Livro Completo
Postado por admin em March 4th, 2009 na categoria: Uncategorized7 Comentários »
Depois de muito tempo, voltei. Me desculpem por parar de postar justo no último capítulo, mas é que o casamento tomou muito tempo e depois o Natal, Ano Novo, Carnaval, volta às aulas, etc…
Bem, está aqui o PDF com o livro inteiro. Deixem suas críticas, elogios e comentários. Se muita gente gostar e pedir, vou postar os outros livros.
Abraços a todos.
Fernando Russell
Clique e baixe o PDF do livro:
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“A Missão de Faldan”
Postado por admin em November 15th, 2008 na categoria: Uncategorized5 Comentários »
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s olhos lentamente se abriram. A visão estava turva e a luz fraca, vinda de uma fresta nas cortinas de uma grande janela, mal iluminava o ambiente. Patton avistou dois vultos de pé a sua frente. Um maior, mais parrudo. O outro, menor e franzino. Levou suas mãos aos olhos e esfregou-os tentando desembaçar a vista.
O jovem ouviu uma alegre voz feminina dando graças por ele ter acordado. O odor suave de pinho o fazia perceber o lugar aconchegante onde descansava. Quando a visão começou a voltar ao normal ele pode finalmente reconhecer os dois vultos. Alya e Ruprest o observavam de perto e a menina abaixou-se para dar um beijo nos lábios ainda febris do ferido.
- Se soubesse que os enfermos seriam tão bem tratados nesta casa, não teria deixado que Ernandor me fizesse curativos em Celemar. - disse Ruprest, demonstrando estar bem feliz com a recuperação do amigo.
Alya afagou o rosto de Patton suavemente e o rapaz retribuiu o carinho com um sorriso. Seu tórax ainda doía bastante e estava envolto em bandagens de algodão. Por baixo das faixas, Ernandor havia feito um curativo passando um láudano à base de ervas deixado por Rino, o druida do Olmo.
- Há quanto tempo estou aqui inconsciente? E a batalha? Tivemos sucesso? - questionou Patton com uma expressão austera.
- Calmo garoto! Primeiro você precisa alimentar seu corpo. Depois Faldan lhe contará toda a história. Estivestes no bico do corvo, meu amigo. Por pouco esta menina não virou viúva mesmo antes de se casar. - disse Ruprest, fitando Alya com um sorriso de cumplicidade estampado no rosto.
Patton também sorriu, mas Alya só respirou aliviada, como se saísse de um pesadelo terrível. Ruprest caminhou até uma porta de madeira fechada, a abriu e mandou que os outros entrassem. Faldan e Ehrin esperavam por notícias no corredor, do lado de fora do aposento. Estavam impacientes e ficaram alegres ao serem chamados por Ruprest. Numa mesa perto da janela estava uma bandeja de prata, repleta de frutas frescas.
Faldan tinha marcas de ferimentos e exibia alguns curativos no braço e no pescoço, que deixaram Patton curioso. O elfo pegou a bandeja de prata e levou-a para Patton. Alya serviu um copo de água para ele, ajudando-lhe a beber. Depois, ainda intrigado, perguntou:
- Onde ganhastes estes ferimentos? Parecem feitos por uma fera e não pelas espadas yushers. E mesmo que tivessem garras e dentes afiados, duvido que eles conseguissem te acertar um golpe sequer, quanto mais deixá-lo neste estado.
- É uma longa história essa, Patton. Mas agora que estamos a salvo e longe dos exércitos do oeste, acho que poderei contar-te-a toda. - respondeu Faldan.
Ruprest pediu a Ehrin que fosse rapidamente até a sala do trono para avisar à Rainha Thalien e ao druida Ernandor do despertar de Patton. O rapaz saiu em disparada e logo voltou.
Logo atrás de Ehrin estava Ernandor. Tinha um rosto pálido e parecia mais altivo e nobre do que antes. No entanto, ao entrar, despertou medo em alguns, pois tinha o semblante sério e frio.
- Pregastes um susto em todos nós, Patton. E, embora eu saiba que não é o momento mais propício para recriminar-te, tu sabes que este incidente poderia ser evitado se você não fosse tão teimoso. - falou o druida severamente, mas ao mesmo tempo com uma suavidade acalentadora na voz - Teu coração é bom, mas duro e cheio de orgulho.
- Sinto causar este transtorno a todos vocês. Alguma magia me impulsionou no campo de batalha e foi mais forte do que eu poderia imaginar. Quando vi o cavaleiro me desafiando fui tentado a me testar. - desculpou-se o aventureiro.
- Não foi magia. O inimigo vê teu coração e sabe de tuas fraquezas. Se te chamo a atenção, não é pelo transtorno, Patton. Nossos corações ficaram pequenos, principalmente o de Alya. A sua morte seria como o fim de uma esperança para todos nós. Mas eu conheço muito bem o inimigo e sei de suas artimanhas. Você também deve conhecê-lo para estar preparado para quando voltar a encontrá-lo.
- Mas o inimigo foi derrotado, Druida. Não haverá uma próxima vez. - disse Alya com uma voz temerosa - Eles se foram, não é mesmo, Patton? - continuou ela, procurando o respaldo do amado.
Um silêncio sinistro se fez no quarto e Patton baixou os olhos. Mas Alya o abraçou com cuidado para que o ferimento não fosse tocado. Ruprest deu uma pigarreada e olhando para os demais, começou a falar:
- Se quiseres, agora Faldan pode lhe contar sobre o que aconteceu a ti durante estes nove dias em que ficaste aqui entre a vida e a morte. E Ernandor poderá lhe dar as boas notícias vindas do sul.
Patton olhou para o meio elfo e se ajeitou na cama. Todos tomaram seus lugares nas diversas cadeiras feitas de cedro que estavam ajeitadas em círculo naquele quarto. Apesar de conhecerem aquela história, queriam ouví-la mais uma vez, pois era, sem dúvida, emocionante.
Faldan prendeu seu cabelo e se preparou para narrar sua aventura. Bebeu um copo de água, levantou-se e pôs-se a contar a história:
- Como você deve se lembrar, o Cavaleiro Negro o desarmou no Campo de Celemar e o atravessou com sua lâmina negra. Poucos dos nossos te viram tombar e, mesmo os que viram, não tiveram coragem o bastante para se aproximar, pois ainda temiam aquela figura aterrorizante.
- Eu estava em meio à batalha quando percebi Tawan sozinho sem seu cavaleiro. Corri para o local e te achei ferido, estirado no chão. O sangue manchava o uniforme de Locksun e saia por sua boca e seu tórax. Percebi que a situação era grave.
- Logo Ruprest chegou. Ele ainda tinha uma flecha fincada em seu ombro, mas parecia mais preocupado com seu ferimento do que com o dele próprio. Seu rosto estava pálido e os olhos muito fundos. Parecia um cadáver.
- Ernandor também nos viu e ordenou que eu te levasse para o norte montado em um unicórnio, pois o ferimento não poderia ser curado com a medicina. Mesmo a água de cura de Nayan não foi o bastante para cessar o sangramento. Segundo as palavras do nosso amigo druida, somente aqui, em Palari Kadun o veneno da lâmina negra poderia ser combatido.
- Rapidamente eu montei no unicórnio e coloquei-o na minha frente. Era um belíssimo animal, que só depois eu vim saber que era Auhin Cembor, Rei dos Unicórnios, a mais veloz e forte montaria de Enthär. Não precisei dar nenhum comando para que ele partisse rápido como um falcão, mas suave como se seus cascos não tocassem o solo.
- A noite já tinha caído sobre nós e o unicórnio não parava nem por um minuto. A escuridão era grande, até mesmo para mim, que tenho a visão privilegiada. Uma névoa parecia tapar meus olhos. Não era algo natural. Eu sentia que o mal nos seguia e seu corpo estava frio como a neve.
Ao ouvir este trecho da história Alya, segurou forte a mão de Patton como se sentisse o que as palavras de Faldan narravam. O meio elfo interrompeu a fala por um segundo para beber mais um gole de água e limpar a garganta seca. Ehrin tinha os olhos vidrados nele e estava ansioso para que ele prosseguisse.
- A esta altura, as patas de Cembor golpeavam fortemente o solo de Celemar, quebrando o silêncio da noite negra. O esforço por vencer o percurso o mais veloz possível era notado em sua respiração pesada e o frio fazia suas narinas exalarem fumaça.
- Se alguma viva alma nos observasse naquela busca incansável, certamente adivinharia que se tratava de um espectro a passar pelo campo. Cembor cortava o caminho de volta como uma flecha e, o som de seus cascos em choque com a terra parecia com o dos tambores de mil exércitos.
- Bem, eu imaginei que havia um mal muito grande nos assolando. A noite era escura, sem estrelas e sem lua. Um vento frio soprava do norte quando senti um odor horrível invadindo minhas narinas. Algo como o cheiro de carne podre que senti, durante dias dentro das ruínas, antes que vocês me salvassem. A cada passo de Cembor, o frio aumentava e o odor ia se tornando quase insuportável.
- Ao longe, avistei dois pontos vermelhos que brilhavam como um fogo pálido de tochas há muito acesas. Prossegui. Ao me aproximar notei que eram os olhos de uma criatura que as sombras da noite não me permitiam distinguir. Puxei forte a crina de Cembor e te segurei junto a mim para que não caísses. O vulto tinha a forma de um urso, mas era bem maior e fedia bem mais do que cem cadáveres. Ele parecia nos esperar ali, sentado, apoiado sobre suas patas traseiras, com seus olhos brilhantes nos observando.

O elfo contava a história e ninguém ali ousava interrompê-lo em momento algum. Nos momentos de pausa, podia se ouvir perfeitamente a respiração tensa dos demais. Ruprest segurava firme na empunhadura de sua espada, imaginando a situação terrível passada pelos amigos. O velho ruivo já tinha ouvido aquela trama duas vezes, mas seus nervos ficavam tensos a cada vez que ela era recontada.
- Cembor se aproximou lentamente da direção do vulto, mas de repente cessou bruscamente. O Rei dos Unicórnios empinou as duas patas dianteiras, mas não nos derrubou. Eu, mais uma vez, segurei firme em sua crina e me equilibrei.
- Estávamos a poucos curvos da fera, suas formas já estavam bem mais definidas, mas ainda assim não passavam de sombras no breu. Eu nunca havia visto ou escutado falar de nada parecido em toda a minha vida e meu sangue gelou ao ouvir aquela respiração compelida.
- Por alguns segundos eu e Cembor encaramos a criatura sem nada fazer. Ela também permaneceu imóvel por algum tempo, como se nos estudasse. Mas, de repente, como um trovão, a criatura se levantou sobre suas patas traseiras e urrou. Urrou como que dominado por um ódio profundo e seu berro ecoou por todo o campo, fazendo o chão tremer e o ar correr forte, trazendo aquele odor indescritível para a nossa direção.
- O unicórnio deu um passo para trás e eu tive que proteger meu rosto com um dos braços. Tive a sensação de que ele nos atacaria, mas ele ficou ali, de pé a nossa frente, nos aterrorizando por mais alguns instantes.
- Me preparei para o pior. Sabia que o ataque era iminente e que não tardaria. Pensei em desviar meu caminho e dar-lhe a volta. Porém, algo dentro de mim avisava que a fuga seria em vão. Então saquei o arco e armei uma flecha.
- Cedo foi o inevitável. A criatura ficou mais uma vez apoiado nas quatro patas e deu um passo a frente. Cembor não vacilou e se manteve imóvel. Tenho certeza que, se montasse um cavalo naquela hora, o animal teria se aterrorizado e teria sido nossa ruína, Patton.
- Tenho certeza que sim. - comentou Patton, interrompendo a narrativa - Mas talvez não, se este cavalo fosse Tawan.
- Talvez. - concordou Faldan - Mas não tenho toda esta certeza. Tenho que admitir que nunca senti um medo assim em minha vida e acredito que seria assim com qualquer um, elfo ou anão.
Ruprest franziu a testa e lançou um olhar severo para o elfo, o recriminando por citar o povo anão. Faldan deu um pequeno sorriso e bebeu mais um gole de água.
- Bem, talvez um anão não sentisse todo esse medo, mas eu senti. E, embora estivesse assustado, soltei minha flecha na direção da fera, numa tentativa frustrada de feri-lo.
- A flecha se perdeu na escuridão e a criatura nem sequer se moveu. Percebi então que teria que usar uma arma mais contundente contra aquela besta, ou acabaria morto sem completar a missão a mim incumbida.
- Olhei para o seu corpo inerte a minha frente, Patton. Devo lhe atestar que, em seu estado, um cadáver ganharia uma corrida. Você estava pálido como mármore e sua respiração não passava de alguns suspiros. Cembor relinchou e bateu com uma pata no chão, tentando intimidar o monstro. A resposta foi outro urro grotesco como o primeiro.
- Segurei o punho de uma de minhas adagas e senti que não era a arma ideal. Essa foi a hora em que vi em teu cinturão, a Lâmina Askai embainhada. Hesitei em sacá-la por alguns instantes, mas puxei-a de uma só vez. Ela irradiou um brilho magnífico. A escuridão da noite dera lugar a uma penumbra razoável, como se a lua estivesse alta e cheia.
- Antes a escuridão não tivesse nos deixado. A luz de tua espada iluminou o local e finalmente revelou todo o horror daquela criatura. Era realmente um ser feito de ossos e carne decomposta que exalava aquele fedor. Tinha um crânio comprido de onde saiam uma fileira de chifres de vários tamanhos que se estendiam até o meio do dorso. Em seu abdome quase não se via carne, só os ossos das costelas que tornavam visíveis as suas vísceras apodrecidas.
- Quando a criatura viu o brilho da espada, eu pude notar certo receio, mas foi nesta hora que ela deu seu terceiro e mais poderoso urro. A fera mostrou seus longos dentes, todos escuros e recheados de carne podre de algum ser que virara alimento, mas eram fortes e afiados. Depois o monstro correu para cima de nós.
- Cembor mais uma vez empinou, mas desta vez, num movimento mais suave e majestoso. O unicórnio estava confiante com o brilho da Askai e atacou o monstro com seu chifre. Eu aproveitei a proximidade da besta para golpeá-la, mas ela se esquivou do ataque, num movimento incrivelmente ágil, levando-se em conta o seu tamanho.
