

            - Cembor se aproximou lentamente da direção do vulto, mas de repente cessou bruscamente. O Rei dos Unicórnios empinou as duas patas dianteiras, mas não nos derrubou. Eu, mais uma vez, segurei firme em sua crina e me equilibrei.

            - Estávamos a poucos curvos da fera, suas formas já estavam bem mais definidas, mas ainda assim não passavam de sombras no breu. Eu nunca havia visto ou escutado falar de nada parecido em toda a minha vida e meu sangue gelou ao ouvir aquela respiração compelida.

            - Por alguns segundos eu e Cembor encaramos a criatura sem nada fazer. Ela também permaneceu imóvel por algum tempo, como se nos estudasse. Mas, de repente, como um trovão, a criatura se levantou sobre suas patas traseiras e urrou. Urrou como que dominado por um ódio profundo e seu berro ecoou por todo o campo, fazendo o chão tremer e o ar correr forte, trazendo aquele odor indescritível para a nossa direção.

            - O unicórnio deu um passo para trás e eu tive que proteger meu rosto com um dos braços. Tive a sensação de que ele nos atacaria, mas ele ficou ali, de pé a nossa frente, nos aterrorizando por mais alguns instantes.

            - Me preparei para o pior. Sabia que o ataque era iminente e que não tardaria. Pensei em desviar meu caminho e dar-lhe a volta. Porém, algo dentro de mim avisava que a fuga seria em vão. Então saquei o arco e armei uma flecha.

            - Cedo foi o inevitável. A criatura ficou mais uma vez apoiado nas quatro patas e deu um passo a frente. Cembor não vacilou e se manteve imóvel. Tenho certeza que, se montasse um cavalo naquela hora, o animal teria se aterrorizado e teria sido nossa ruína, Patton.

            - Tenho certeza que sim. - comentou Patton, interrompendo a narrativa - Mas talvez não, se este cavalo fosse Tawan.

            - Talvez. - concordou Faldan - Mas não tenho toda esta certeza. Tenho que admitir que nunca senti um medo assim em minha vida e acredito que seria assim com qualquer um, elfo ou anão.

            Ruprest franziu a testa e lançou um olhar severo para o elfo, o recriminando por citar o povo anão. Faldan deu um pequeno sorriso e bebeu mais um gole de água.

            - Bem, talvez um anão não sentisse todo esse medo, mas eu senti. E, embora estivesse assustado, soltei minha flecha na direção da fera, numa tentativa frustrada de feri-lo.

            - A flecha se perdeu na escuridão e a criatura nem sequer se moveu. Percebi então que teria que usar uma arma mais contundente contra aquela besta, ou acabaria morto sem completar a missão a mim incumbida.

            - Olhei para o seu corpo inerte a minha frente, Patton. Devo lhe atestar que, em seu estado, um cadáver ganharia uma corrida. Você estava pálido como mármore e sua respiração não passava de alguns suspiros. Cembor relinchou e bateu com uma pata no chão, tentando intimidar o monstro. A resposta foi outro urro grotesco como o primeiro.

            - Segurei o punho de uma de minhas adagas e senti que não era a arma ideal. Essa foi a hora em que vi em teu cinturão, a Lâmina Askai embainhada. Hesitei em sacá-la por alguns instantes, mas puxei-a de uma só vez. Ela irradiou um brilho magnífico. A escuridão da noite dera lugar a uma penumbra razoável, como se a lua estivesse alta e cheia.

            - Antes a escuridão não tivesse nos deixado. A luz de tua espada iluminou o local e finalmente revelou todo o horror daquela criatura. Era realmente um ser feito de ossos e carne decomposta que exalava aquele fedor. Tinha um crânio comprido de onde saiam uma fileira de chifres de vários tamanhos que se estendiam até o meio do dorso. Em seu abdome quase não se via carne, só os ossos das costelas que tornavam visíveis as suas vísceras apodrecidas.

            - Quando a criatura viu o brilho da espada, eu pude notar certo receio, mas foi nesta hora que ela deu seu terceiro e mais poderoso urro. A fera mostrou seus longos dentes, todos escuros e recheados de carne podre de algum ser que virara alimento, mas eram fortes e afiados. Depois o monstro correu para cima de nós.

            - Cembor mais uma vez empinou, mas desta vez, num movimento mais suave e majestoso. O unicórnio estava confiante com o brilho da Askai e atacou o monstro com seu chifre. Eu aproveitei a proximidade da besta para golpeá-la, mas ela se esquivou do ataque, num movimento incrivelmente ágil, levando-se em conta o seu tamanho.      

            - A criatura tentou dar uma mordida em meu braço, mas eu defendi sua investida com a espada e ele se feriu. Não possuía sangue, mas percebi sua dor e mais uma vez investi contra ele. Desta vez o golpe acertou seu crânio e ele teve de baixar. Cembor também o estocara com seu chifre e o golpeava com suas patas.

            - Os golpes tinham sido duros, mas a fera reagiu e com suas garras, feriu gravemente Cembor. Olhei para o peito alvo do unicórnio. Vi bastante sangue escorrendo ali e senti que era o momento de tomar uma decisão. Saltei do unicórnio e mandei que ele te levasse para casa o mais rápido que ele conseguisse.

            - A partir daí, o combate se desenvolveu de uma forma mais violenta e cruel. Praticamente durante horas eu me esquivava dos fortes golpes da criatura e esperava chances para um contra-ataque. Apesar de toda a minha agilidade, esses momentos foram poucos, pois eu estava cada vez mais cansado. Minhas pernas pareciam estar atadas a pedras e meu pescoço quase não conseguia suportar o peso de minha cabeça. No entanto, a criatura parecia não se abater e, mesmo que de raspão, seus golpes acabavam por me ferir.

            - Tive o azar de me deixar ferir por uma patada da fera que me rasgou o braço. Quase sucumbi, mas consegui me recuperar e atacá-lo novamente. Por três vezes fui atingido por suas garras afiadas, mas com um golpe potente e carregado de ódio, parti uma das patas da criatura. Gritei numa explosão de fúria e senti pela primeira vez que realmente tinha uma chance de sair vitorioso daquele embate. O monstro não conseguia mais se locomover com a agilidade de antes e eu me aproveitei para saltar por sobre sua cabeça e cravar-lhe a Lâmina de Askai no alto de seu crânio.

            - Ele emitiu mais um grito, mas esse era diferente, denotava dor. Vi seus olhos lentamente perderem o brilho vermelho e suas patas perderem as forças até não agüentarem o peso daquela carcaça podre. A fera estava morta, se é que algum dia ela esteve viva, mas eu estava completamente envolto numa crosta de sangue e suor. Minhas pernas já não sustentavam meu corpo e finquei a espada no chão para me firmar. Ajoelhei-me e tentei me manter ereto apoiado ao guarda mão da espada, mas o esforço foi em vão. Tombei ali no breu da noite e daqui por diante, esta história seria mais bem contada por Ruprest, ou talvez Ernandor.

            Um suspiro uníssono foi ouvido naquele quarto. Mesmo com a temperatura agradável, os espectadores suavam ao acompanharem a narrativa do meio elfo e ficavam tensos ao imaginar as cenas daquele combate.

            - Bem, eu só tenho que agradecer-te por ter salvo a minha vida, Faldan. Alegro-me de ver que estais recuperado deste encontro enfadonho. Esse é o tipo de acontecimento que merece virar uma bela canção élfica, meu amigo. - disse Patton.

            - Sim, mas esta história ainda não acabou. - disse Ruprest, limpando o suor de sua testa com um lenço que guardava num bolso do colete que usava - Se bem, que a parte mais tensa já passou, agora que sabemos que tu estás bem.

            - Realmente, meu amigo. Agora que Patton está se recuperando e você está mais calmo, seria agradável ouvi-lo contar o resto desta história. - sugeriu Ernandor.

           

            Ruprest se levantou e ajeitou o cinto de couro marrom, onde levava suas espadas centenárias. Pegou novamente o lenço, secou o suor que lhe escorria pelo canto da boca e começou a relatar a seqüência de seu ponto de vista.

            - Como o elfo disse, ficamos preocupados com o seu ferimento, Patton. Ernandor me disse que você não sobreviveria àquele ferimento se permanecesse ali. Então ele mandou que Faldan o trouxesse para cá, montado naquele belo unicórnio.

            - A batalha estava quase terminada. Tivemos uma vitória esplendorosa, mas o custo fora alto. Milhares de baixas entre os soldados, além de você, que até aquele momento não sabíamos se sobreviveria ou não.

            - Ázaro partiu para Dracon. Nós enterramos nossos mortos com honras e queimamos as carcaças malcheirosas de orks, duhr kazur e yushers. Esperamos por notícias do sul por dois dias e quando o falcão mensageiro chegou, os corações se elevaram. O Rei Endor sagrou-se vitorioso na frente de batalha sul. A batalha lá se mostrou mais fácil do que em Celemar. Os anões vieram mais uma vez em socorro do povo de Nordwil, liderados pelo Rei Owid e seu filho Mandoon. Embora o próprio Rei Endor não estivesse à frente do exército, pois não tinha condições para isso, a batalha foi breve, comandada por seu sobrinho, Lorde Fya. O povo de Driev montado nos Grandes Lobos mostrou para todos que, além de grandes ferreiros, são guerreiros vorazes.

- Logo que recebemos as boas novas partimos de volta para casa e o Lorde Locksun ordenou que fossem feitas patrulhas de caça para aniquilarem os inimigos que ainda estivessem em nosso solo.

            - Cavalgamos em ritmo lento, pois tanto cavalos como guerreiros estavam exaustos. Os boatos sobre sua sorte eram cada vez maiores. Capitães vinham perguntar sobre o seu estado, mas infelizmente nenhuma resposta havia chegado de Palari Kadun. Após uma grande marcha, avistamos ao longe um vulto de uma carcaça imensa.

            - Devo salientar que se não tivesse visto de perto tal criatura, não acreditaria nas palavras de Faldan. A criatura era realmente hedionda e putrefiz. Estava jogada no solo, mas a grama abaixo dela estava queimada. Ao lado, jazia o corpo do nosso companheiro elfo. Ao vê-lo, senti sua perda, pois estava em situação pior do que quando o encontramos da primeira vez. Mas Ernandor desceu de sua montaria e achou um sinal de vida em meio ao sangue, lama e suor que o cobriam.

            - Com ajuda de dois soldados, colocamos o rapaz numa das carroças de mantimentos e o druida foi fazendo curativos. Em minha mente, só sentia que o elfo falhara em sua missão de levá-lo para casa, porém Ernandor lembrou-me que o unicórnio não tinha perecido e, certamente teria seguido na missão.

            - Finalmente, após dias de viagem, estávamos chegando a Locksun. Uma multidão foi nos receber com honrarias, mas nem eu nem Ernandor tínhamos tempo a perder. O Duque entrou na cidade sob aplausos e brados de glória, mas disse que logo viria buscar Lady Lavia. Ele prometeu que Faldan seria cuidado de seus ferimentos e que tão logo se recuperasse, cederia um cavalo para que viesse para cá. Despedimos-nos de Janô e cavalgamos o mais rápido que as patas de nossas montarias podiam se movimentar.

            - Quando chegamos à Floresta dos Unicórnios fomos interceptados por Serger e Aleyan. Eles nos deram logo notícias de você. Disseram que o unicórnio havia chegado lhe trazendo, dias atrás. Serger disse que sua febre era alta, mas que a Rainha havia chamado Rino, o druida do Olmo, para cuidar de você. Ernandor me garantiu que nas mãos de Rino, você estaria a salvo.

            - Quando chegamos, você já estava nesta cama e Rino já havia partido, pois nada mais poderia fazer e, ao que parece, tinha assuntos importantes a tratar ao sul.

            - Faldan chegou aqui dois dias depois de nós, acompanhado do Duque, que viera buscar sua esposa. E assim, você foi salvo do manto de Grey.

            - É Ruprest. Seu amigo foi salvo por elfos. Não só uma vez, mas duas. E isso você carregará por todos os dias de sua vida. - disse Faldan - E um elfo do sul, como aqueles que os anões acusam de ladrões.

            Por um momento, Ruprest se enfureceu. Seu rosto enrubesceu e sua garganta engoliu a seco. Mas, mantendo a calma virou-se para Faldan e disse:

            - Por terem salvado a vida daquele por quem tenho mais apreço nessa vida e por não deixarem que eu faltasse com a minha palavra, dada a Raicar, a quem prometi cuidar dele até o final da minha vida, estou grato até o dia de minha morte. Estarei grato a ti, mesmo que me apunhales pelas costas, pois conheço minhas qualidades e meus defeitos e sei que dentre estes últimos, não consta a ingratidão. Porém, me sinto como um anão, pois em Driev cresci e considero o povo de lá minha família. Pelo o que teu povo fez ao meu, não há desculpas. Apesar de acreditar que entre o joio há trigo e saber que tu és digno de confiança e de meu respeito.

            O clima no quarto ficou pesado, mas apesar de tudo, o respeito entre os dois era recíproco e a amizade por Patton os deixava mais unidos. Ernandor interveio na conversa acalentada, mas parou de falar ao perceber a porta se abrindo e uma claridade invadir o aposento, bela como a dos primeiros raios do sol da manhã.

            Era a majestosa Senhora de Palari Kadun, que viera visitar seu hóspede. Ao seu lado estavam duas de suas damas élficas. Lindas elas eram, mas eram ofuscadas pela beleza de sua senhora. 

            - Bom vê-lo acordado e disposto, Patton, filho de Raikar. Seus amigos quase sucumbiram esperando por uma melhora sua. Ernandor foi sábio em suas palavras te repreendendo, mas eu sei, mais do que ninguém, o quanto o inimigo pode ser ardiloso. Sei também que tu não cometerás o mesmo erro duas vezes. Não caminhará novamente por cima de seus próprios passos. Enfim, não falarei mais de tristezas e mau agouros. Hoje é um dia de felicidade e os pássaros de Palari Kadun poderão voltar a cantar como antes. Os povos do leste, Anões, Homens e Elfos poderão festejar mais uma vitória sobre o oeste. Embora cedo seja a hora de voltarmos a nos enfrentar na última das batalhas desta nova Guerra das raças.