- A criatura tentou dar uma mordida em meu braço, mas eu defendi sua investida com a espada e ele se feriu. Não possuía sangue, mas percebi sua dor e mais uma vez investi contra ele. Desta vez o golpe acertou seu crânio e ele teve de baixar. Cembor também o estocara com seu chifre e o golpeava com suas patas.
- Os golpes tinham sido duros, mas a fera reagiu e com suas garras, feriu gravemente Cembor. Olhei para o peito alvo do unicórnio. Vi bastante sangue escorrendo ali e senti que era o momento de tomar uma decisão. Saltei do unicórnio e mandei que ele te levasse para casa o mais rápido que ele conseguisse.
- A partir daí, o combate se desenvolveu de uma forma mais violenta e cruel. Praticamente durante horas eu me esquivava dos fortes golpes da criatura e esperava chances para um contra-ataque. Apesar de toda a minha agilidade, esses momentos foram poucos, pois eu estava cada vez mais cansado. Minhas pernas pareciam estar atadas a pedras e meu pescoço quase não conseguia suportar o peso de minha cabeça. No entanto, a criatura parecia não se abater e, mesmo que de raspão, seus golpes acabavam por me ferir.
- Tive o azar de me deixar ferir por uma patada da fera que me rasgou o braço. Quase sucumbi, mas consegui me recuperar e atacá-lo novamente. Por três vezes fui atingido por suas garras afiadas, mas com um golpe potente e carregado de ódio, parti uma das patas da criatura. Gritei numa explosão de fúria e senti pela primeira vez que realmente tinha uma chance de sair vitorioso daquele embate. O monstro não conseguia mais se locomover com a agilidade de antes e eu me aproveitei para saltar por sobre sua cabeça e cravar-lhe a Lâmina de Askai no alto de seu crânio.
- Ele emitiu mais um grito, mas esse era diferente, denotava dor. Vi seus olhos lentamente perderem o brilho vermelho e suas patas perderem as forças até não agüentarem o peso daquela carcaça podre. A fera estava morta, se é que algum dia ela esteve viva, mas eu estava completamente envolto numa crosta de sangue e suor. Minhas pernas já não sustentavam meu corpo e finquei a espada no chão para me firmar. Ajoelhei-me e tentei me manter ereto apoiado ao guarda mão da espada, mas o esforço foi em vão. Tombei ali no breu da noite e daqui por diante, esta história seria mais bem contada por Ruprest, ou talvez Ernandor.
Um suspiro uníssono foi ouvido naquele quarto. Mesmo com a temperatura agradável, os espectadores suavam ao acompanharem a narrativa do meio elfo e ficavam tensos ao imaginar as cenas daquele combate.
- Bem, eu só tenho que agradecer-te por ter salvo a minha vida, Faldan. Alegro-me de ver que estais recuperado deste encontro enfadonho. Esse é o tipo de acontecimento que merece virar uma bela canção élfica, meu amigo. - disse Patton.
- Sim, mas esta história ainda não acabou. - disse Ruprest, limpando o suor de sua testa com um lenço que guardava num bolso do colete que usava - Se bem, que a parte mais tensa já passou, agora que sabemos que tu estás bem.
- Realmente, meu amigo. Agora que Patton está se recuperando e você está mais calmo, seria agradável ouvi-lo contar o resto desta história. - sugeriu Ernandor.
Ruprest se levantou e ajeitou o cinto de couro marrom, onde levava suas espadas centenárias. Pegou novamente o lenço, secou o suor que lhe escorria pelo canto da boca e começou a relatar a seqüência de seu ponto de vista.
- Como o elfo disse, ficamos preocupados com o seu ferimento, Patton. Ernandor me disse que você não sobreviveria àquele ferimento se permanecesse ali. Então ele mandou que Faldan o trouxesse para cá, montado naquele belo unicórnio.
- A batalha estava quase terminada. Tivemos uma vitória esplendorosa, mas o custo fora alto. Milhares de baixas entre os soldados, além de você, que até aquele momento não sabíamos se sobreviveria ou não.
- Ázaro partiu para Dracon. Nós enterramos nossos mortos com honras e queimamos as carcaças malcheirosas de orks, duhr kazur e yushers. Esperamos por notícias do sul por dois dias e quando o falcão mensageiro chegou, os corações se elevaram. O Rei Endor sagrou-se vitorioso na frente de batalha sul. A batalha lá se mostrou mais fácil do que em Celemar. Os anões vieram mais uma vez em socorro do povo de Nordwil, liderados pelo Rei Owid e seu filho Mandoon. Embora o próprio Rei Endor não estivesse à frente do exército, pois não tinha condições para isso, a batalha foi breve, comandada por seu sobrinho, Lorde Fya. O povo de Driev montado nos Grandes Lobos mostrou para todos que, além de grandes ferreiros, são guerreiros vorazes.
- Logo que recebemos as boas novas partimos de volta para casa e o Lorde Locksun ordenou que fossem feitas patrulhas de caça para aniquilarem os inimigos que ainda estivessem em nosso solo.
- Cavalgamos em ritmo lento, pois tanto cavalos como guerreiros estavam exaustos. Os boatos sobre sua sorte eram cada vez maiores. Capitães vinham perguntar sobre o seu estado, mas infelizmente nenhuma resposta havia chegado de Palari Kadun. Após uma grande marcha, avistamos ao longe um vulto de uma carcaça imensa.
- Devo salientar que se não tivesse visto de perto tal criatura, não acreditaria nas palavras de Faldan. A criatura era realmente hedionda e putrefiz. Estava jogada no solo, mas a grama abaixo dela estava queimada. Ao lado, jazia o corpo do nosso companheiro elfo. Ao vê-lo, senti sua perda, pois estava em situação pior do que quando o encontramos da primeira vez. Mas Ernandor desceu de sua montaria e achou um sinal de vida em meio ao sangue, lama e suor que o cobriam.
- Com ajuda de dois soldados, colocamos o rapaz numa das carroças de mantimentos e o druida foi fazendo curativos. Em minha mente, só sentia que o elfo falhara em sua missão de levá-lo para casa, porém Ernandor lembrou-me que o unicórnio não tinha perecido e, certamente teria seguido na missão.
- Finalmente, após dias de viagem, estávamos chegando a Locksun. Uma multidão foi nos receber com honrarias, mas nem eu nem Ernandor tínhamos tempo a perder. O Duque entrou na cidade sob aplausos e brados de glória, mas disse que logo viria buscar Lady Lavia. Ele prometeu que Faldan seria cuidado de seus ferimentos e que tão logo se recuperasse, cederia um cavalo para que viesse para cá. Despedimos-nos de Janô e cavalgamos o mais rápido que as patas de nossas montarias podiam se movimentar.
- Quando chegamos à Floresta dos Unicórnios fomos interceptados por Serger e Aleyan. Eles nos deram logo notícias de você. Disseram que o unicórnio havia chegado lhe trazendo, dias atrás. Serger disse que sua febre era alta, mas que a Rainha havia chamado Rino, o druida do Olmo, para cuidar de você. Ernandor me garantiu que nas mãos de Rino, você estaria a salvo.
- Quando chegamos, você já estava nesta cama e Rino já havia partido, pois nada mais poderia fazer e, ao que parece, tinha assuntos importantes a tratar ao sul.
- Faldan chegou aqui dois dias depois de nós, acompanhado do Duque, que viera buscar sua esposa. E assim, você foi salvo do manto de Grey.
- É Ruprest. Seu amigo foi salvo por elfos. Não só uma vez, mas duas. E isso você carregará por todos os dias de sua vida. - disse Faldan - E um elfo do sul, como aqueles que os anões acusam de ladrões.
Por um momento, Ruprest se enfureceu. Seu rosto enrubesceu e sua garganta engoliu a seco. Mas, mantendo a calma virou-se para Faldan e disse:
- Por terem salvado a vida daquele por quem tenho mais apreço nessa vida e por não deixarem que eu faltasse com a minha palavra, dada a Raicar, a quem prometi cuidar dele até o final da minha vida, estou grato até o dia de minha morte. Estarei grato a ti, mesmo que me apunhales pelas costas, pois conheço minhas qualidades e meus defeitos e sei que dentre estes últimos, não consta a ingratidão. Porém, me sinto como um anão, pois em Driev cresci e considero o povo de lá minha família. Pelo o que teu povo fez ao meu, não há desculpas. Apesar de acreditar que entre o joio há trigo e saber que tu és digno de confiança e de meu respeito.
O clima no quarto ficou pesado, mas apesar de tudo, o respeito entre os dois era recíproco e a amizade por Patton os deixava mais unidos. Ernandor interveio na conversa acalentada, mas parou de falar ao perceber a porta se abrindo e uma claridade invadir o aposento, bela como a dos primeiros raios do sol da manhã.
Era a majestosa Senhora de Palari Kadun, que viera visitar seu hóspede. Ao seu lado estavam duas de suas damas élficas. Lindas elas eram, mas eram ofuscadas pela beleza de sua senhora.
- Bom vê-lo acordado e disposto, Patton, filho de Raikar. Seus amigos quase sucumbiram esperando por uma melhora sua. Ernandor foi sábio em suas palavras te repreendendo, mas eu sei, mais do que ninguém, o quanto o inimigo pode ser ardiloso. Sei também que tu não cometerás o mesmo erro duas vezes. Não caminhará novamente por cima de seus próprios passos. Enfim, não falarei mais de tristezas e mau agouros. Hoje é um dia de felicidade e os pássaros de Palari Kadun poderão voltar a cantar como antes. Os povos do leste, Anões, Homens e Elfos poderão festejar mais uma vitória sobre o oeste. Embora cedo seja a hora de voltarmos a nos enfrentar na última das batalhas desta nova Guerra das raças.
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A Batalha do Grande Fosso
Postado por admin em November 11th, 2008 na categoria: Uncategorized3 Comentários »
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m falcão mensageiro fora mandado naquela noite. Em suas asas, voava uma mensagem para as tropas de Nordwil: “A Batalha será daqui a dois dias, próximo ao lago Seiur. Contamos com sua força”.
Ázaro reuniu seus homens e os cavaleiros de Ka se uniram a ele. Logo o comandante Janô reunia todas as pás e picaretas que estavam no acampamento. O comandante permaneceu no local para comandar a infantaria na marcha do outro dia.
Não demorou muito para que os mais de dois mil cavaleiros partissem em meio ao breu, rumo ao local onde haviam decidido interceptar o inimigo.
Segundo as observações dos batedores, dias atrás, o inimigo marchava lentamente devido ao volume de soldados e a dificuldade em transportar as máquinas de guerra num terreno irregular. Mas, apesar disso, chegariam ao lago Seiur em dois dias, no máximo.
Faldan seguia na frente, guiando os cavaleiros. Nenhuma tocha foi acesa naquela noite e os cavalos se deslocavam acelerados. O ponto que seria palco da batalha ficava a cento e cinqüenta ceres do obelisco e se continuassem a cavalgar naquele ritmo, chegariam lá pouco depois do amanhecer.
Patton estava preocupado com a divisão das tropas. Seu plano era audacioso, porém arriscado. O aventureiro apostava que, mesmo se o inimigo notasse o deslocamento da cavalaria, não tentaria um ataque direto contra a infantaria, pois isso atrasaria seu destino, que era Nordwil.
Mas essa era apenas uma das preocupações do rapaz. E se a infantaria não chegasse a tempo? E se o falcão fosse interceptado pelo inimigo e as tropas de Nordwil nunca soubessem onde seria a batalha? E se a superioridade numérica fosse tão grande que mesmo com o ardil do fosso, a batalha fosse um massacre?
Muitas dúvidas pairavam pela mente de Patton. Ele tentava a todo o momento desviar sua atenção para coisas boas, como o doce sabor da boca de Alya. Afinal, não adiantava tanta preocupação durante a cavalgada. Teria ainda tempo o suficiente para reflexões quando chegasse.
Ruprest cavalgava ao lado de Ázaro e ambos permaneceram calados por muito tempo. No entanto, Ázaro se pronunciou:
- Lembra muito o pai. - sussurrou ele olhando para Patton - Cuidaste bem deste rapaz, meu velho. Ele cresceu forte e determinado. Será um líder, com toda certeza.
- Sim, mas me deu muito trabalho. - comentou Ruprest - Mulherengo, gozador e grande apreciador de cerveja. Quantas vezes bebeu tanto que mal conseguia se lembrar da noite anterior? E por várias vezes fora motivo de chacotas de pessoas sem metade de seu valor.
- E não era assim Raikar? Dado às farras e às mulheres. Mas quando foi preciso, mostrou sua responsabilidade. Assim Patton fará também.
Poucas vezes a caravana parou e a cada pausa, pouco tempo era perdido. O sol despontou ao leste e foi lentamente se erguendo. Os cavalos estavam cansados, mas não diminuíam a velocidade e no meio da manhã chegavam ao lago Seiur.
- Não há tempo para descansar, disse Patton. Não temos pás o suficiente para todos cavarem. Então, dividiremos os soldados em três grupos. Um grupo começará a escavar o fosso. Temos cerca de cem pás, cinqüenta picaretas e usaremos as alabardas e os machados também. Outro grupo irá cuidar dos cavalos e montar as tendas. O restante se organiza em unidades de seis homens e patrulha toda a área. Faldan cuidará da vigilância.
Os comandantes ouviram as ordens de Patton e as transmitiram para os soldados. Cerca de quinhentos homens começaram os trabalhos de escavação, a dois ceres do lago. Patton retirou sua armadura e se engajou no trabalho. Conforme as suas recomendações, o buraco teria dois curvos de profundidade por quatro de largura, para que a subida não fosse muito íngreme para os cavalos.
O trabalho era árduo e a cada uma hora os homens eram substituídos por aqueles que cuidavam dos cavalos. O dia se passou assim. A temperatura estava agradável, mas o sol queimava forte a pele branca dos homens de Locksun.
Patton cavava sem parar e lamentava que Janô não estivesse ali, pois este sim tinha habilidade neste tipo de trabalho.
No final da tarde, um cavaleiro enviado por Faldan veio trazer uma mensagem. Dizia ele que as tropas de Nordwil chegariam ao cair da noite. Patton esperou e tão logo o sol se pôs, as fileiras do Rei Endor chegavam às margens do lago.