 


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A Batalha do Grande Fosso

Postado por admin em Novembro 11th, 2008 na categoria: Uncategorized
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U

m falcão mensageiro fora mandado naquela noite. Em suas asas, voava uma mensagem para as tropas de Nordwil: “A Batalha será daqui a dois dias, próximo ao lago Seiur. Contamos com sua força”.

            Ázaro reuniu seus homens e os cavaleiros de Ka se uniram a ele. Logo o comandante Janô reunia todas as pás e picaretas que estavam no acampamento. O comandante permaneceu no local para comandar a infantaria na marcha do outro dia.

            Não demorou muito para que os mais de dois mil cavaleiros partissem em meio ao breu, rumo ao local onde haviam decidido interceptar o inimigo.

            Segundo as observações dos batedores, dias atrás, o inimigo marchava lentamente devido ao volume de soldados e a dificuldade em transportar as máquinas de guerra num terreno irregular. Mas, apesar disso, chegariam ao lago Seiur em dois dias, no máximo.

            Faldan seguia na frente, guiando os cavaleiros. Nenhuma tocha foi acesa naquela noite e os cavalos se deslocavam acelerados. O ponto que seria palco da batalha ficava a cento e cinqüenta ceres do obelisco e se continuassem a cavalgar naquele ritmo, chegariam lá pouco depois do amanhecer.

            Patton estava preocupado com a divisão das tropas. Seu plano era audacioso, porém arriscado. O aventureiro apostava que, mesmo se o inimigo notasse o deslocamento da cavalaria, não tentaria um ataque direto contra a infantaria, pois isso atrasaria seu destino, que era Nordwil.

            Mas essa era apenas uma das preocupações do rapaz. E se a infantaria não chegasse a tempo? E se o falcão fosse interceptado pelo inimigo e as tropas de Nordwil nunca soubessem onde seria a batalha? E se a superioridade numérica fosse tão grande que mesmo com o ardil do fosso, a batalha fosse um massacre?

            Muitas dúvidas pairavam pela mente de Patton. Ele tentava a todo o momento desviar sua atenção para coisas boas, como o doce sabor da boca de Alya. Afinal, não adiantava tanta preocupação durante a cavalgada. Teria ainda tempo o suficiente para reflexões quando chegasse.

            Ruprest cavalgava ao lado de Ázaro e ambos permaneceram calados por muito tempo. No entanto, Ázaro se pronunciou:

            - Lembra muito o pai. - sussurrou ele olhando para Patton - Cuidaste bem deste rapaz, meu velho. Ele cresceu forte e determinado. Será um líder, com toda certeza.

            - Sim, mas me deu muito trabalho. - comentou Ruprest - Mulherengo, gozador e grande apreciador de cerveja. Quantas vezes bebeu tanto que mal conseguia se lembrar da noite anterior? E por várias vezes fora motivo de chacotas de pessoas sem metade de seu valor.

            - E não era assim Raikar? Dado às farras e às mulheres. Mas quando foi preciso, mostrou sua responsabilidade. Assim Patton fará também.

            Poucas vezes a caravana parou e a cada pausa, pouco tempo era perdido. O sol despontou ao leste e foi lentamente se erguendo. Os cavalos estavam cansados, mas não diminuíam a velocidade e no meio da manhã chegavam ao lago Seiur.

            - Não há tempo para descansar, disse Patton. Não temos pás o suficiente para todos cavarem. Então, dividiremos os soldados em três grupos. Um grupo começará a escavar o fosso. Temos cerca de cem pás, cinqüenta picaretas e usaremos as alabardas e os machados também. Outro grupo irá cuidar dos cavalos e montar as tendas. O restante se organiza em unidades de seis homens e patrulha toda a área. Faldan cuidará da vigilância.

            Os comandantes ouviram as ordens de Patton e as transmitiram para os soldados. Cerca de quinhentos homens começaram os trabalhos de escavação, a dois ceres do lago. Patton retirou sua armadura e se engajou no trabalho. Conforme as suas recomendações, o buraco teria dois curvos de profundidade por quatro de largura, para que a subida não fosse muito íngreme para os cavalos.

            O trabalho era árduo e a cada uma hora os homens eram substituídos por aqueles que cuidavam dos cavalos. O dia se passou assim. A temperatura estava agradável, mas o sol queimava forte a pele branca dos homens de Locksun.

            Patton cavava sem parar e lamentava que Janô não estivesse ali, pois este sim tinha habilidade neste tipo de trabalho.

            No final da tarde, um cavaleiro enviado por Faldan veio trazer uma mensagem. Dizia ele que as tropas de Nordwil chegariam ao cair da noite. Patton esperou e tão logo o sol se pôs, as fileiras do Rei Endor chegavam às margens do lago.

            Infelizmente, para Patton, eram soldados desmontados. Contavam em mil e trezentos homens, divididos em três pelotões. Os arqueiros formavam em duzentos, o que deixou Patton mais otimista. O segundo pelotão era o dos Falcões do Rei, uma tropa de elite da infantaria, munida de armas de haste e vestindo roupas negras e vermelhas. A última e mais numerosa das tropas era a da infantaria convencional, que marchava em cinco filas, sob o repique de tambores.

            Quem estava no comando era Dars, um guerreiro experiente que havia lutado nos campos do sul na Guerra das Raças. Baixo, mas forte, tinha uma cabeça grande e pouco cabelo. O comandante olhou para o campo de atividades e disse:

            - O rei Endor nos enviou. - disse ele ao chegar - Estamos prontos para nos engajar às tropas de Locksun.

            O duque o recebeu e pediu para que ele entrasse numa das tendas armadas ali, para colocá-lo a par dos planos e da situação. Os soldados esperaram por seu comandante por alguns minutos e quando ele saiu, deu ordens para que todos descansassem por três horas e depois se revezassem nas escavações.

            A noite já tinha chegado quando Patton foi procurar Ruprest. O velho conversava com o amigo Draconiano, quando o rapaz apareceu.

            - Velhos amigos trazem velhas lembranças. - disse o rapaz - O que tanto falam dois guerreiros das épocas antigas?

            - Somos das épocas antigas e, no entanto, vamos participar de mais uma batalha. Isso quer dizer, no mínimo, que somos sobreviventes. Mas na realidade, nós somos o terror dos campos do leste. - bradou Ázaro, arrancando uma gargalhada de Ruprest e Patton.

            - Vocês são dois abutres que só fazem tagarelar. - respondeu Patton, atormentando-os.

            Ruprest e Ázaro deram mais uma gargalhada e viram o rapaz dar as costas a eles e partir. Ruprest ficou observando Patton com orgulho e antes, que se afastasse demais, perguntou:

            - Aonde vais, seu buzarate? Sente-se aqui e beba uma caneca de um bom rum, que este guerreiro trouxe do sul.

            - Preciso tomar um ar e refletir. Em algumas horas estarei de volta. Não se preocupem. Sei me cuidar. E como não existe taberna alguma nas imediações, não corro o risco de me embriagar e me esquecer da batalha.

            Patton seguiu andando pelo acampamento. Alguns homens ainda trabalhavam no fosso e ele estava quase completo. O rapaz se dirigiu para a área onde estava descansando Tawan, seu corcel.  