Infelizmente, para Patton, eram soldados desmontados. Contavam em mil e trezentos homens, divididos em três pelotões. Os arqueiros formavam em duzentos, o que deixou Patton mais otimista. O segundo pelotão era o dos Falcões do Rei, uma tropa de elite da infantaria, munida de armas de haste e vestindo roupas negras e vermelhas. A última e mais numerosa das tropas era a da infantaria convencional, que marchava em cinco filas, sob o repique de tambores.
Quem estava no comando era Dars, um guerreiro experiente que havia lutado nos campos do sul na Guerra das Raças. Baixo, mas forte, tinha uma cabeça grande e pouco cabelo. O comandante olhou para o campo de atividades e disse:
- O rei Endor nos enviou. - disse ele ao chegar - Estamos prontos para nos engajar às tropas de Locksun.
O duque o recebeu e pediu para que ele entrasse numa das tendas armadas ali, para colocá-lo a par dos planos e da situação. Os soldados esperaram por seu comandante por alguns minutos e quando ele saiu, deu ordens para que todos descansassem por três horas e depois se revezassem nas escavações.
A noite já tinha chegado quando Patton foi procurar Ruprest. O velho conversava com o amigo Draconiano, quando o rapaz apareceu.
- Velhos amigos trazem velhas lembranças. - disse o rapaz - O que tanto falam dois guerreiros das épocas antigas?
- Somos das épocas antigas e, no entanto, vamos participar de mais uma batalha. Isso quer dizer, no mínimo, que somos sobreviventes. Mas na realidade, nós somos o terror dos campos do leste. - bradou Ázaro, arrancando uma gargalhada de Ruprest e Patton.
- Vocês são dois abutres que só fazem tagarelar. - respondeu Patton, atormentando-os.
Ruprest e Ázaro deram mais uma gargalhada e viram o rapaz dar as costas a eles e partir. Ruprest ficou observando Patton com orgulho e antes, que se afastasse demais, perguntou:
- Aonde vais, seu buzarate? Sente-se aqui e beba uma caneca de um bom rum, que este guerreiro trouxe do sul.
- Preciso tomar um ar e refletir. Em algumas horas estarei de volta. Não se preocupem. Sei me cuidar. E como não existe taberna alguma nas imediações, não corro o risco de me embriagar e me esquecer da batalha.
Patton seguiu andando pelo acampamento. Alguns homens ainda trabalhavam no fosso e ele estava quase completo. O rapaz se dirigiu para a área onde estava descansando Tawan, seu corcel.
O garanhão negro estava sem sela e repousava ao lado de outros cavalos de comandantes. Destacava-se de todos os outros pelo tamanho e pelo porte. Patton chegou perto dele e o observou. Depois, lhe fez um agrado na cabeça e disse:
- Amanhã será um grande dia, meu rapaz. Acho que estás mais preparado para isso do que eu. Mas talvez, nem eu, nem você saiamos vivos deste inferno.
O cavalo relinchou e bateu com a pata dianteira no solo. Patton fitou seus olhos, que pareciam querer dizer alguma coisa. O aventureiro então soltou a corda que o prendia e, mesmo sem sela, subiu em seu lombo. Golpeou suavemente o animal com seus calcanhares e partiram numa galopada desabalada, rumo ao sul.
Uma unidade de vigilância fez menção de parar o cavaleiro, mas hesitou ao reconhecer o Senhor da Guerra de Locksun.
Tawan galopava em um ritmo alucinado, como se fugisse de algum algoz. Seu pêlo escuro quase desaparecia na noite e seus cascos fortes e furiosos faziam o solo tremer.
Patton cavalgou no dorso do cavalo por mais de dez ceres. Em sua mente, sempre as mesmas dúvidas: estaria ele liderando milhares de homens direto para a morte? Quanto mais pensava, mais Tawan corria. Os dois cavalgaram ininterruptamente, até acharem uma dúzia de árvores que se agrupavam em meio ao descampado.
Patton achou que era hora de voltar para o acampamento e puxou a crina de Tawan para que ele fizesse o contorno. No entanto, o rapaz viu uma luz fraca saindo do meio das árvores. Tawan se negou a dar a volta e relinchou.
O aventureiro saltou do dorso do animal e, observando o brilho que variava de intensidade, fez com que o animal se acalmasse.
O brilho foi aumentando lentamente e então Patton desembainhou sua espada. Na mesma hora, sua lâmina irradiou um brilho azul. Ele fez com que Tawan parasse ali e deu alguns passos para perto das árvores.
Seus olhos pareciam estar hipnotizados por aquele cintilar. Passo a passo, Patton foi se aproximando e seu rosto empalideceu ao notar a imagem de Thalien, a Senhora dos Unicórnios.
- Pode guardar tua lâmina, Patton. Hoje ela não verterá sangue.
- Senhora? O que fazes aqui? Algo de ruim aconteceu a Alya?
- Não, Patton. É contigo que me preocupo. Amanhã será um dia de batalha para você. Não só um embate entre dois exércitos, mas uma luta sua para provar a si mesmo que é capaz de liderar e sair vencedor. O destino desta guerra ninguém sabe, mas o que me preocupo é com o que o vento me disse esta noite. – ela continuou - Temo pelo que pode acontecer com você, pois o Lâmina Negra estará no campo de batalha. Ele virá atrás de ti. Quer certificar-se de que tu não sairás vivo deste embate.
- Mas você deve evitá-lo, pois ainda não está pronto para enfrentá-lo. Ele tentará te atrair até ele. Patton, você não pode confrontar tal poder. É cedo para isso.
- Do jeito que falas, me parece que tu conheces ele mais do que qualquer um. Mesmo Ruprest, que já o encarou de perto, não fala dele com tanto medo. - disse Patton.
- A minha história e a dele estão unidas pelo passado. Se hoje sou a Senhora dos Unicórnios, foi por conseqüência de seus atos. E se ele se tornou o que é hoje, é por não ter me ouvido quando o chamei. Mas isso não importa agora, vim apenas te informar do perigo que corres. Mantenha-se longe de Lorde Gwilber e não se aflija, a ajuda chegará.
Patton viu a figura da bela mulher desaparecer lentamente. Tentou perguntar sobre Alya, mas não conseguiu. Embainhou sua arma e voltou para perto de Tawan. O cavalo estava ali estático, mas parecia não ter se assustado com a aparição.
O jovem Senhor da Guerra subiu em Tawan de um só pulo. O cavalo prontamente o levou de volta ao acampamento. Patton se sentia mais leve depois da aparição da Senhora dos Unicórnios.
Ao se aproximar do acampamento, Patton percebeu uma movimentação. Uma pequena confusão se armara perto do fosso. Ruprest e Ázaro estavam de pé e em volta deles alguns soldados observavam o campo a frente.
Quando Patton chegou, foi logo informado do que acontecera. A unidade de vigilância em que Faldan estava tinha encontrado um espião ork e o próprio elfo havia abatido o intruso.
Faldan estava puxando a carcaça do ork cravada de flechas e se preparava para atear fogo. Muitos soldados gritavam e festejavam a mira certeira do colega. Ehrin estava empolgado e foi contar a cena a Patton.
- Graças a Faldan, nosso ardil está a salvo do inimigo. O maldito ork estava camuflado no meio do mato alto. Montava uma égua baia e observava nossa unidade.
- Nós não havíamos avistado o espião, Patton. Mas Faldan o detectou e galopou em sua direção, já com o arco em mãos. Ao perceber que Faldan ia em sua direção, o ork tentou fugir. Golpeava o lombo de sua montaria com um galho de árvore, mas Faldan foi ligeiro. Quando ele subia uma pequena colina Faldan desceu de seu cavalo e soltou duas flechas de uma só vez, antes que o alvo saísse de seu campo de visão.
- O ork caiu, mas ainda não estava morto e tentou subir na égua. Faldan puxou mais uma flecha e o atingiu em cheio. Quando conseguimos alcançar Faldan, o ork já estava morto.
Patton, que ouvia a tudo prestando atenção aos detalhes, deu um sorriso para Ehrin e olhou o meio elfo, que gozava dos louros de sua façanha.
- Tens certeza que este estava só? Não havia nenhum outro inimigo com ele? - indagou ele.
- Procurei rastros, Patton. Só encontrei o dele e os nossos. Nada mais. Nosso segredo está garantido para o dia da batalha. Mas eles estão perto daqui. Amanhã será o dia, com certeza. Espero que nossa infantaria chegue e rápido. - relatou o elfo.
Apesar da admiração, os soldados estavam intrigados como aquele cavaleiro conseguia ter tão boa mira na escuridão. E ainda, conseguia procurar rastros de cavalos durante a noite. Ázaro também estava curioso e já desconfiava, contudo perguntou:
- Fico feliz em saber que temos um vigilante que até em noite escura consegue acertar três flechas num ork em fuga. Mas diga-nos, rapaz. Qual o teu segredo? Fostes criado em uma caverna escura e enxergas em meio ao breu?
Ruprest fechou a cara ao se lembrar que o companheiro era da raça dos elfos. Patton sorriu, mas não delatou o amigo, esperando que a revelação fosse feita pelo próprio.
Faldan soltou o corpanzil do ork no chão e virou-se para o draconiano. Todos que observavam estavam na expectativa de uma resposta do arqueiro e Faldan finalmente retirou o bacinete de sua cabeça, deixando a mostra suas orelhas pontiagudas.
Os soldados ficaram espantados, mas Ázaro, que já suspeitava, deu uma gargalhada. O cavaleiro fitou o rapaz nos olhos e depois se virou para Ruprest.
- Quer dizer que o amigo dos anões agora anda lado a lado com elfos? - indagou com ar de deboche.
Ruprest deu as costas e resmungou algumas palavras, mas Ázaro tornou a olhar para Faldan e parabenizou pelo bom trabalho. Os soldados que estavam surpresos, agora eram só admiração. Muitos nunca haviam visto um elfo, porém a maioria gostou de saber da procedência do arqueiro, pois era notória a habilidade destes com o arco.
- De volta ao trabalho. - berrou Patton - Agora que todos já conhecem o capitão dos arqueiros, podem voltar a seus afazeres. Temos uma batalha ferrenha amanhã. Precisamos que tudo esteja pronto antes do raiar do dia.
A rotina voltou ao acampamento e horas antes do amanhecer, o imenso fosso estava pronto. Os cavalos estavam posicionados e os soldados puderam descansar.
Nas primeiras horas do dia, Janô chegava liderando a infantaria. Foi recebido por Locksun, que ordenou que seus soldados também descansassem até a chegada dos mensageiros com a notícia de que a guerra era iminente.
O meio do dia chegou e uma refeição foi servida. O rum já havia sido suspendido desde o raiar do dia. Somente água era servida para matar a sede. O vento soprava forte e assobiava. Fazia os galhos das pequenas moitas se envergarem e parecia trazer maus presságios. O sol brilhava alto, mas não tinha a intensidade do dia anterior.
Era por volta da terceira hora quando um cavalo veio em galope veloz na direção do acampamento. Era um mensageiro de Ka, que vinha trazer a notícia que todos aguardavam, mas ninguém queria ouvir:
- Estão chegando. Avistei-os a dez ceres daqui. São muitos e seguem em ritmo acelerado.
Um grande clangor de trombetas foi ouvido e todos sabiam o que aquele sinal significava. Houve um grande alvoroço, mas logo os capitães controlaram seus homens. Patton se levantou da cadeira onde polia sua espada e vestiu sua armadura. Depois foi ao encontro de Ruprest.
O velho continuava conversando com Ázaro, mas ambos já estavam se preparando para a batalha. Patton pediu que um dos soldados encontrasse Faldan e Ehrin e os mandasse encontrá-los ali.
- É, meu caro… Mais uma batalha iremos travar. - disse Ruprest, prendendo um protetor ao seu antebraço - Parece que as histórias se repetem. Alguns personagens mudam, mas outros continuam os mesmos.
- Nossas vidas inteiras foram assim, Ruprest. Guerras, batalhas, disputas pelo poder. Hoje eu entendo porque Raikar decidiu se afastar e deixar essa vida belicosa. Uma luta como esta faz sentido, mas o povo dos homens é muito inconstante. Quando finalmente o mal é derrotado, ou afastado, começam as disputas locais pelo poder. Sempre foi assim e eu temo que isso nunca mude.
- Mas os sonhos são feitos de esperança. - disse Patton, intrometendo-se na conversa dos dois - E é por isso que vocês dois continuam lutando.
Ruprest e Ázaro concordaram e então Patton abraçou o velho ruivo. O caçador-de-bruxas havia cuidado dele como um filho, no entanto, apesar da diferença de idade, eles eram como irmãos. Ruprest sempre chamando sua atenção e ele, sempre atormentando sua paciência.
Ehrin e Faldan chegaram naquele momento e então Ázaro desembainhou sua espada e convocou os outros que fizessem o mesmo. O pedido foi prontamente atendido e o Draconiano bradou:
- Irmãos em armas, vamos à vitória!
Os outros presentes repetiram o brado e seguiram Patton para onde as tropas se reuniam. A cavalaria já estava a postos e a infantaria se posicionava em concentração.
Ficou decidido que dois pelotões de quinhentos homens ficariam à frente do grande fosso, para escondê-lo. Quem os liderava era o Próprio Duque de Locksun. Outros quinhentos arqueiros ficariam a frente da infantaria, liderados por Faldan. Ao todo, dois mil e duzentos cavaleiros esperavam dentro da escavação e todos os demais soldados de infantaria estavam atrás da cavalaria. Eram cinco pelotões, cada um contando com quatrocentos e vinte guerreiros.
Patton, já montado em Tawan, foi à frente das fileiras e fez com que fizessem silêncio. Todos estavam posicionados e, sacando sua espada, o senhor da guerra começou a discursar.
- Estão aqui por um ideal. Vamos aqui ser um dos focos da resistência contra uma força invasora, que deseja o domínio total de nossas terras, de nossas famílias e de nossas vidas. Se falharmos aqui, nada irá adiantar em parte alguma. Temos uma missão e muitos contam com nosso êxito. Se desapontarmos nossos irmãos do sul, seremos saqueados, escravizados e provavelmente mortos.
- Não peço que sejam mais fortes do que podem ser. Não peço que não sintam medo. Não peço que gostem do que vão fazer. A única coisa que peço a todos vocês, é que lutem com a força de seus corações e dêem o melhor de si nesta batalha! Irmãos em armas, vamos à vitória!
Os soldados, inflamados pelo discurso de Patton começaram a gritar. Muitos gritavam o nome do Senhor da Guerra, mas a maioria bramava em coro, berros de vitória.
O moral do exército havia se elevado, mas a tensão não abandonara o campo de batalha. De repente um rufar de tambores foi ouvido ao longe. Era um ritmo frenético e logo veio também o clangor de cornetas. A terra começou a tremer quando as primeiras fileiras de orks começaram a aparecer.
Logo, todo o horizonte estava tomado por guerreiros ostentando o estandarte da águia bicéfala. Vinham marchando e se concentrando. Primeiro os infantes, depois a cavalaria. Eram três mil cavaleiros yushers, montados com seus belos cavalos do oeste. Cavalos resistentes e de espírito forte. Os yushers eram baixos, mas fortes. Muitos usavam cabelos longos, mas que cresciam apenas do topo da cabeça e na nuca. A maior parte deles usava longos bigodes e tinha a pele bronzeada pelo sol.
Os orks usavam bacinetes negros feitos de ferro e corceletes de metal cobertos pelo uniforme negro do oeste. Usavam escudos redondos, diferentes dos pentagonais de Locksun. A maioria vinha a pé, pisando forte no chão verde e gritando urros ininteligíveis para os homens do leste.
Na retaguarda vinham os Duhr Kazur. Imensos e extremamente fortes, os gigantes puxavam quatro torres de cerco e três enormes catapultas. Eram poucos, mas grandes o bastante para encher de medo os corações dos guerreiros da resistência.
Na frente de batalha de Swannpala, somente alguns poucos cavalos estavam fora do fosso, sobretudo os de oficiais, para não despertar suspeitas. Patton, que levara Tawan para o fosso, observava a tudo desmontado. Ele empunhava uma lança de cavaleiro de quase quatro curvos de comprimento e calculava ao longe o tamanho das forças inimigas. Segundo seus prognósticos, somavam mais de três mil cavaleiros e o dobro de infantes, além de milhares de arqueiros que se abrigavam nas quatro torres de cerco.
Com uma visão privilegiada, o senhor da guerra avistou o comandante inimigo. Era o mesmo cavaleiro de armadura branca e dourada que havia observado dias atrás, em Phalanx. Patton procurava sem sucesso localizar o Lâmina Negra. As palavras de Thalien ecoavam em sua cabeça e o deixavam um tanto curioso e ansioso também. Janô se juntou a ele e disse:
- Veja, Patton. Eles estão mandando uma comitiva. Devem ser emissários ordenando nossa rendição.
- Avise ao duque! Vamos encontrá-los e mandá-los voltarem para o buraco fedegoso de onde eles saíram. Nenhuma rendição será firmada aqui. - disse Patton e depois cuspiu para o lado.
Janô fez o que Patton pedira e trouxe três cavalos para que fossem ao encontro da comitiva. O próprio duque ia à frente do grupo, seguido por Patton e o comandante.
A meio cere do grupo inimigo, Patton atestou que a comitiva dos opositores também era formada por um trio, mas se espantou ao perceber que o pequeno estandarte levado por um dos cavaleiros inimigos levava o brasão do urso verde de Phalanx.
Chegando mais perto, Patton e seus aliados notaram o jogo maligno do inimigo. Seus rostos empalideceram e as expressões, outrora decididas, mudaram. Janô segurou no pomo de sua espada cuspiu para o lado e praguejou:
- Pelos deuses, a maldade não tem fim!
Trotando em cavalos yushers, três figuras hediondas se aproximaram. Eram homens de Phalanx que haviam sido espancados e sofrido toda sorte de crueldades.
Os cavaleiros pareciam mulambos e estavam amarrados nos corcéis para não caírem. Um deles havia sido despelado e era difícil para Patton e seus amigos olharem para aquela figura.
O porta-estandarte tinha o mastro amarrado em seu corpo e uma venda sobre os olhos. Patton se aproximou e, com sua espada, cortou as cordas que o prendiam ao estandarte. O rapaz colocou a mão em seu pescoço e atestou que, apesar de mortalmente ferido, aquele cavaleiro ainda vivia. Então, mais uma vez, ele usou sua lâmina, porém agora para cortar a venda que tapava-lhe os olhos.
Para o horror da comitiva de Swannpala, o cair da venda revelou que os dois olhos do porta-estandarte haviam sido arrancados.
O duque se aproximou de um dos cavaleiros moribundos e o reconheceu o próprio Duque Yubar, de Phalanx. Ele se aproximou do nobre do lago Vaërn e, como Patton, colocou a mão em sua garganta e garantiu:
- Está morto!
Janô não precisou fazer o mesmo com o terceiro cavaleiro para constatar que este estava morto. Sua carne despelada já começava a entrar em decomposição e atraía dezenas de moscas.
Os três de Swannpala desmontaram de seus cavalos e cortaram as amarras que prendiam os cadáveres nos corcéis yushers. Recolheram os corpos e os deitaram nas selas de bruços. Patton sugeriu que o duque e Janô retirassem suas capas e cobrissem os corpos, para que a visão daquela barbárie não baixasse o moral da tropa.
Patton e seus dois companheiros subiram novamente em seus cavalos e voltaram para as linhas de Swannpala trazendo os três cavalos com suas cargas sinistras.
Os corpos foram levados para trás das linhas, mas os soldados curiosos não puderam ver o que acontecera. Patton desmontou. Juntou-se a Ruprest e detalhou em voz baixa o que havia acontecido.
Ruprest se abaixou, apoiando-se no joelho esquerdo e olhou para o horizonte, onde as fileiras inimigas se organizavam. Respirou profundamente e, súbito, sacou suas espadas de prata e as fincou no solo até metade das lâminas. O velho olhou novamente para o inimigo e sentiu seu coração acelerar. Não era medo, porque o medo típico dos momentos que precedem uma batalha, havia lhe abandonado há tempos.
As fileiras inimigas se preparavam, mas a distância fazia com que Ruprest não enxergasse tudo com nitidez o bastante para analisar a movimentação. Ele percebeu os cavalos yusher tomandoa vanguarda e ficou feliz, pois isso era sinal de que, provavelmente, estavam caindo no ardil de Patton.
Ainda ajoelhado, Ruprest passou as mãos no chão, pegou um punhado de terra e esfregou nas palmas. Depois puxou uma bandagem que estava presa em sua couraça e a enrolou na mão direita. Segurou suas espadas e as embainhou.
Quando se levantou, Ruprest foi abordado por um veterano do exército de Locksun. O soldado era mais velho do que Ruprest e não lhe restavam muitos dentes na boca, o que fazia com que sua fala fosse engraçada e sibilante.
- Você é Ruprest? - perguntou o veterano, para surpresa do ruivo - Ruprest, o campeão dos anões? - insistiu o velho.
- Quem quer saber? - retrucou Ruprest, cauteloso.
- Ruprest, o campeão dos anões. Herói da Guerra das raças. - continuou o soldado - Lutei ao seu lado, senhor. Lutamos contra esses miseráveis na fronteira de Kalpang. No “Massacre do Keld”.
- Não tivemos sorte naquela batalha. - disse Ruprest, tocando seu amuleto supersticiosamente, para afastar o mau agouro.
- Muito azar, meu senhor. - concordou o veterano, mostrando seu braço direito, que terminava precocemente no punho, mas mesmo assim, tinha um broquel amarrado - Um machado ork, senhor. Mas era o braço ruim e ainda posso ceifar algumas vidas com o esquerdo. - continuou ele, segurando o pomo de sua espada embainhada.
- Mas hoje teremos uma bela vitória, soldado. - previu Ruprest - Como na batalha final. Vamos botá-los para correr.
- É uma honra lutar novamente ao seu lado.
- A honra é recíproca. Qual o seu nome, soldado?
- Karvo, senhor. Karvo, o maneta.
Ruprest deu um tapinha nas costas do companheiro e sabia que durante o combate, teria um companheiro leal.
- Karvo, o incansável lhe cairia melhor, soldado.
- Parece que eles foram atraídos por nossa armadilha. Estão posicionando os cavalos na dianteira. A essas alturas, o comandante inimigo já deve estar cantando vitória. - disse Janô, entusiasmado.
- Faldan! - chamou Patton - Prepare-se para o ataque da cavalaria.
O elfo ouviu a ordem prontamente e deu um sinal para seus comandados. No mesmo instante, todos os arqueiros, inclusive ele, retiraram três flechas de suas aljavas. Duas delas foram fincadas no chão e as outras, armadas nos arcos longos.
Do outro lado, a aproximadamente um cere de distância, os cavaleiros selvagens berravam e levantavam suas armas para a tropa inimiga. Estavam sem armadura, como Patton previra. Os arqueiros permaneciam imóveis esperando por um sinal de Faldan.
Patton correu para o fosso e montou em Tawan, seu corcel negro. Empunhou uma lança e fez uma oração em voz baixa, pedindo aos seus antepassados que lhe ajudassem e aos deuses, para que não atrapalhassem.
O repique dos tambores aumentou a cadência e de repente cessaram. O comandante inimigo deu um sinal com sua espada e a horda de cavaleiros partiu em disparada contra as linhas de Swannpala. Os yushers eram excelentes domadores de animais e montavam como ninguém. Seus cavalos não tinham sela e eles não precisavam das mãos para ter domínio total de suas montarias.
Os belos corcéis eram baias ou brancos, mas possuíam a crina escura. Eram selvagens como seus donos e eram fortes e velozes. Rapidamente foram ganhando terreno, num ataque que seria fulminante.
Patton, de dentro do fosso, não enxergava nada, mas podia sentir a vibração do solo produzido pelo golpear dos cascos dos cavalos yushes. Tawan permanecia impassível e esperava a hora de atacar.
A cavalaria avançava rapidamente. Ao percorrerem o primeiro quarto de cere, Faldan deu mais um sinal aos arqueiros. Esses por sua vez, elevaram seus arcos armados.
Já haviam percorrido metade do caminho quando Faldan deu outro sinal, fazendo com que seus homens escolhessem seus alvos e travassem mira.
- Flecha! - gritou ele.
E todos os arqueiros, inclusive ele, dispararam suas setas mortais contra os yushers. Mais de trezentos cavaleiros tombaram. Algumas flechas atingiram os cavalos, que mesmo feridos continuaram seu galope feroz.
Faldan acertara um cavaleiro no pescoço e percebeu sua queda. Rapidamente puxou mais uma flecha e acertou outro, perfurando-lhe o olho esquerdo.
- Flecha! - gritou ele mais uma vez.
Ele puxou sua terceira seta, enquanto os demais arqueiros disparavam a segunda.
A nova saraivada de flechas foi mais mortal e quase quinhentos cavaleiros foram atingidos. Nem todos caíram, mas os ferimentos iam deixá-los debilitados para a batalha.
O elfo ainda teve tempo de matar mais três cavaleiros antes que Patton desse o sinal de ataque à cavalaria. Os arqueiros e a infantaria deram passagem para os cavalos. Eram mais de dois mil soldados montados, protegidos por armaduras e escudos, armados com longas lanças de mais de três curvos de comprimento.
Os cavalos saíram do fosso sem dificuldade e atacaram a já debilitada cavalaria inimiga. Os yushers tinham se limitado a pouco mais de dois mil e agora estavam em desvantagem, pois não usavam armaduras e não contavam com a surpresa preparada por Patton.
O choque das tropas foi brutal. As lanças do leste perfuravam os corpos dos selvagens facilmente. As armas curtas dos yushers não eram páreas para um ataque tão arquitetado. Quando as últimas fileiras dos inimigos conseguiram se esquivar das lanças, a infantaria entrou em ação, auxiliando a cavalaria.
Os Falcões do Rei foram os primeiros a chegarem com suas alabardas e armas de haste. Os yushers iam tombando sem quase causar baixas ao exército liderado por Patton.
Distante dali, o comandante inimigo observava ao ardil de dentro de seu elmo branco. Parecia não se abalar com o truque e não deu ordem alguma ao restante dos soldados.
Com a cavalaria inimiga dizimada, Patton levantou sua lança e deu um berro sem nada falar. Seus soldados vibraram com ele e festejaram o sucesso do ataque. O rapaz sabia que a batalha ainda estava longe de acabar e que o destino era incerto.
Com um sinal de Patton, os cavaleiros partiram para um novo ataque. As baixas tinham sido poucas, cerca de uma centena de homens do leste haviam perecido. A infantaria se reuniu e começaram a marchar rumo ao inimigo.
Faldan montou um cavalo yushe e pegou uma lança de um cavaleiro tombado. Ordenou que um capitão dos arqueiros comandasse seus homens e cuidasse da retaguarda da infantaria e seguiu com Patton ao ataque.
Mais uma vez a terra tremeu. Desta vez eram corcéis Nordskog e Suhrds que atropelavam o mato verde dos Campos de Celemar. Tawan era o mais veloz e o mais forte entre todos eles. Seus cascos com uma pelagem abundante, se moviam mais rápido do que se podia acompanhar.
Quando estavam na metade do caminho, o comandante ocidental fez um sinal com sua arma e um clangor de cornetas foi ouvido. Prontamente as catapultas foram acionadas. Pedras imensas, pesando dois aquitos ou mais, foram lançadas sobre as tropas do leste. A cada pedra que caía, cinco ou seis soldados eram esmagados.
O conde de Locksun se assustou com o ataque. Janô gritava para que não parassem, mas alguns cavalos assustados não obedeciam a seus cavaleiros.
Logo a cavalaria saiu do campo de alcance das catapultas, mas o massacre foi ainda maior quando a infantaria atravessou o campo. Ehrin, que havia obtido êxito em seu primeiro confronto, agora via companheiros sendo esmagados pelas imensas pedras. Ruprest corria alucinadamente incentivando a infantaria. Ele empunhava suas duas espadas e gritava como um selvagem em direção ao confronto.
As pedras caíam com velocidade incrível. Os trogloditas Duhr Kazur carregavam as catapultas enquanto orks as manejavam.
Patton foi o primeiro a chegar às fileiras inimigas. Os orks esperavam preparados para a carga, organizados numa poderosa parede de escudos, mas o golpe foi tão brutal que nenhuma defesa seria possível. A lança do Senhor da Guerra perfurara a couraça metálica de um ork, varando seu corpo por mais de um curvo. O guerreiro levantou sua lança ainda varada no inimigo e fez com que o sangue escuro e espesso da criatura escorresse por ela. Depois abandonou a lança e sacou a Lâmina de Askai.