            O garanhão negro estava sem sela e repousava ao lado de outros cavalos de comandantes. Destacava-se de todos os outros pelo tamanho e pelo porte.  Patton chegou perto dele e o observou. Depois, lhe fez um agrado na cabeça e disse:

            - Amanhã será um grande dia, meu rapaz. Acho que estás mais preparado para isso do que eu. Mas talvez, nem eu, nem você saiamos vivos deste inferno.

            O cavalo relinchou e bateu com a pata dianteira no solo. Patton fitou seus olhos, que pareciam querer dizer alguma coisa. O aventureiro então soltou a corda que o prendia e, mesmo sem sela, subiu em seu lombo. Golpeou suavemente o animal com seus calcanhares e partiram numa galopada desabalada, rumo ao sul.

            Uma unidade de vigilância fez menção de parar o cavaleiro, mas hesitou ao reconhecer o Senhor da Guerra de Locksun.

            Tawan galopava em um ritmo alucinado, como se fugisse de algum algoz. Seu pêlo escuro quase desaparecia na noite e seus cascos fortes e furiosos faziam o solo tremer.

Patton cavalgou no dorso do cavalo por mais de dez ceres. Em sua mente, sempre as mesmas dúvidas: estaria ele liderando milhares de homens direto para a morte? Quanto mais pensava, mais Tawan corria. Os dois cavalgaram ininterruptamente, até acharem uma dúzia de árvores que se agrupavam em meio ao descampado.

            Patton achou que era hora de voltar para o acampamento e puxou a crina de Tawan para que ele fizesse o contorno. No entanto, o rapaz viu uma luz fraca saindo do meio das árvores. Tawan se negou a dar a volta e relinchou.

            O aventureiro saltou do dorso do animal e, observando o brilho que variava de intensidade, fez com que o animal se acalmasse.

            O brilho foi aumentando lentamente e então Patton desembainhou sua espada. Na mesma hora, sua lâmina irradiou um brilho azul. Ele fez com que Tawan parasse ali e deu alguns passos para perto das árvores.

            Seus olhos pareciam estar hipnotizados por aquele cintilar. Passo a passo, Patton foi se aproximando e seu rosto empalideceu ao notar a imagem de Thalien, a Senhora dos Unicórnios.

            - Pode guardar tua lâmina, Patton. Hoje ela não verterá sangue.

- Senhora? O que fazes aqui? Algo de ruim aconteceu a Alya?

            - Não, Patton. É contigo que me preocupo. Amanhã será um dia de batalha para você. Não só um embate entre dois exércitos, mas uma luta sua para provar a si mesmo que é capaz de liderar e sair vencedor. O destino desta guerra ninguém sabe, mas o que me preocupo é com o que o vento me disse esta noite. – ela continuou - Temo pelo que pode acontecer com você, pois o Lâmina Negra estará no campo de batalha. Ele virá atrás de ti. Quer certificar-se de que tu não sairás vivo deste embate.

            - Mas você deve evitá-lo, pois ainda não está pronto para enfrentá-lo. Ele tentará te atrair até ele. Patton, você não pode confrontar tal poder. É cedo para isso.

            - Do jeito que falas, me parece que tu conheces ele mais do que qualquer um. Mesmo Ruprest, que já o encarou de perto, não fala dele com tanto medo. - disse Patton.

            - A minha história e a dele estão unidas pelo passado. Se hoje sou a Senhora dos Unicórnios, foi por conseqüência de seus atos. E se ele se tornou o que é hoje, é por não ter me ouvido quando o chamei. Mas isso não importa agora, vim apenas te informar do perigo que corres. Mantenha-se longe de Lorde Gwilber e não se aflija, a ajuda chegará.

             Patton viu a figura da bela mulher desaparecer lentamente. Tentou perguntar sobre Alya, mas não conseguiu. Embainhou sua arma e voltou para perto de Tawan. O cavalo estava ali estático, mas parecia não ter se assustado com a aparição.

            O jovem Senhor da Guerra subiu em Tawan de um só pulo. O cavalo prontamente o levou de volta ao acampamento. Patton se sentia mais leve depois da aparição da Senhora dos Unicórnios.

            Ao se aproximar do acampamento, Patton percebeu uma movimentação. Uma pequena confusão se armara perto do fosso. Ruprest e Ázaro estavam de pé e em volta deles alguns soldados observavam o campo a frente.

            Quando Patton chegou, foi logo informado do que acontecera. A unidade de vigilância em que Faldan estava tinha encontrado um espião ork e o próprio elfo havia abatido o intruso.

            Faldan estava puxando a carcaça do ork cravada de flechas e se preparava para atear fogo. Muitos soldados gritavam e festejavam a mira certeira do colega. Ehrin estava empolgado e foi contar a cena a Patton.

            - Graças a Faldan, nosso ardil está a salvo do inimigo. O maldito ork estava camuflado no meio do mato alto. Montava uma égua baia e observava nossa unidade.

            - Nós não havíamos avistado o espião, Patton. Mas Faldan o detectou e galopou em sua direção, já com o arco em mãos. Ao perceber que Faldan ia em sua direção, o ork tentou fugir. Golpeava o lombo de sua montaria com um galho de árvore, mas Faldan foi ligeiro. Quando ele subia uma pequena colina Faldan desceu de seu cavalo e soltou duas flechas de uma só vez, antes que o alvo saísse de seu campo de visão.

            - O ork caiu, mas ainda não estava morto e tentou subir na égua. Faldan puxou mais uma flecha e o atingiu em cheio. Quando conseguimos alcançar Faldan, o ork já estava morto.

            Patton, que ouvia a tudo prestando atenção aos detalhes, deu um sorriso para Ehrin e olhou o meio elfo, que gozava dos louros de sua façanha.

            - Tens certeza que este estava só? Não havia nenhum outro inimigo com ele? - indagou ele.

            - Procurei rastros, Patton. Só encontrei o dele e os nossos. Nada mais. Nosso segredo está garantido para o dia da batalha. Mas eles estão perto daqui. Amanhã será o dia, com certeza. Espero que nossa infantaria chegue e rápido. - relatou o elfo.

            Apesar da admiração, os soldados estavam intrigados como aquele cavaleiro conseguia ter tão boa mira na escuridão. E ainda, conseguia procurar rastros de cavalos durante a noite. Ázaro também estava curioso e já desconfiava, contudo perguntou:

            - Fico feliz em saber que temos um vigilante que até em noite escura consegue acertar três flechas num ork em fuga. Mas diga-nos, rapaz. Qual o teu segredo? Fostes criado em uma caverna escura e enxergas em meio ao breu?

            Ruprest fechou a cara ao se lembrar que o companheiro era da raça dos elfos. Patton sorriu, mas não delatou o amigo, esperando que a revelação fosse feita pelo próprio.

            Faldan soltou o corpanzil do ork no chão e virou-se para o draconiano. Todos que observavam estavam na expectativa de uma resposta do arqueiro e Faldan finalmente retirou o bacinete de sua cabeça, deixando a mostra suas orelhas pontiagudas.

            Os soldados ficaram espantados, mas Ázaro, que já suspeitava, deu uma gargalhada. O cavaleiro fitou o rapaz nos olhos e depois se virou para Ruprest.