Um brilho azul radiou da espada e por um segundo os orks hesitaram. Uma avalanche de cavalos e lanças caiu sobre os orks. A vanguarda da infantaria inimiga fora destruída pelas armas dos cavaleiros, mas ainda restavam quinhentos orks a cavalo e mais de seis mil infantes.
A infantaria de Locksun tinha dificuldades em passar pela zona onde as pedras da catapulta eram lançadas, mas enfim chegaram para auxiliar os cavaleiros. Muitos morreram no caminho, esmagados pelos imensos mísseis. Alguns ainda estavam vivos, mas não podiam mais lutar.
Patton e Ruprest ceifavam orks lado a lado e tentavam atravessar aquele mar de guerreiros, para chegar às catapultas. As tropas inimigas começavam sua reação. Os planos de Patton saíram perfeitamente como ele previa, mas a superioridade numérica era absurda e as baixas produzidas pelas catapultas foram de vital importância para as forças inimigas.
O cavaleiro branco acompanhava a tudo da retaguarda. Continuava impassível, apenas sinalizando ordens para seus capitães. Patton o olhava com fúria, enquanto descia sua lâmina sobre os orks.
Ázaro usava um machado de combate com maestria. Era um guerreiro experiente, além de possuir uma grande habilidade em batalhas. Ele observava a situação com preocupação. Os orks, cada vez mais ferozes, pareciam se multiplicar. A cada ork morto, mais dois apareciam para o combate e as tropas do leste iam se enfraquecendo.
Ruprest e Patton sentiam a mesma coisa. Podiam agüentar ali durante horas, porém a vitória era incerta. Os soldados inimigos eram muitos e lutavam movidos por um ódio que lhes aumentava a força.
Faldan, em cima do cavalo, atacava com agilidade e era o terror dos orks. Suas adagas cortavam o vento e perfuravam os soldados. Ele estava concentrado na batalha, mas de repente teve um presságio. Olhou para o norte e viu uma imagem que afagou sua alma.
Do alto de uma pequena elevação ao lado do campo de batalha se ouviu o toque de uma trombeta. O som ecoou por toda área durante um longo tempo. O toque era tão alto e imponente que todos se viraram para o lugar de onde vinha.
Menos de um cere dali, duzentos cavaleiros encapuzados montados em unicórnios esperavam em uma grande fileira, lado a lado. À frente deles, um dos cavaleiros tocava uma trombeta feita de chifre e adornada em ouro. Seu som era familiar aos aventureiros que outrora foram hospedes em Palari Kadun.
O som cessou e Patton notou que o cavaleiro branco agora estava se movimentando e parecia preocupado. Mais um cavaleiro se adiantou e todos, ao mesmo tempo, retiraram seus capuzes.
À frente deles, estava Fabrion com seus grandes olhos azuis e a pele alva feito a neve. A seu lado estava Ernandor, o único de pele morena em meio a duas centenas de cavaleiros élficos. Estavam cobertos por capas brancas e tinham na mão belos arcos longos. Na cintura, ainda levavam espadas de um brilho intenso.
O Cavaleiro Branco, comandante das tropas do oeste ordenou um ataque imediato aos recém chegados inimigos. Todos os orks montados partiram para uma carga contra os elfos. Fabrion tocou novamente o chifre e os cavaleiros armaram seus arcos com flechas prateadas.
Os orks galopavam rapidamente, mas nenhum conseguiu chegar ao destino ordenado pelo mestre. Flechas às centenas foram disparadas, não dando chances aos opositores. Faldan viu aquilo com orgulho e retirou o bacinete da cabeça, revelando suas orelhas élficas.
Patton aproveitou a baixa do inimigo para atravessar a infantaria. Sem o obstáculo dos cavaleiros orks, Ele e Ruprest lideraram uma ofensiva contra as torres de cerco. Ao passar pelos infantes, os cavaleiros foram recebidos por uma saraivada de flechas, vindas das torres. As bestas orks levaram a vida de vários cavaleiros, mas eram lentas e difíceis de serem armadas.
Os cavaleiros élficos novamente armaram suas flechas prateadas e atiraram contra as torres. Acertaram as paredes de três das quatro torres que estavam ao alcance. Como que por algum encanto, as setas entraram em combustão e as torres começaram a queimar rapidamente. Os orks tentavam sair de dentro das torres, mas o fogo as consumia muito depressa e a maioria morreu queimada.
Logo vieram os Duhr Kazur. Vinham armados com grandes maças forjadas pelos orks, que terminavam numa esfera cravejada de espetos. Faldan acertou um com quatro flechas, mas foi necessário o golpe do machado de Ázaro para que o gigante tombasse.
Ruprest confrontou um deles que corria em sua direção. Mesmo barrigudo, o velho era ágil e toda vez que esquivava de um golpe do troglodita, fincava-lhe uma de suas espadas de prata. Bastaram três estocadas com suas lâminas centenárias para o duhr kazur tombar.

Todavia, outros vieram. O ruivo chegou a lutar com três gigantes de uma só vez. Teve a ajuda de Ehrin e o velho Karvo, que tombaram juntos um deles, mas quando vieram mais guerreiros daquela raça, foi preciso que os cavaleiros élficos o socorressem. Mais uma saraivada de flechas fez com que os oponentes caíssem.
- Maldição! Salvo por elfos! - praguejou o caçador-de-bruxas.
Ázaro saltou de seu cavalo e pediu ajuda para outros que estavam ao seu lado. Ele queria derrubar a última torre, que não havia sido lambida pelas chamas, pois de lá saiam as últimas flechas orks que ameaçavam os cavaleiros.
Ruprest correu na direção da torre e ajudou na tentativa. Do alto, um ork armado com sua besta mirou no velho ruivo, que empurrava a torre com toda sua força. Sem que o ruivo percebesse, o ork disparou, varando seu corpo na altura do ombro. O guerreiro soltou um urro de dor, mas continuou empurrando a torre até que esta foi ao chão.
Os orks dentro do engenho ficaram desesperados e então os homens do leste caíram sobre eles. Ruprest era o mais furioso e, mesmo com um só braço em condições, cortou e furou os orks como parias.
Patton lutava com um troglodita, quando um vento gelado soprou do oeste. Ele continuou lutando até matar o adversário. Quando o gigante estava caído no chão, algo fez o rapaz olhar para trás.
Não muito longe dali, montado num corcel negro, estava um cavaleiro em uma armadura escura, com adornos dourados. O guerreiro emanava uma aura de terror e muitos se afastaram dali. Sua capa revoava com o vento gelado que soprava do oeste.
- Lutai comigo. - disse o guerreiro, com uma voz fria e rouca, que vinha de dentro de um elmo de topo chato.
Patton pensou nas palavras de Thalien, sobre sua sorte na batalha. Porém, quando deu por si, já estava desembainhando novamente sua espada e partindo para cima do inimigo.
O cavaleiro do leste sacou lentamente sua espada e ela tinha uma lâmina negra. Tawan correu de encontro ao outro corcel, levando Patton, que já preparava um golpe.
O primeiro choque das duas espadas radiou uma energia que foi sentida em todo o campo de batalha e em toda região. Os dois se enfrentavam como se fossem inimigos seculares. Havia ódio em cada golpe e o som do aço fazia toda Enthär tremer.
Muitos observavam, mas ninguém pôde se intrometer naquele duelo. Patton desferia seus ataques, mas o Lâmina Negra defendia a todos.
O combate permaneceu equilibrado por algum tempo, mas num descuido de Patton, o Lâmina Negra tirou-lhe a arma da mão. Patton caiu de cima de Tawan e ficou indefeso, de joelhos. O Cavaleiro do Oeste virou-se para o Cavaleiro Branco.
- Então é este o escolhido? Decepcionante! - disse ele com sua voz fria - Não passa de um garoto prepotente.
O guerreiro olhou mais uma vez para o rapaz, desceu de seu corcel negro e atravessou-o lentamente com sua espada de lâmina negra na altura do peito. A lóriga de Patton foi perfurada com extrema facilidade e o sangue escorria pelo metal brilhoso.
- Não é páreo para o campeão do oeste, meu senhor. - disse o cavaleiro branco, com uma voz fina, mas igualmente tenebrosa - Mas parece que subestimamos o poder do inimigo, Lorde Gwilber. Nossas tropas não durarão muito no campo de batalha. A chegada dos elfos do norte parece ter virado a sorte contra nós.
- Não importa. Já esperei por mais de um século. Posso esperar por mais um. Logo nossas tropas ao oeste estarão com sua força total. Logo, a queda do oriente e a redenção de Talbor serão inevitáveis.
Os dois reuniram a tropa de elite que os rodeava e partiram rumo ao norte, deixando para trás Patton. O rapaz estava caído e sangrava muito. Estava inconsciente. Seus olhos estavam fechados. Mas ele via cenas de batalhas antigas em seus sonhos e em todas elas, via Gwilber, ceifando vidas e espalhando o caos.
A batalha parecia estar chegando ao fim e muitos orks já batiam em retirada. Patton ainda estava caído e ninguém chegava para ajudá-lo, até que Faldan viu Tawan solto, sem seu cavaleiro.
O elfo correu para o local onde o combate havia sido travado. Rapidamente percebeu o corpo de Patton estirado no chão e foi ao seu encontro. O sangue escorria pela sua boca e o elfo começou a gritar por socorro.
Ruprest correu para perto de Patton e se desesperou ao ver o rosto pálido do rapaz. O velho se sentia incapaz e que havia falhado com seu amigo Raikar. Ele ainda tinha a flecha cravada no ombro, mas não se preocupava com ela.
Os elfos dourados tinham cavalgado para o centro da batalha e, com suas espadas empunhadas, combatiam os soldados remanescentes. Ernandor estava entre eles, todavia desviou sua atenção do combate e notando o desespero de Ruprest, cavalgou até o local.
- O que aconteceu? - inquiriu o druida - Quem o feriu?
Ruprest balbuciou algumas palavras, mas foi Faldan quem respondeu de fato. Ele dizia não ter certeza, mas vira quando um cavaleiro, de armadura sinistra, partia bradando sua lâmina negra.
- Então não podemos perder tempo. Nenhuma erva ou láudano que eu preparar vai ser suficiente para curar este ferimento. - noticiou Ernandor gravemente - Vamos ter que levá-lo a Palari Kadun o quanto antes.
- Ele não agüentaria a viagem. - disse Ruprest, com um nó na garganta - Pereceria antes mesmo de chegar a Locksun.
- Não, Ruprest. Os unicórnios nos levarão e ele terá alguma chance. Se ficar aqui, seu destino será a morte.
Ruprest fez que sim com a cabeça e olhou novamente para Patton. Seu rosto estava gélido e o sangue não parava de correr. O ruivo retirou sua armadura e Ernandor fez um curativo para tentar estancar o sangramento. Ruprest lembrou-se de seu cantil e despejou toda água que ele havia coletado na fonte da Dríade Nayan. Então, o meio elfo fez o mesmo e Ernandor sorriu. O ferimento começou a borbulhar e espumar, mas o poder da Lâmina Negra era maior e o ferimento não cicatrizou.
- Ele precisa ir. A água de Nayan ajudou, mas não foi eficaz o bastante. - disse o Druida.
Faldan levantou Patton e o colocou no lombo de um unicórnio.
- Leve-o para o norte. - disse Ernandor - Logo estarei lá, mas enquanto isso, peça à Senhora dos Unicórnios que cuide dele.
O meio-elfo subiu na criatura alva e partiu, deixando Ruprest desolado. O druida olhou para o velho ruivo e notou a seta fincada em seu ombro. Pediu para que se abaixasse e quebrou a flecha, retirando primeiro a ponta de metal, que saía pelo seu dorso e, depois, a parte de trás, que permanecia na parte superior do ombro.
A dor foi grande e Ruprest dera um berro quase tão alto quanto os clangores da corneta élfica. O caçador-de-bruxas apertou forte o cabo de sua espada e amaldiçoou o druida. Mas Ernandor não deu atenção a ele e fez um curativo, recomendando que ele ficasse fora da batalha.
Ruprest ignorou o conselho do druida e voltou para o combate. Pouco a pouco, os orks iam sendo dizimados numa chuva de metal contra seus corpanzis. Os que desistiam da luta e fugiam, eram perseguidos pelos cavaleiros, que não tinham misericórdia por aquela raça vil.
Os trogloditas duhr kazur foram eliminados e as catapultas incendiadas. Antes do breu da noite, todo o exército inimigo havia tombado. Ehrin tinha um hematoma na parte posterior da perna, feito por uma maça inimiga, andando com dificuldade. O jovem olhou a sua volta e viu Ázaro em cima de seu cavalo branco. Perguntou a ele sobre Patton, Ruprest e Faldan e ficou triste ao tomar conhecimento da sorte do amigo.
Com a mão segurando o braço ferido, Ruprest se aproximou lentamente de Ehrin. Ele vinha cabisbaixo e seus cabelos tapavam-lhe o rosto. Suas espadas estavam embainhadas e ele chutava algumas carcaças de orks mortos.
- Uma vitória esplendorosa. - disse ele - Mas que preço nós pagamos? Parece que o chão sumiu debaixo de meus pés. Estou me sentindo em débito com Raikar.
- Não sejas tolo, Ruprest. Tu cuidaste do garoto a vida inteira. Ele agora é um homem e tu não podes se achar responsável por ele o resto da tua vida - recriminou Ázaro.
Logo chegavam também o Lorde de Locksun e Janô, seu comandante. Souberam do ferimento de Patton e sentiram por ele. O duque mandou que seus homens enterrassem os corpos dos soldados mortos e que queimassem as carcaças dos orks e yushers em uma grande fogueira. Ordenou que descansassem antes de voltar para casa e liberou o rum e as fogueiras. Mandou um falcão mensageiro à Nordwil para enviar as boas notícias e mandou que preparassem um belo banquete para os capitães do leste.
Os elfos dourados partiram tão misteriosamente quanto chegaram, mas deixaram Ernandor para que cuidasse dos feridos e acompanhasse Ruprest e Ehrin para Palari Kadun, no dia seguinte.
Ázaro jantou com os comandantes e partiu para Dracon durante aquela noite. Antes, porém, despediu-se do amigo de longa data.
- Espero notícias de Patton, Ruprest. Tenho certeza de que ele irá sobreviver, pois seu destino é tomar a liderança dos Draconianos e nos conduzir nesta guerra que está longe de terminar.
- Que os deuses te ouçam, Ázaro. Como você disse, esta guerra ainda vai durar muito.
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Traição nos Campos de Celemar
Postado por admin em November 11th, 2008 na categoria: UncategorizedComente agora! »
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acampamento foi desarmado rapidamente enquanto os primeiros raios de sol começavam a despontar por entre as árvores. Em menos de uma hora os cavalos já galopavam na estrada, rumo ao Rio Mayda. O ritmo era o mais veloz possível e logo eles encontraram com os soldados de infantaria, que marchavam na mesma direção.
Os mil e oitocentos guerreiros com o uniforme de Locksun marchavam determinados, sem saber o destino que lhes aguardava. No primeiro pelotão seguia a elite dos infantes. Todos armados com lanças e alabardas de dois curvos de comprimento.
Quando o duque passou, o comandante da infantaria fez uma reverência em sinal de respeito. O duque retribuiu o gesto e continuou sua marcha.
Logo se viu as margens do Rio Mayda. Lá, esperavam as cinco centenas de cavaleiros de Locksun. Ao chegar, a tropa foi recebida com entusiasmo pelos comandantes da cavalaria. Com o reforço inesperado, a unidade montada ficava agora mais poderosa e o moral da tropa se elevara.
Pouco tempo se passou até que a infantaria chegasse à concentração de tropas. O duque e Patton convocaram uma nova reunião e ficou decidido que os soldados descansariam da marcha e, logo após, fariam uma refeição. Depois, atravessariam o Mayda e seguiriam para o obelisco de Celemar, ponto onde se encontrariam com as tropas de Ka.
Enquanto o exército do ducado descansava, Faldan se divertia treinando sua pontaria com seu arco. Suas flechas eram certeiras e logo uma pequena multidão se juntou para ver sua habilidade. Todos, principalmente os arqueiros, comentavam sobre a sua perícia e o comparavam aos elfos do sul. Entretanto, ele era precavido e nunca revelava suas orelhas pontiagudas, mantendo sempre o bacinete na cabeça.
Ao meio do dia foi servida uma refeição leve e, uma hora depois, o acampamento já estava sendo desarmado. Ao todo dois mil e oitocentos soldados atravessavam o rio Mayda e marchavam nos verdes campos do leste. À frente seguia o estandarte e ao seu lado, um capitão levava uma dúzia de enormes cães brancos de pelagem abundante e olhos claros. Eram cães do norte, parentes dos grandes lobos das montanhas, símbolos do ducado de Locksun. O dia passou, mas as fileiras não pararam até chegarem ao obelisco, já em noite avançada.
Durante a noite o obelisco passava quase despercebido, mas Faldan pôde contemplar o belíssimo legado dos artistas do passado. O colosso media mais de dez curvos e era inteiramente talhado em pedra negra do sul.
Contrariando as previsões, as tropas do ducado de Ka ainda não haviam chegado. Patton achou que algum imprevisto poderia ter atrasado a partida dos soldados e sugeriu ao Lorde Locksun que acampassem ali. No dia seguinte, mandariam um mensageiro à Ka e descobririam o por quê da demora.
Com o raiar do novo dia, Patton se levantou e ordenou que um mensageiro fosse até a cidade de Ka e questionasse o atraso no envio das tropas. Porém, esta missão não foi necessária, pois um cavaleiro vestindo o uniforme azul celeste de Ka chegou ao acampamento, trazendo consigo uma carta de Lorde Golthar, duque de Ka.
Logo Byron foi chamado e recebeu a carta. Conforme lia as palavras escritas naquela mensagem, sua face ia tomando uma nova expressão, até explodir em fúria.
- Ao Lorde Byron, Duque de Locksun… - começou a ler em voz alta, para que Patton e Janô ouvissem.
Caro Duque, Ka é uma cidade de comércio e não de guerra. Nossos homens são marinheiros e não guerreiros. Portanto, tudo o que posso lhe enviar são meus votos de boa sorte.
- Mentiras deste maldito! - praguejou o duque - Bem sei que este traidor possui uma bela tropa de soldados treinados e tão disciplinados quanto os de Locksun.
- Isso sem falar dos cavalos. - comentou Janô - Este ducado tem a fama de possuir os melhores cavalos de Swannpala. Tanto que, uma vez a cada ano, o duque envia uma manada destes para Nordwil para serem montados pelos paladinos do Rei. Será uma perda.
- Não será. - disse Patton - Vamos até Ka falar pessoalmente com Lorde Golthar. Sem essa ajuda, marcharemos como cordeiros para a boca dos lobos.
O nobre concordou com seu Senhor da Guerra e ordenou a Janô que ficasse no comando das tropas, enquanto ele iria pessoalmente ao encontro de Golthar.
Uma pequena comitiva foi formada e rapidamente partiu em sua missão diplomática. Entre os membros da comitiva estavam Patton, Ruprest, um porta-estandarte, carregando o emblema de Locksun, dois cavaleiros e o próprio duque.
Ka não ficava longe do obelisco e, com cavalos descansados, eles não demoraram a chegar. Nos burgos e nas pequenas propriedades agrícolas em volta da cidade, não se via uma pessoa sequer. Até mesmo os animais tinham sido recolhidos para dentro dos muros da cidade.
Uma unidade, vestindo o uniforme azul celeste da cidade, veio ao encontro deles. Vinham montados em belos cavalos Suhrd e estavam armados com lanças longas de cavaleiro.
- Levem-me ao seu senhor. Preciso falar com ele com urgência, soldado. - disse o Lorde.
- Ele o aguarda no muro da cidade, senhor. - respondeu o soldado, dando meia volta.
A comitiva seguiu o caminho escoltada pela unidade de reconhecimento de Ka. Chegaram à muralha e como havia dito o guarda, lá estava Lorde Golthar, o duque de Ka, ao lado de três de seus conselheiros.
- Que ventos o trazem a minha cidade, Lorde Byron? Não recebeste a minha mensagem?
- Recebi. É por causa dela que estou aqui. Reúna seus homens e envie-os para o obelisco. Estamos atrasados. O inimigo já marcha pelos Campos de Celemar.
- Parece que não leste direito o meu recado. Não há nenhuma unidade disponível para esta batalha. Meus homens são poucos e não têm instrução militar. Somos uma cidade pacífica e não belicosa.
- Viemos em uma missão desesperada, Lorde Golthar. Sem tua ajuda, todo o reino e talvez, toda Enthär estará condenada ao julgo inimigo. Imploro a ti que és nobre e leal ao teu Rei, que envie teus homens para o fronte.
- Tu vens me falar de lealdade para com meu Rei, mas onde está ele e seus valentes paladinos, quando mais precisamos dele? Se mando meus homens para uma batalha perdida, deixo minhas terras desprotegidas.
- O Rei enviou suas tropas para nos fortificar. Eles nos encontrarão em alguns dias, nos Campos de Celemar.
- Balela. Byron, você é um tolo. Ele manda menos de mil homens para que enfrentemos mais de dez mil selvagens. Isto é loucura.
- O Rei tem suas tropas concentradas no sul, numa outra frente de batalha. - gritou Patton - Se Nordwil cair, toda Swannpala cairá. Se não honra teu Rei, honre aqueles que lutaram e morreram na Grande Guerra das Raças, para que tu pudesses ter tuas terras.
- E quem és tu, língua afiada, que fala quando deves se calar? Vejo em teu peito a cabeça do lobo de Locksun. No entanto, fala como se fosse o próprio Rei.
Patton olhou para Byron e este esboçou dar uma resposta, mas percebeu que, de repente as atenções se voltaram para a estrada atrás deles. Então a pequena comitiva se virou para trás e viu que um cavaleiro vinha na direção da cidade.
O Cavaleiro montava um belo corcel branco e trazia, ao seu lado, um outro cavalo selado. Este era majestoso e negro. O guerreiro vinha imponente e usava uma armadura escura, feita de metal. Em seu peito estava estampado o Dragonete Alado, símbolo do Reino de Dracon. Sua pele era morena e nenhum fio de cabelo crescia em sua cabeça.
Ruprest forçou a vista, reconheceu o forasteiro e sorriu. Era Ázaro, o Barba Bifurcada, um dos dez Draconianos. Em suas mãos estava uma espada embainhada. Ele se intrometeu na discussão.
- Pois ele é Patton, Filho de Raikar, o primeiro entre os Draconianos. - gritou ele em uma voz forte e altiva.
Patton analisou o cavaleiro e reconheceu-o também. Lembrou-se dos anos de sua infância em que recebera daquele homem, instrução militar. A barba continuava igual. Negra e bifurcada. Na testa, uma imensa cicatriz, ganha numa das incontáveis batalhas em que lutou ao lado de Raikar.
- E mesmo que tu vivas a tua vida dez vezes, tu não terás uma fração da nobreza deste rapaz. - continuou Ázaro.
- Vens com o emblema de Dracon e falas dos draconianos. Mas provas o que diz? E eu lhe respondo: Não! Queres que eu envie minhas tropas para uma batalha perdida. Ainda nas mãos de um garoto que me dizes, é filho de Raikar.
- Dobre a tua língua, gordo insolente. Torno a dizer que, esse é Patton, filho de Raikar. Preste tuas homenagens a ele, pois ele está acima de teus títulos.
- Palavras fáceis de serem ditas, mas ainda assim, difíceis de serem provadas. Agora vens me insultando e me ordenando que preste homenagens a um garoto. Saiba cavaleiro, que estás no Ducado de Ka e aqui mando eu. Exceto pelo rei, ninguém mais tem poderes sobre estas terras.
- Se não acreditas em minhas palavras, duque… - gritou mais uma vez Ázaro - Preste então tuas homenagens à Lâmina de Askai, a herança do Primeiro Draconiano.
E então, o cavaleiro de Dracon desembainhou a espada que trazia em sua mão esquerda. E ela emitiu um brilho azul, tão intenso que os soldados de Ka e a pequena comitiva tiveram que proteger seus olhos com as mãos.
O duque de Ka ficou estarrecido e muito abalado. Aquela era realmente a Lâmina de Askai e seus soldados olhavam para ela com admiração. Ázaro a guardou na bainha novamente e se aproximou da comitiva. Ruprest tinha um sorriso no rosto que há muito não se via. Era amigo do cavaleiro de longa data e esperava por este dia ansioso.
Os dois se cumprimentaram a moda draconiana, segurando o antebraço um o do outro. Teriam dado um abraço se estivessem desmontados, mas Ázaro deu com os calcanhares na barriga do seu corcel e chegou perto de Patton. Estendendo o braço, lhe entregou a arma mais celebrada de toda Enthär: a Lâmina de Askai. Uma espada forjada em conjunto por anões e elfos nas forjas de Kon Bar O e encantada por pelo menos quatro dos druidas das florestas.
- Guardei essa lâmina por vinte e dois invernos. Agora ela retorna para o seu verdadeiro dono, o herdeiro de Raikar. Ao seu portador está destinado unir as raças de Enthär na última batalha.
Patton recebeu a espada e cumprimentou Ázaro à moda draconiana:
- Bom revê-lo, Barba Bifurcada. Parece que os anos foram mais bondosos contigo do que com o velho Ruprest.
- E este é Tawan, o corcel que lhe servirá até que a guerra acabe. Ele é da linhagem de Kaimanaw, que serviu seu pai até seus últimos dias. Não encontrará um cavalo tão veloz e tão forte como este, mesmo que vague por todo o continente.
Os guardas de Ka estavam indecisos com o fato ocorrido. Estava claro que o que fora dito ali não era nenhuma mentira. Aquela era a Lâmina de Askai e aquele era Patton, filho de Raikar. Mas o soberano daquelas terras voltou a falar e foi taxativo:
- O que tinha a dizer, já foi dito. Agora vão embora e, se tiverem juízo, voltem para seus lares e protejam suas famílias do alto dos muros de Locksun.
- Se estas são suas últimas palavras, nós iremos para os Campos de Celemar, honrar nossos postos e nossas famílias. - disse Patton, dando meia volta e puxando Tawan pelos arreios.
A pequena comitiva foi embora sem, no entanto, conseguir êxito em sua missão diplomática. Ainda assim, os corações daqueles guerreiros estavam mais leves com a surpresa proporcionada pela chegada de Ázaro.
- Viestes sozinho, meu amigo? - perguntou Ruprest ao forasteiro.
- Não, ruivo. Vim às pressas, mas vim com vinte cavaleiros de Dracon. Não é muito como reforço, mas estão dispostos a seguir Patton até as fronteiras dos infernos. Eles nos esperam no acampamento. Fomos recebidos pelo comandante Janô. Ele me informou das últimas notícias e da missão que vocês haviam tomado para si.
- Receio que nossa desvantagem numérica seja demasiada para uma vitória em Celemar. Eu contava com este reforço para podermos pelo menos traçar uma estratégia. - disse Patton.
- Sim, você tem razão, Patton. Agora só nos resta esperar pelas tropas de Nordwil e lutar até a morte contra o invasor. - concordou Ázaro.
A comitiva galopou mais uma vez pelo descampado e chegou ao acampamento no obelisco antes do entardecer. Janô recebeu as notícias com pesar e as tropas já comentavam em vozes sussurrantes sobre a traição do Lorde de Ka.
Já com a chegada do crepúsculo vespertino, os soldados descansavam para seguir viagem no início do outro dia. Os soldados conversavam e Patton havia liberado as fogueiras e o rum. O clima era melancólico, mas um barulho intenso tornou a atmosfera tensa. Faldan e Ehrin chegaram a galope. Estavam patrulhando os arredores e vinham com notícias.
- Patton! - gritou o elfo - Cavaleiros vindos de Ka estão se aproximando. Com certeza são mais de mil homens, mas não sei se vêm em paz ou não.
Patton se armou e correu para fora do acampamento segurando uma tocha. Ehrin foi ao seu lado com a espada desembainhada. O som dos cascos golpeando o solo ficava cada vez mais alto. Faldan foi avisar a Ruprest e ao duque, que junto com Janô e Ázaro, foram ao encontro de Patton.