            - Quer dizer que o amigo dos anões agora anda lado a lado com elfos? - indagou com ar de deboche.

            Ruprest deu as costas e resmungou algumas palavras, mas Ázaro tornou a olhar para Faldan e parabenizou pelo bom trabalho. Os soldados que estavam surpresos, agora eram só admiração. Muitos nunca haviam visto um elfo, porém a maioria gostou de saber da procedência do arqueiro, pois era notória a habilidade destes com o arco.

            - De volta ao trabalho. - berrou Patton - Agora que todos já conhecem o capitão dos arqueiros, podem voltar a seus afazeres. Temos uma batalha ferrenha amanhã. Precisamos que tudo esteja pronto antes do raiar do dia.

            A rotina voltou ao acampamento e horas antes do amanhecer, o imenso fosso estava pronto. Os cavalos estavam posicionados e os soldados puderam descansar.

            Nas primeiras horas do dia, Janô chegava liderando a infantaria. Foi recebido por Locksun, que ordenou que seus soldados também descansassem até a chegada dos mensageiros com a notícia de que a guerra era iminente.

            O meio do dia chegou e uma refeição foi servida. O rum já havia sido suspendido desde o raiar do dia. Somente água era servida para matar a sede. O vento soprava forte e assobiava. Fazia os galhos das pequenas moitas se envergarem e parecia trazer maus presságios. O sol brilhava alto, mas não tinha a intensidade do dia anterior.

            Era por volta da terceira hora quando um cavalo veio em galope veloz na direção do acampamento. Era um mensageiro de Ka, que vinha trazer a notícia que todos aguardavam, mas ninguém queria ouvir:

            - Estão chegando. Avistei-os a dez ceres daqui. São muitos e seguem em ritmo acelerado.

            Um grande clangor de trombetas foi ouvido e todos sabiam o que aquele sinal significava. Houve um grande alvoroço, mas logo os capitães controlaram seus homens. Patton se levantou da cadeira onde polia sua espada e vestiu sua armadura. Depois foi ao encontro de Ruprest.

            O velho continuava conversando com Ázaro, mas ambos já estavam se preparando para a batalha. Patton pediu que um dos soldados encontrasse Faldan e Ehrin e os mandasse encontrá-los ali.

           - É, meu caro… Mais uma batalha iremos travar. - disse Ruprest, prendendo um protetor ao seu antebraço - Parece que as histórias se repetem. Alguns personagens mudam, mas outros continuam os mesmos.

           - Nossas vidas inteiras foram assim, Ruprest. Guerras, batalhas, disputas pelo poder. Hoje eu entendo porque Raikar decidiu se afastar e deixar essa vida belicosa. Uma luta como esta faz sentido, mas o povo dos homens é muito inconstante. Quando finalmente o mal é derrotado, ou afastado, começam as disputas locais pelo poder. Sempre foi assim e eu temo que isso nunca mude.

          - Mas os sonhos são feitos de esperança. - disse Patton, intrometendo-se na conversa dos dois - E é por isso que vocês dois continuam lutando.

          Ruprest e Ázaro concordaram e então Patton abraçou o velho ruivo. O caçador-de-bruxas havia cuidado dele como um filho, no entanto, apesar da diferença de idade, eles eram como irmãos. Ruprest sempre chamando sua atenção e ele, sempre atormentando sua paciência.

          Ehrin e Faldan chegaram naquele momento e então Ázaro desembainhou sua espada e convocou os outros que fizessem o mesmo. O pedido foi prontamente atendido e o Draconiano bradou:

          - Irmãos em armas, vamos à vitória!

          Os outros presentes repetiram o brado e seguiram Patton para onde as tropas se reuniam. A cavalaria já estava a postos e a infantaria se posicionava em concentração.

          Ficou decidido que dois pelotões de quinhentos homens ficariam à frente do grande fosso, para escondê-lo. Quem os liderava era o Próprio Duque de Locksun. Outros quinhentos arqueiros ficariam a frente da infantaria, liderados por Faldan. Ao todo, dois mil e duzentos cavaleiros esperavam dentro da escavação e todos os demais soldados de infantaria estavam atrás da cavalaria. Eram cinco pelotões, cada um contando com quatrocentos e vinte guerreiros.

          Patton, já montado em Tawan, foi à frente das fileiras e fez com que fizessem silêncio. Todos estavam posicionados e, sacando sua espada, o senhor da guerra começou a discursar.

          - Estão aqui por um ideal. Vamos aqui ser um dos focos da resistência contra uma força invasora, que deseja o domínio total de nossas terras, de nossas famílias e de nossas vidas. Se falharmos aqui, nada irá adiantar em parte alguma. Temos uma missão e muitos contam com nosso êxito. Se desapontarmos nossos irmãos do sul, seremos saqueados, escravizados e provavelmente mortos.

          - Não peço que sejam mais fortes do que podem ser. Não peço que não sintam medo. Não peço que gostem do que vão fazer. A única coisa que peço a todos vocês, é que lutem com a força de seus corações e dêem o melhor de si nesta batalha! Irmãos em armas, vamos à vitória!

         Os soldados, inflamados pelo discurso de Patton começaram a gritar. Muitos gritavam o nome do Senhor da Guerra, mas a maioria bramava em coro, berros de vitória.

         O moral do exército havia se elevado, mas a tensão não abandonara o campo de batalha. De repente um rufar de tambores foi ouvido ao longe. Era um ritmo frenético e logo veio também o clangor de cornetas. A terra começou a tremer quando as primeiras fileiras de orks começaram a aparecer.

 

 

 

         Logo, todo o horizonte estava tomado por guerreiros ostentando o estandarte da águia bicéfala. Vinham marchando e se concentrando. Primeiro os infantes, depois a cavalaria. Eram três mil cavaleiros yushers, montados com seus belos cavalos do oeste. Cavalos resistentes e de espírito forte. Os yushers eram baixos, mas fortes. Muitos usavam cabelos longos, mas que cresciam apenas do topo da cabeça e na nuca. A maior parte deles usava longos bigodes e tinha a pele bronzeada pelo sol.

 
 

 

          Os orks usavam bacinetes negros feitos de ferro e corceletes de metal cobertos pelo uniforme negro do oeste. Usavam escudos redondos, diferentes dos pentagonais de Locksun. A maioria vinha a pé, pisando forte no chão verde e gritando urros ininteligíveis para os homens do leste.

          Na retaguarda vinham os Duhr Kazur. Imensos e extremamente fortes, os gigantes puxavam quatro torres de cerco e três enormes catapultas. Eram poucos, mas grandes o bastante para encher de medo os corações dos guerreiros da resistência.

          Na frente de batalha de Swannpala, somente alguns poucos cavalos estavam fora do fosso, sobretudo os de oficiais, para não despertar suspeitas. Patton, que levara Tawan para o fosso, observava a tudo desmontado. Ele empunhava uma lança de cavaleiro de quase quatro curvos de comprimento e calculava ao longe o tamanho das forças inimigas. Segundo seus prognósticos, somavam mais de três mil cavaleiros e o dobro de infantes, além de milhares de arqueiros que se abrigavam nas quatro torres de cerco.