- O que querem esses traidores? Será que além de se negarem a lutar pelo rei, agora passam para o lado do inimigo? Se for isso, terão o devido castigo. - refletiu o duque.
Ao longe já se via uma fileira incandescente percorrendo os campos. Eram milhares e vinham, um a um, carregando tochas. Pareciam uma serpente de fogo rastejando na noite. Uma salamandra pronta para o bote fatal. Mas ao chegar, a tropa parou e seu capitão falou em alto e bom som:
- Cavalaria de Ka se apresentando às tropas de Locksun e prestando homenagens a Patton, filho de Raikar. - o homem fez uma reverência e continuou a falar - Estamos em mil e duzentos homens montados, senhor.
- Então o Lorde Golthar resolveu não entrar para a história como um traidor e enviou-os para a guerra. - deduziu Byron.
- Sinto que esta não seja a verdade, meu senhor. Somos rebeldes leais ao rei Endor e à espada de Askai. Lorde Golthar foi rendido e está sobre a custódia do exército de Ka. Nem todos puderam vir, pois alguns guardam a cidade dos soldados leais ao duque, que poderiam retomar o poder e soltar o Lorde. Espero que o rei entenda nossas atitudes contra um de seus nobres. A rebelião foi a única forma de não deixarmos nossos irmãos sozinhos no campo de batalha.
- O rei é justo e saberá recompensá-los. É triste saber que um nobre foi deposto por sua guarda, mas neste caso, foi a ação mais sensata. Eu mesmo recomendarei honras a vocês. - continuou o duque.
Patton sorriu e mandou que os soldados descansassem no acampamento. Depois pediu ao duque para que reunisse os comandantes em uma tenda para traçarem o estratagema da batalha.
Minutos depois, todos os comandantes estavam reunidos. Faldan foi chamado para comandar os arqueiros e segundo os planos de Patton, eles seriam parte primordial da batalha. Ruprest e Ázaro também estavam lá, pois a experiência deles seria fundamental.
Muito foi discutido, principalmente sobre o inimigo. Suas estratégias, movimentações e potência. Os soldados de Locksun e Ka eram extremamente disciplinados e muito bem treinados, diferente do exército inimigo, que apesar de estar bem organizado, era composto basicamente por selvagens.
Depois de muita discussão, Patton começou a explanar sua estratégia:
- Temos uma poderosa cavalaria e se a enviarmos na vanguarda, eles provavelmente irão usar seus arqueiros contra ela. Mas se eles não detectarem nossa cavalaria no campo de batalha, pensarão que só enviamos a infantaria.
- Sim, e qual a vantagem disso? Eles enviariam a cavalaria yusher sobre nós e não teríamos chance alguma. - disse Janô.
- Espere. Pense como o inimigo. O que farias se enfrentasse um exército desguarnecido de cavalaria? Quem enviarias na vanguarda, comandante?
- Como te disse, Patton. Mandaria minha cavalaria e passaria por cima deles. Seria uma batalha rápida e com o mínimo de perdas. Nenhuma parede de escudos conseguiria agüentar o choque de milhares de yushers à cavalo. O máximo que faríamos, seria tentar acertá-los com nossos arcos, o que não seria suficiente para detê-los.
- Então, sabes que os yushers são excelentes cavaleiros e exímios arqueiros, mas não usam armaduras. Contra a infantaria, certamente atacariam com suas espadas do oeste e com seus machados, ficando vulneráveis aos nossos arcos longos. Desde o momento em que atingirem nossa área de alcance, seriam possíveis dois disparos. Pelo menos trezentos e cinqüenta ou até quatrocentos cavaleiros tombariam.
- Mesmo assim, Patton. Eles têm cerca de três mil cavaleiros. Os outros dois mil e quinhentos ou mais cavalgariam sobre nossa infantaria. Seria um massacre. - comentou o duque.
- Mas logo após o segundo disparo dos arqueiros, nossa cavalaria partiria em bloqueio ao inimigo. - afirmou Patton.
- Nossos cavalos são velozes, mas nenhum cavalo de Enthär conseguiria chegar de um esconderijo até o fronte antes que o inimigo destrua nossas fileiras. - observou o nobre - E lembre-se que estamos num campo aberto. Não temos florestas para nos esconder. - completou.
- Por isso, a cavalaria estará ali, logo atrás dos arqueiros. - disse Patton.
- O que? E tu achas que o inimigo não vai nos enxergar? Usará de feitiçaria, Patton? - questionou Ázaro, intrigado com o plano do rapaz.
- Não, Barba Bifurcada. Cavaremos um fosso. Não muito íngreme, mas fundo o bastante para esconder nossos cavalos e não sermos detectados. Com um punhado de soldados postados a nossa frente, o inimigo não irá nos enxergar.
- Cavar? Como tatus? - perguntou Ruprest.
- Como tatus. - respondeu Patton, sorrindo.
- Pode dar certo. - afirmou o ruivo, olhando para Ázaro.
- Como tatus - repetiu.
- Vai dar certo. - completou o rapaz - Isto é, se Faldan disser que é possível derrubar quatrocentos cavaleiros num espaço de um quarto de ceres.
- Se os arqueiros fossem de minha terra, eu diria que derrubaríamos novecentos. Mas eu garanto quatrocentos e cinqüenta cavaleiros tombados.
- E se no final não conseguirmos, deixaremos que invadam Nordwil e botamos fogo na cidade. Ofereceremos a alma de todos aos deuses e será a maior fogueira de orks de todos os tempos. - sugeriu o velho caçador-de-bruxas.
Uns olharam para os outros com um ar de desconfiança e fizeram um breve silêncio. Finalmente o duque de Locksun se pronunciou:
- Mas o inimigo pode nos ver cavando o fosso e nossa estratégia vai por água abaixo. É certo que eles têm espiões nos observando.
- Por isso partiremos esta noite. Faldan nos guiará na escuridão. Teremos um dia e uma noite para realizar nosso plano. Destacaremos duas unidades para patrulharem a área. A não ser por alguns pequenos bosques, o terreno é descampado. Um espião inimigo será facilmente detectado.
- Então que os deuses nos ajudem nessa maluquice e que nossos inimigos fechem os olhos para o nosso ardil. - disse Ázaro.
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Fan Art
Postado por admin em November 3rd, 2008 na categoria: UncategorizedComente agora! »
Atendendo a pedidos, quem quiser enviar desenhos de personagens do livro, mande para theblacktrunk@hotmail.com que eu posto como Fan Art. Mas tem que estar bem feito!!!
Abraços,
Fernando Russell
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Tempos de Guerra
Postado por admin em October 31st, 2008 na categoria: Uncategorized6 Comentários »
1. Galera, obrigado pelas correções e pelos toques. Dani, vou reler para ver qual foi o furo no lance das armas mágicas. Valeu.
2. Atendendo a pedidos, estou postando 2 capítulos juntos. Tanto o PDF desse capítulo, quanto do de baixo têm um arquivo com os dois capítulos.
3. A ilustração da Rainha dos Unicórnios está meia boca, mas foi o que deu para fazer. Tem um cara querendo fazer as ilustrações, mas não consegui me contactar a ele. Qualquer coisa, deixe comentário aqui!
4. Já arrumei o link do PDF do capítulo 7 - A Floresta dos Unicórnios.
Abraços e divirtam-se!
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ra cedo quando Patton acordou, com batidas na porta de seu aposento. Ele esfregou os olhos, levantou-se da cama e andou em direção à porta. Novamente bateram. O rapaz se apressou, puxou a tranca, abriu a porta e deparou-se com Ernandor.
- Patton, você precisa partir logo. A Rainha Dourada afirma ter tido um mau presságio. Sonhou com a águia negra do ocidente usurpando os reinos pacíficos de Enthär. E disse que sua presença à frente do exército de Locksun é primordial para o desfecho desta batalha.
- Vou acordar Ruprest e partiremos o mais rápido possível - respondeu o aventureiro.
- A Rainha os espera na sala do trono. Acordarei os outros.
Ernandor partiu e Patton fechou a porta. Ele olhou para o corpo obeso do amigo que dormia profundamente. Pensou em como seria difícil acordá-lo, mas para sua surpresa, de repente o ruivo se levantou em um só movimento. Parecia ter sido picado por uma cobra ou algo do tipo.
- Temos que partir! Exclamou o caçador-de-bruxas, ainda com os olhos fechados, mas já de pé.
- Que bicho te mordeu, meu amigo? - inquiriu Patton, com um largo sorriso nos lábios.
- Tive uma visão. Precisamos partir antes que seja tarde. Sua presença é necessária no fronte de batalha, rapaz - respondeu o velho.
Patton ficou boquiaberto com as palavras do amigo. Pensou em dizer algo, mas preferiu calar-se e se vestir. Ruprest se trocou rapidamente e em alguns momentos, os dois já estavam nos corredores de Palari Kadun, rumo à sala do trono, escoltados por Fabrion.
- Estais preparado para uma nova batalha, velho? Perguntou Patton, franzindo a testa.
- Na verdade, nunca se está preparado para a guerra, mas, como dizem os anões de Driev: Não espere por nada, esteja preparado para tudo. Existem homens talhados para a guerra, como foi seu pai e como é você. Mas cada batalha é diferente de todas as outras que já foram travadas antes. Teu pai sempre me perguntava antes das batalhas se eu estava com medo. Eu sempre menti. Dizia que não, mas ele sempre respondia sorrindo: “Se tu não estás, então eu estou por nós dois.”
Os dois chegaram ao portal que dava acesso à sala do trono. Dois elfos guardavam a passagem com lanças, mas ao notarem a presença de Patton e Ruprest, abriram prontamente o portal.
Na sala do trono estavam Varlens, Ehrin e Faldan ao lado direito da Rainha Dourada. Do outro lado, Ernandor e Pandel - todos com uma expressão preocupada. Ruprest e Patton seguiram até perto da rainha e fizeram uma reverência em sinal de respeito.
- Você precisa partir, Patton. A situação se agrava e é preciso costurar uma aliança entre os Lordes de Nordwil. Todos são muito individualistas e prepotentes. Eles precisam de um líder que os una no campo de batalha.
- Mas este é o papel do Rei, majestade. Ele deve liderar os Lordes de Nordwil numa guerra contra o ocidente.
- O Rei está fraco e seu filho, numa missão em Dracon. Além do que, seria impossível mover as tropas do sul para um confronto direto com o inimigo no norte. As fronteiras do oeste ficariam desprotegidas e Nordwil poderia cair em um só golpe. Não há tempo a perder.
- Está certo, partiremos assim que me despedir de Alya. Creio que Varlens também quer se despedir de Thala.
- Não - disse o bárbaro olhando para baixo. - Eu fiz um juramento para Stool. Disse que cuidaria de Thala e Rina com a minha vida. Meu compromisso não é com o povo do sul, meu dever é para com o meu grande amigo que não está mais entre nós - continuou ele, olhando fixamente para Patton.
- Se tu pensas assim, não irei te recriminar. Não concordo, mas entendo tua posição. Embora eu pense que tu poderia ser mais útil no fronte e que Thala e Rina estarão a salvo aqui em Palari Kadun, não vou pedir-te que nos acompanhe.
O bárbaro baixou mais uma vez a cabeça como se estivesse envergonhado, mas manteve sua decisão. Faldan olhou para Patton e sorriu com um ar de cumplicidade. Parecia ansioso para falar algo.
- Entre os demais, alguém irá conosco para a guerra? Perguntou Patton.
- Enfim a ação. Pode contar com o meu arco e a minha coragem - respondeu rapidamente o elfo.
Patton deu um sorriso e viu a felicidade do elfo ao saber que iriam para uma batalha. O rapaz notou que o entusiasmo do elfo se devia ao fato de que os inimigos eram orks e o povo do oeste, inimigos seculares do povo de Kendal.
Ehrin estava acanhado e não se pronunciou de pronto. - E você, garoto? Quer se juntar a nós? - perguntou Ruprest, num tom calmo.
- Se o senhor me deixar ir, estarei às ordens para qualquer missão. Fico feliz que tenham me chamado.
- Pois então iremos o mais rápido possível - tornou Ruprest.
Nesse momento, Aleyan e Serger entravam pelo portal, escoltando Rina, Thala e Alya, que trazia a tristeza em seu rosto. A menina havia recebido a notícia de que Patton iria partir e temia pela vida do rapaz. Ela abraçou Patton, mas não disse nem uma palavra. Então Patton a beijou com uma ternura que ele mesmo desconhecia.
- Não te preocupes, Alya. Eu disse que te protegeria e farei isto.
Todos olhavam comovidos para o casal, mas Faldan fez com que, por alguns instantes, as atenções se voltassem para ele. O elfo tirou o falcão de madeira de sua sacola e ofereceu-o à Rainha. Thalien esticou o braço para frente e para espanto de todos, o pássaro mais uma vez ganhou vida e bateu suas asas, alçando vôo até os braços da Senhora dos Unicórnios.
- Aceite este presente, minha Senhora. Eu creio que ele será um excelente guardião para seus unicórnios.
- E será, Faldan - disse ela com sua voz doce. O Falcão já mostrou seu valor. Ou o valor estaria no coração daquele que o possuía?- continuou ela, sorrindo.
Os aventureiros se despediram dos que ficavam e agradeceram a generosidade da Rainha e a hospitalidade recebida naquele lugar.
- Vão e lutem com seus corações. Certamente essa não será a última das batalhas em Enthär, mas seu resultado será o ponto decisivo para o destino das raças que agora habitam este mundo. Por enquanto, os elfos dourados permanecerão ocultos, mas estarão prontos para quando a grande hora chegar. Que os deuses os abençoem.
Patton, Ruprest, Ehrin e Faldan foram conduzidos por Fabrion e Pandel para a saída de Palari Kadun, onde quatro unicórnios e quatro cavalos estavam prontos para levá-los de volta a Locksun.
- Vão e galopem na velocidade dos ventos. Os unicórnios os levarão até saírem de Auhin Daeur e enquanto estiverem com eles, os cavalos não se cansarão. Os unicórnios devem ficar ocultos. Mas até a estalagem de Paira, eles não correm perigo.
Os aventureiros seguiram viagem durante todo o dia e a noite caía rapidamente na floresta. Os unicórnios corriam pelas trilhas da mata, mais rápido do que qualquer garanhão de Swannpala. A força de suas patas só podia ser comparada com a dos cavalos que serviam os Cavaleiros de Dracon.