           Com uma visão privilegiada, o senhor da guerra avistou o comandante inimigo. Era o mesmo cavaleiro de armadura branca e dourada que havia observado dias atrás, em Phalanx. Patton procurava sem sucesso localizar o Lâmina Negra. As palavras de Thalien ecoavam em sua cabeça e o deixavam um tanto curioso e ansioso também. Janô se juntou a ele e disse:

           - Veja, Patton. Eles estão mandando uma comitiva. Devem ser emissários ordenando nossa rendição.

           - Avise ao duque! Vamos encontrá-los e mandá-los voltarem para o buraco fedegoso de onde eles saíram. Nenhuma rendição será firmada aqui. - disse Patton e depois cuspiu para o lado.

           Janô fez o que Patton pedira e trouxe três cavalos para que fossem ao encontro da comitiva. O próprio duque ia à frente do grupo, seguido por Patton e o comandante.

           A meio cere do grupo inimigo, Patton atestou que a comitiva dos opositores também era formada por um trio, mas se espantou ao perceber que o pequeno estandarte levado por um dos cavaleiros inimigos levava o brasão do urso verde de Phalanx.

          Chegando mais perto, Patton e seus aliados notaram o jogo maligno do inimigo. Seus rostos empalideceram e as expressões, outrora decididas, mudaram. Janô segurou no pomo de sua espada cuspiu para o lado e praguejou:

          - Pelos deuses, a maldade não tem fim!

          Trotando em cavalos yushers, três figuras hediondas se aproximaram. Eram homens de Phalanx que haviam sido espancados e sofrido toda sorte de crueldades.

          Os cavaleiros pareciam mulambos e estavam amarrados nos corcéis para não caírem. Um deles havia sido despelado e era difícil para Patton e seus amigos olharem para aquela figura.

          O porta-estandarte tinha o mastro amarrado em seu corpo e uma venda sobre os olhos. Patton se aproximou e, com sua espada, cortou as cordas que o prendiam ao estandarte. O rapaz colocou a mão em seu pescoço e atestou que, apesar de mortalmente ferido, aquele cavaleiro ainda vivia. Então, mais uma vez, ele usou sua lâmina, porém agora para cortar a venda que tapava-lhe os olhos.

          Para o horror da comitiva de Swannpala, o cair da venda revelou que os dois olhos do porta-estandarte haviam sido arrancados.

          O duque se aproximou de um dos cavaleiros moribundos e o reconheceu o próprio Duque Yubar, de Phalanx. Ele se aproximou do nobre do lago Vaërn e, como Patton, colocou a mão em sua garganta e garantiu:

          - Está morto!

          Janô não precisou fazer o mesmo com o terceiro cavaleiro para constatar que este estava morto. Sua carne despelada já começava a entrar em decomposição e atraía dezenas de moscas.

          Os três de Swannpala desmontaram de seus cavalos e cortaram as amarras que prendiam os cadáveres nos corcéis yushers. Recolheram os corpos e os deitaram nas selas de bruços. Patton sugeriu que o duque e Janô retirassem suas capas e cobrissem os corpos, para que a visão daquela barbárie não baixasse o moral da tropa.

          Patton e seus dois companheiros subiram novamente em seus cavalos e voltaram para as linhas de Swannpala trazendo os três cavalos com suas cargas sinistras.

         Os corpos foram levados para trás das linhas, mas os soldados curiosos não puderam ver o que acontecera. Patton desmontou. Juntou-se a Ruprest e detalhou em voz baixa o que havia acontecido.

         Ruprest se abaixou, apoiando-se no joelho esquerdo e olhou para o horizonte, onde as fileiras inimigas se organizavam. Respirou profundamente e, súbito, sacou suas espadas de prata e as fincou no solo até metade das lâminas. O velho olhou novamente para o inimigo e sentiu seu coração acelerar. Não era medo, porque o medo típico dos momentos que precedem uma batalha, havia lhe abandonado há tempos.

         As fileiras inimigas se preparavam, mas a distância fazia com que Ruprest não enxergasse tudo com nitidez o bastante para analisar a movimentação. Ele percebeu os cavalos yusher tomandoa vanguarda e ficou feliz, pois isso era sinal de que, provavelmente, estavam caindo no ardil de Patton.

         Ainda ajoelhado, Ruprest passou as mãos no chão, pegou um punhado de terra e esfregou nas palmas. Depois puxou uma bandagem que estava presa em sua couraça e a enrolou na mão direita. Segurou suas espadas e as embainhou.

        Quando se levantou, Ruprest foi abordado por um veterano do exército de Locksun. O soldado era mais velho do que Ruprest e não lhe restavam muitos dentes na boca, o que fazia com que sua fala fosse engraçada e sibilante.

        - Você é Ruprest? - perguntou o veterano, para surpresa do ruivo - Ruprest, o campeão dos anões? - insistiu o velho.

        - Quem quer saber? - retrucou Ruprest, cauteloso.

        - Ruprest, o campeão dos anões. Herói da Guerra das raças. - continuou o soldado - Lutei ao seu lado, senhor. Lutamos contra esses miseráveis na fronteira de Kalpang. No “Massacre do Keld”.

       - Não tivemos sorte naquela batalha. - disse Ruprest, tocando seu amuleto supersticiosamente, para afastar o mau agouro.

       - Muito azar, meu senhor. - concordou o veterano, mostrando seu braço direito, que terminava precocemente no punho, mas mesmo assim, tinha um broquel amarrado - Um machado ork, senhor. Mas era o braço ruim e ainda posso ceifar algumas vidas com o esquerdo. - continuou ele, segurando o pomo de sua espada embainhada.

      - Mas hoje teremos uma bela vitória, soldado. - previu Ruprest - Como na batalha final. Vamos botá-los para correr.

      - É uma honra lutar novamente ao seu lado.

      - A honra é recíproca. Qual o seu nome, soldado?

      - Karvo, senhor. Karvo, o maneta.

      Ruprest deu um tapinha nas costas do companheiro e sabia que durante o combate, teria um companheiro leal.

      - Karvo, o incansável lhe cairia melhor, soldado.

      - Parece que eles foram atraídos por nossa armadilha. Estão posicionando os cavalos na dianteira. A essas alturas, o comandante inimigo já deve estar cantando vitória. - disse Janô, entusiasmado.

     - Faldan! - chamou Patton - Prepare-se para o ataque da cavalaria.

     O elfo ouviu a ordem prontamente e deu um sinal para seus comandados. No mesmo instante, todos os arqueiros, inclusive ele, retiraram três flechas de suas aljavas. Duas delas foram fincadas no chão e as outras, armadas nos arcos longos.

      Do outro lado, a aproximadamente um cere de distância, os cavaleiros selvagens berravam e levantavam suas armas para a tropa inimiga. Estavam sem armadura, como Patton previra. Os arqueiros permaneciam imóveis esperando por um sinal de Faldan.

      Patton correu para o fosso e montou em Tawan, seu corcel negro. Empunhou uma lança e fez uma oração em voz baixa, pedindo aos seus antepassados que lhe ajudassem e aos deuses, para que não atrapalhassem.

      O repique dos tambores aumentou a cadência e de repente cessaram. O comandante inimigo deu um sinal com sua espada e a horda de cavaleiros partiu em disparada contra as linhas de Swannpala. Os yushers eram excelentes domadores de animais e montavam como ninguém. Seus cavalos não tinham sela e eles não precisavam das mãos para ter domínio total de suas montarias.

     Os belos corcéis eram baias ou brancos, mas possuíam a crina escura. Eram selvagens como seus donos e eram fortes e velozes. Rapidamente foram ganhando terreno, num ataque que seria fulminante.

     Patton, de dentro do fosso, não enxergava nada, mas podia sentir a vibração do solo produzido pelo golpear dos cascos dos cavalos yushes.  Tawan permanecia impassível e esperava a hora de atacar.

     A cavalaria avançava rapidamente. Ao percorrerem o primeiro quarto de cere, Faldan deu mais um sinal aos arqueiros. Esses por sua vez, elevaram seus arcos armados.

     Já haviam percorrido metade do caminho quando Faldan deu outro sinal, fazendo com que seus homens escolhessem seus alvos e travassem mira.

     - Flecha! - gritou ele.

     E todos os arqueiros, inclusive ele, dispararam suas setas mortais contra os yushers. Mais de trezentos cavaleiros tombaram. Algumas flechas atingiram os cavalos, que mesmo feridos continuaram seu galope feroz.

     Faldan acertara um cavaleiro no pescoço e percebeu sua queda. Rapidamente puxou mais uma flecha e acertou outro, perfurando-lhe o olho esquerdo.

     - Flecha! - gritou ele mais uma vez.

     Ele puxou sua terceira seta, enquanto os demais arqueiros disparavam a segunda.

     A nova saraivada de flechas foi mais mortal e quase quinhentos cavaleiros foram atingidos. Nem todos caíram, mas os ferimentos iam deixá-los debilitados para a batalha.

     O elfo ainda teve tempo de matar mais três cavaleiros antes que Patton desse o sinal de ataque à cavalaria. Os arqueiros e a infantaria deram passagem para os cavalos. Eram mais de dois mil soldados montados, protegidos por armaduras e escudos, armados com longas lanças de mais de três curvos de comprimento.

     Os cavalos saíram do fosso sem dificuldade e atacaram a já debilitada cavalaria inimiga. Os yushers tinham se limitado a pouco mais de dois mil e agora estavam em desvantagem, pois não usavam armaduras e não contavam com a surpresa preparada por Patton.

     O choque das tropas foi brutal. As lanças do leste perfuravam os corpos dos selvagens facilmente. As armas curtas dos yushers não eram páreas para um ataque tão arquitetado. Quando as últimas fileiras dos inimigos conseguiram se esquivar das lanças, a infantaria entrou em ação, auxiliando a cavalaria.

     Os Falcões do Rei foram os primeiros a chegarem com suas alabardas e armas de haste. Os yushers iam tombando sem quase causar baixas ao exército liderado por Patton.

     Distante dali, o comandante inimigo observava ao ardil de dentro de seu elmo branco. Parecia não se abalar com o truque e não deu ordem alguma ao restante dos soldados.

     Com a cavalaria inimiga dizimada, Patton levantou sua lança e deu um berro sem nada falar. Seus soldados vibraram com ele e festejaram o sucesso do ataque. O rapaz sabia que a batalha ainda estava longe de acabar e que o destino era incerto.

     Com um sinal de Patton, os cavaleiros partiram para um novo ataque. As baixas tinham sido poucas, cerca de uma centena de homens do leste haviam perecido. A infantaria se reuniu e começaram a marchar rumo ao inimigo.

     Faldan montou um cavalo yushe e pegou uma lança de um cavaleiro tombado. Ordenou que um capitão dos arqueiros comandasse seus homens e cuidasse da retaguarda da infantaria e seguiu com Patton ao ataque.

    Mais uma vez a terra tremeu. Desta vez eram corcéis Nordskog e Suhrds que atropelavam o mato verde dos Campos de Celemar. Tawan era o mais veloz e o mais forte entre todos eles. Seus cascos com uma pelagem abundante, se moviam mais rápido do que se podia acompanhar.

     Quando estavam na metade do caminho, o comandante ocidental fez um sinal com sua arma e um clangor de cornetas foi ouvido. Prontamente as catapultas foram acionadas. Pedras imensas, pesando dois aquitos ou mais, foram lançadas sobre as tropas do leste. A cada pedra que caía, cinco ou seis soldados eram esmagados.

     O conde de Locksun se assustou com o ataque. Janô gritava para que não parassem, mas alguns cavalos assustados não obedeciam a seus cavaleiros.

     Logo a cavalaria saiu do campo de alcance das catapultas, mas o massacre foi ainda maior quando a infantaria atravessou o campo. Ehrin, que havia obtido êxito em seu primeiro confronto, agora via companheiros sendo esmagados pelas imensas pedras. Ruprest corria alucinadamente incentivando a infantaria. Ele empunhava suas duas espadas e gritava como um selvagem em direção ao confronto.

     As pedras caíam com velocidade incrível. Os trogloditas Duhr Kazur carregavam as catapultas enquanto orks as manejavam.

     Patton foi o primeiro a chegar às fileiras inimigas. Os orks esperavam preparados para a carga, organizados numa poderosa parede de escudos, mas o golpe foi tão brutal que nenhuma defesa seria possível. A lança do Senhor da Guerra perfurara a couraça metálica de um ork, varando seu corpo por mais de um curvo. O guerreiro levantou sua lança ainda varada no inimigo e fez com que o sangue escuro e espesso da criatura escorresse por ela. Depois abandonou a lança e sacou a Lâmina de Askai.

      Um brilho azul radiou da espada e por um segundo os orks hesitaram. Uma avalanche de cavalos e lanças caiu sobre os orks. A vanguarda da infantaria inimiga fora destruída pelas armas dos cavaleiros, mas ainda restavam quinhentos orks a cavalo e mais de seis mil infantes.

      A infantaria de Locksun tinha dificuldades em passar pela zona onde as pedras da catapulta eram lançadas, mas enfim chegaram para auxiliar os cavaleiros. Muitos morreram no caminho, esmagados pelos imensos mísseis. Alguns ainda estavam vivos, mas não podiam mais lutar.

     Patton e Ruprest ceifavam orks lado a lado e tentavam atravessar aquele mar de guerreiros, para chegar às catapultas. As tropas inimigas começavam sua reação. Os planos de Patton saíram perfeitamente como ele previa, mas a superioridade numérica era absurda e as baixas produzidas pelas catapultas foram de vital importância para as forças inimigas.

    O cavaleiro branco acompanhava a tudo da retaguarda. Continuava impassível, apenas sinalizando ordens para seus capitães. Patton o olhava com fúria, enquanto descia sua lâmina sobre os orks.

     Ázaro usava um machado de combate com maestria. Era um guerreiro experiente, além de possuir uma grande habilidade em batalhas. Ele observava a situação com preocupação. Os orks, cada vez mais ferozes, pareciam se multiplicar. A cada ork morto, mais dois apareciam para o combate e as tropas do leste iam se enfraquecendo.

     Ruprest e Patton sentiam a mesma coisa. Podiam agüentar ali durante horas, porém a vitória era incerta. Os soldados inimigos eram muitos e lutavam movidos por um ódio que lhes aumentava a força.

     Faldan, em cima do cavalo, atacava com agilidade e era o terror dos orks. Suas adagas cortavam o vento e perfuravam os soldados. Ele estava concentrado na batalha, mas de repente teve um presságio. Olhou para o norte e viu uma imagem que afagou sua alma.

     Do alto de uma pequena elevação ao lado do campo de batalha se ouviu o toque de uma trombeta. O som ecoou por toda área durante um longo tempo. O toque era tão alto e imponente que todos se viraram para o lugar de onde vinha.

     Menos de um cere dali, duzentos cavaleiros encapuzados montados em unicórnios esperavam em uma grande fileira, lado a lado. À frente deles, um dos cavaleiros tocava uma trombeta feita de chifre e adornada em ouro. Seu som era familiar aos aventureiros que outrora foram hospedes em Palari Kadun.

     O som cessou e Patton notou que o cavaleiro branco agora estava se movimentando e parecia preocupado. Mais um cavaleiro se adiantou e todos, ao mesmo tempo, retiraram seus capuzes.

     À frente deles, estava Fabrion com seus grandes olhos azuis e a pele alva feito a neve. A seu lado estava Ernandor, o único de pele morena em meio a duas centenas de cavaleiros élficos. Estavam cobertos por capas brancas e tinham na mão belos arcos longos. Na cintura, ainda levavam espadas de um brilho intenso.

     O Cavaleiro Branco, comandante das tropas do oeste ordenou um ataque imediato aos recém chegados inimigos. Todos os orks montados partiram para uma carga contra os elfos. Fabrion tocou novamente o chifre e os cavaleiros armaram seus arcos com flechas prateadas.

     Os orks galopavam rapidamente, mas nenhum conseguiu chegar ao destino ordenado pelo mestre. Flechas às centenas foram disparadas, não dando chances aos opositores. Faldan viu aquilo com orgulho e retirou o bacinete da cabeça, revelando suas orelhas élficas.

     Patton aproveitou a baixa do inimigo para atravessar a infantaria. Sem o obstáculo dos cavaleiros orks, Ele e Ruprest lideraram uma ofensiva contra as torres de cerco. Ao passar pelos infantes, os cavaleiros foram recebidos por uma saraivada de flechas, vindas das torres. As bestas orks levaram a vida de vários cavaleiros, mas eram lentas e difíceis de serem armadas.

     Os cavaleiros élficos novamente armaram suas flechas prateadas e atiraram contra as torres. Acertaram as paredes de três das quatro torres que estavam ao alcance. Como que por algum encanto, as setas entraram em combustão e as torres começaram a queimar rapidamente. Os orks tentavam sair de dentro das torres, mas o fogo as consumia muito depressa e a maioria morreu queimada. 

     Logo vieram os Duhr Kazur. Vinham armados com grandes maças forjadas pelos orks, que terminavam numa esfera cravejada de espetos. Faldan acertou um com quatro flechas, mas foi necessário o golpe do machado de Ázaro para que o gigante tombasse.

     Ruprest confrontou um deles que corria em sua direção. Mesmo barrigudo, o velho era ágil e toda vez que esquivava de um golpe do troglodita, fincava-lhe uma de suas espadas de prata. Bastaram três estocadas com suas lâminas centenárias para o duhr kazur tombar.

 

     Todavia, outros vieram. O ruivo chegou a lutar com três gigantes de uma só vez. Teve a ajuda de Ehrin e o velho Karvo, que tombaram juntos um deles, mas quando vieram mais guerreiros daquela raça, foi preciso que os cavaleiros élficos o socorressem. Mais uma saraivada de flechas fez com que os oponentes caíssem.

     - Maldição! Salvo por elfos! - praguejou o caçador-de-bruxas.

     Ázaro saltou de seu cavalo e pediu ajuda para outros que estavam ao seu lado. Ele queria derrubar a última torre, que não havia sido lambida pelas chamas, pois de lá saiam as últimas flechas orks que ameaçavam os cavaleiros.

     Ruprest correu na direção da torre e ajudou na tentativa. Do alto, um ork armado com sua besta mirou no velho ruivo, que empurrava a torre com toda sua força. Sem que o ruivo percebesse, o ork disparou, varando seu corpo na altura do ombro. O guerreiro soltou um urro de dor, mas continuou empurrando a torre até que esta foi ao chão.

     Os orks dentro do engenho ficaram desesperados e então os homens do leste caíram sobre eles. Ruprest era o mais furioso e, mesmo com um só braço em condições, cortou e furou os orks como parias.

     Patton lutava com um troglodita, quando um vento gelado soprou do oeste. Ele continuou lutando até matar o adversário. Quando o gigante estava caído no chão, algo fez o rapaz olhar para trás.

     Não muito longe dali, montado num corcel negro, estava um cavaleiro em uma armadura escura, com adornos dourados. O guerreiro emanava uma aura de terror e muitos se afastaram dali. Sua capa revoava com o vento gelado que soprava do oeste.

     - Lutai comigo. - disse o guerreiro, com uma voz fria e rouca, que vinha de dentro de um elmo de topo chato.

     Patton pensou nas palavras de Thalien, sobre sua sorte na batalha. Porém, quando deu por si, já estava desembainhando novamente sua espada e partindo para cima do inimigo.

     O cavaleiro do leste sacou lentamente sua espada e ela tinha uma lâmina negra. Tawan correu de encontro ao outro corcel, levando Patton, que já preparava um golpe.

     O primeiro choque das duas espadas radiou uma energia que foi sentida em todo o campo de batalha e em toda região. Os dois se enfrentavam como se fossem inimigos seculares. Havia ódio em cada golpe e o som do aço fazia toda Enthär tremer.

     Muitos observavam, mas ninguém pôde se intrometer naquele duelo. Patton desferia seus ataques, mas o Lâmina Negra defendia a todos.

     O combate permaneceu equilibrado por algum tempo, mas num descuido de Patton, o Lâmina Negra tirou-lhe a arma da mão. Patton caiu de cima de Tawan e ficou indefeso, de joelhos. O Cavaleiro do Oeste virou-se para o Cavaleiro Branco.

     - Então é este o escolhido? Decepcionante! - disse ele com sua voz fria - Não passa de um garoto prepotente.

     O guerreiro olhou mais uma vez para o rapaz, desceu de seu corcel negro e atravessou-o lentamente com sua espada de lâmina negra na altura do peito. A lóriga de Patton foi perfurada com extrema facilidade e o sangue escorria pelo metal brilhoso.

     - Não é páreo para o campeão do oeste, meu senhor. - disse o cavaleiro branco, com uma voz fina, mas igualmente tenebrosa - Mas parece que subestimamos o poder do inimigo, Lorde Gwilber. Nossas tropas não durarão muito no campo de batalha. A chegada dos elfos do norte parece ter virado a sorte contra nós.

     - Não importa. Já esperei por mais de um século. Posso esperar por mais um. Logo nossas tropas ao oeste estarão com sua força total. Logo, a queda do oriente e a redenção de Talbor serão inevitáveis.

     Os dois reuniram a tropa de elite que os rodeava e partiram rumo ao norte, deixando para trás Patton. O rapaz estava caído e sangrava muito. Estava inconsciente. Seus olhos es