Quando a noite chegou de fato, apenas Faldan conseguia enxergar o caminho. Sua herança élfica o permitia ver tão bem de noite quanto de dia, e ele logo tomou a dianteira do grupo.
Os unicórnios também pareciam enxergar em meio ao breu, mas Ruprest, notando que em alguns trechos os galhos das árvores passavam muito perto de sua cabeleira ruiva, pediu para que a viagem fosse interrompida por alguns momentos, para que ele pudesse acender uma tocha.
Com a lanterna acesa, o caminho ficou bem mais visível. O grupo seguiu rumo ao sul durante toda noite, parando eventualmente para trocar a tocha. O galope dos unicórnios era macio e não cansava os aventureiros. Tampouco, ficavam cansados os cavalos que os acompanhavam. Um encanto, emanado pelas criaturas da floresta, os faziam galopar sem que a fadiga os alcançasse.
Quando finalmente o primeiro raio de sol brilhou por entre as árvores, a floresta dos unicórnios havia chegado ao fim. A velocidade das montarias era tão grande que com um dia de viagem os aventureiros já estavam próximos à estalagem de Paira. Faldan desceu de sua montaria e pediu para que os outros também o fizessem.
Todos desmontaram dos unicórnios e os liberaram para que voltassem para dentro da floresta. Depois, montaram nos cavalos, que apesar de terem cavalgado a noite inteira, estavam prontos para mais um dia inteiro de galope.
Os quatro passaram pela “Árvore de Hogan”, estalagem de Paira, mas não pararam. Seguiram rápidos, como fora pedido, e antes das oito horas da manhã avistavam os majestosos muros de Locksun. Uma forte guarda cercava a cidade, mas ao notarem a presença de Patton, os soldados abriram caminho para que a comitiva passasse.
Patton seguiu direto para a sala de guerra, onde o duque esperava aflito.
- Patton!!! Ainda bem que chegaste. Como está a Duquesa? Lavia está bem?- perguntou ele.
- Se essa é tua preocupação, anime-se. Lady Lavia está em segurança. Como disse Ernandor, nem em Dracon ela estaria tão protegida. Apesar de que, se Ruprest estiver certo, Dracon logo será um lugar perigoso.
- O que soube no norte, que meus mensageiros ainda não me informaram? , questionou o nobre.
Patton baixou os olhos e não disse mais nenhuma palavra. Depois fitou o duque e perguntou sobre a movimentação das tropas.
- O Rei Endor recebeu nosso Falcão Mensageiro. Ele nos enviou uma resposta e as notícias não são nada esperançosas. O Rei diz que suas tropas estão seguindo para o sul do Vaërn, onde um exército do oeste marcha rapidamente. As tropas de Nordwil irão se juntar com os pelotões de Salty. O exército inimigo devastou Wallyng, em Kalpang e deverá cruzar o Rio Keld nos próximos dias. Ele conta com a nossa resistência ao sul do Rio Mayda, nos descampados centrais. Diz também que já enviou um pequeno contingente para nos fortalecer e que mandou falcões para Ka e para Dracon, onde seu filho, Enlor, está em missão diplomática.
- Como a Senhora Thalien nos advertiu. Espero que o Rei nos mande pelo menos um milheiro de cavaleiros, e que eles cheguem logo - disse Patton.
Os olhos de Ruprest perderam o brilho e seu rosto se abateu. Pela primeira vez, desde o dia em que encontraram os orks, ao norte do Vaërn, o velho caçador-de-bruxas expôs abertamente seus pensamentos.
- Se eles invadiram Walling, ao sul e marcharam rumo ao Keld, certamente querem neutralizar Nordwil. Mas minha experiência diz que o objetivo do inimigo é Dracon. O símbolo do oeste mudou e, agora, a águia negra tem duas cabeças. Mas o mal que controla este exército é o mesmo que o controlava anos atrás.
- Mas o inimigo foi destruído na Grande Guerra das Raças. O leste triunfou sobre as raças cruéis do oeste - disse o duque.
Ruprest levantou-se e estava transtornado. Bateu com o punho cerrado sobre a mesa de reuniões e fitou o nobre com um olhar furioso.
- Debelado - gritou ele, com uma voz firme. Mas não destruído. Muitos orks foram mortos e os sobreviventes banidos. Nenhuma das criaturas malignas do ocidente foi poupada do grande expurgo. Mas Lorde Gwilber, o campeão do oeste, não padeceu. Seus joelhos não se curvaram nem perante Raikar, o Primeiro Cavaleiro.
Quando o nome de Raikar foi citado por Ruprest, os olhos de Patton brilharam e ele quis falar. Mas Ruprest o impediu, pois era um erudito dos assuntos da Guerra, e ainda tinha muito o que expor.
- Mesmo com seus exércitos vencidos, Lorde Gwilber permaneceu de pé e com sua lâmina negra. Feriu mortalmente dezenas de bons guerreiros. Na verdade, o maldito só partiu para as terras ocidentais, quando foi confrontado pelos Draconianos, todos os dez.
- Ainda assim, no caminho onde passou, espalhou o caos e a destruição. E dizem: “onde seu corcel negro pisou, nem a grama voltou a crescer”.
- Mas os povos do leste cantam sua vitória em canções históricas. Homens, elfos e anões. Todos bravateiam a destruição do mal vindo do oeste - comentou Andrew.
- Muitos bravateiam vitórias, mas não os anões de Driev, que sempre sugeriram uma incursão às terras do oeste. Isto é, antes da traição dos elfos. Mas trata-se de uma outra história.
- O que mais me aterroriza é saber que Gwilber é apenas um comandante. O verdadeiro senhor do oeste nunca se revelou. Seus planos foram frustrados uma vez, mas depois disso ele ainda triunfou, tramando a morte de Raikar, através de seu assassino yusher, Suba Kane.
- Então é Gwilber quem comanda este exército invasor?- questionou Byron.
- Não. Em Phalanx vimos o comandante das tropas e ele não era o Lâmina Negra. Era imponente e dominava muito bem a massa de selvagens, mas não era grande como Gwilber.
- Outra pergunta me perturba a mente. Se o destino é Dracon, porque não atravessaram a floresta dos lobos, partindo direto para o sul de Silvarion e atravessando o canal de Solor? - indagou novamente o nobre.
- Os anões, meu caro. Sempre vigilantes e atentos às mudanças do mundo - falou o ruivo com um sorriso orgulhoso - Driev, o reino dos anões, tem uma aliança com o senhor daquelas terras. Eles mantêm vigilância constante naquela floresta. Por sua vez, os lobos cinzentos servem aos anões como leais montarias. Ali, meu senhor, nem mesmo o próprio Gwilber, no comando de dez mil orks, ousaria passar. Do contrário sofreria a pior e mais dolorosa de suas derrotas.
Ruprest respirou fundo e sentou-se novamente à mesa. Olhou para Patton com um ar aprobativo. Patton retomou a palavra:
- De quantos soldados dispomos neste momento?
O Lorde olhou para o conselheiro Andrew e este se aproximou de Patton.
- Se deixar-mos cinco centenas de soldados na cidade, para protegê-la, teremos quinhentos cavaleiros, que já estão às margens do Mayda esperando suas ordens, mais mil e quinhentos soldados de infantaria e trezentos arqueiros, que nesse momento estão marchando para se encontrarem com os cavaleiros. Devem chegar dentro de mais um dia.
- E a Guarda Pretora? Para onde foram mandados? Perguntou Ruprest.
- A Guarda permanece na cidade para manter a ordem - disse Andrew.
- Então, além de seus deveres para com a ordem do ducado, eles protegerão a cidade em um possível cerco. As cinco centenas de homens que foram deixados aqui para a defesa irão para o Mayda, montados nos cavalos da guarda. Assim chegarão o quanto antes ao encontro dos cavaleiros.
Locksun fez que sim com a cabeça e Andrew partiu para cumprir as ordens. O clima estava tenso na cidade e o duque tinha um olhar melancólico. Ele havia deixado de lado seu casamento para se dedicar aos assuntos do reino. Mas agora, mesmo com tanto afinco, ele via que seu esforço tinha sido em vão. Sentia-se culpado por ter sido pego desprevenido e por ter que recorrer ao jovem Patton para organizar as defesas de Swannpala.
- Patton, apesar de nossas diferenças, eu confio na tua competência. Portanto, tu serás reincorporado ao exército de Locksun como Senhor da Guerra. Vamos esperar que as tropas se agrupem no pátio e passaremos em revista às tropas.
Patton, Ruprest e Lorde Locksun saíram da sala da reunião. Locksun pediu para que Patton ficasse a vontade para circular pelos corredores do palácio e disse que iria descansar por alguns minutos.
O Lorde partiu e os dois companheiros foram ao encontro de Faldan e Ehrin, que esperavam ansiosos para saberem das novidades.
Os quatro foram mais uma vez para armoaria e se prepararam para a batalha. Faldan trocou o arco que usava. Desta vez, ele pegara um arco longo, quase do seu tamanho, mas não abandonou sua aljava com flechas rúnicas. Prendeu seu cabelo como um rabo de cavalo e colocou um elmo mais para que este lhe tapasse as orelhas do que por segurança. Apesar de saber dos riscos da guerra, o meio-elfo novamente não pegou armadura alguma.
Ruprest trocou o gibão de couro que vestia por uma malha de anéis e uma couraça de metal, um conjunto de armaduras mais apropriado para a batalha. Prendeu as madeixas ruivas, como Faldan e colocou um bacinete prateado na cabeça.
Patton se preocupou primeiro em armar Ehrin. O rapaz tinha ainda pouco conhecimento em batalhas e o amigo mandou-o vestir apenas uma cota de anéis, sem a couraça, pois ele ainda tinha o físico delgado e tal armadura iria prejudicá-lo em sua movimentação em campo. Patton testou algumas espadas, para ver qual delas estava mais balanceada e depois de algumas tentativas escolheu uma de lâmina escura com o cabo trabalhado em madeira. Ehrin pegou um escudo pentagonal e olhou para Patton buscando aprovação.
- Estás preparado para uma batalha - disse o Senhor da Guerra, com um largo sorriso. Agora vamos ver como se porta na hora do choque com o inimigo.
O rapaz agradeceu ao amigo e observou seus passos. Patton não trocou suas arma, nem sua armadura. Continuava vestindo a lóriga prateada, mas deu alguns passos até chegar a um armário. Abrindo as portas do armário, o aventureiro retirou um uniforme negro que tinha, no peito, um brasão de uma cabeça de lobo. Aquele era o brasão da cidade e o uniforme era o do Senhor da Guerra do Ducado de Locksun. Patton o vestiu e todos perceberam que sua postura mudara. Imponente dentro do uniforme, ele parecia muito mais um nobre do que o próprio duque. Ruprest lembrou-se de seu amigo Raikar. Pensou nos dias de glória dos cavaleiros de Dracon e nos anos de guerra em que passou ao lado do Primeiro Cavaleiro.
Armados e paramentados, os quatro seguiram para o pátio, onde cinco pelotões, de uma centena de homens cada, se concentravam. Ruprest, Faldan e Ehrin ganharam uniformes do exército. Os uniformes tinham o brasão do lobo, mas não eram inteiramente negros, como o de Patton. Tinham uma larga listra amarela no meio do peito.
Quando Patton passou pelas tropas, os ânimos dos soldados pareciam se elevar. Quase todos ali o conheciam e muitos o admiravam. Ao chegar ao fim das fileiras, Patton se apresentou aos capitães e se posicionou para esperar o Duque.
Ruprest ficou ao seu lado, mas Ehrin e Faldan se postaram em meio às fileiras. O sol estava forte, apesar do vento frio que fazia tremular as flâmulas amarelo e negras que exibiam a marca do lobo.
Alguns minutos depois do Senhor da Guerra chegar, foi ouvido um grande clangor que ecoou por toda a cidade. Eram as cornetas dos arautos que anunciavam a chegada do Lorde Byron, Duque de Locksun.
O nobre fez o mesmo percurso que Patton fizera minutos antes. Porém, enquanto Byron passava, rufos de tambores se repetiam atrás dele. Ele vinha com seus dois conselheiros, Rolin e Andrew de um lado, e seu Comandante de Campo, Janô, do outro.
Patton viu Janô ao longe e se sentiu mais confiante, pois conhecia a habilidade daquele guerreiro na arte da batalha. O comandante também não tinha mais que trinta invernos, mas era experiente e sabia dominar as massas.
- Prontos para partir, Patton? Argüiu o duque.
- O quanto antes, meu Senhor. A espera neste sol quente só irá deixar os soldados mais angustiados e apreensivos.
- Bem recomendado, jovem Patton. É bom saber que retornas à cidade em tempos tão difíceis - disse Janô.
O Lorde deixou Andrew como administrador do ducado e os soldados montaram nos cavalos da guarda pretora para partirem. Eram cavalos do norte, montanheses do tipo Nordskog, conhecidos por sua pelagem abundante e comparados em força com os grandes cavalos de guerra Suhrd, criados em Dracon para servir os cavaleiros.
Partiram em fileiras, dois a dois. Na frente iam dois pares de cavaleiros, seguidos do Duque e Janô. Logo atrás, vinham Patton e Ruprest. Faldan e Ehrin seguiam juntos na terceira companhia, liderada por Yurgin, um capitão esguio vindo de Phalanx que se estabelecera na cidade há anos e custava a acreditar na tomada de sua cidade natal.
O exército alternava o galope e o trote pelas estradas do ducado. O Rio Mayda era extenso, mas eles planejavam atravessá-lo perto de Ka, onde deveriam somar forças com as tropas daquele ducado.
Quando a noite chegou, o Duque ordenou que fosse montado acampamento e que fossem servidas comida e bebida aos soldados. Pão, frutas e cerveja foram distribuídos entre os guerreiros, com a recomendação severa de que não deveria haver desperdícios.
Faldan recebeu sua ração com um largo sorriso. Como era de costume, estava faminto. - Se não quiseres as frutas, amigo Ehrin, pode dá-las a mim. Comerei de bom grado, para não haver desperdícios - disse o elfo, fazendo Ehrin dar uma risada. O rapaz deu um pedaço de seu pão ao amigo e disse: Tome, tu és maior. Precisa se alimentar mais.
Patton e Ruprest comeram e se juntaram ao duque e seus capitães na tenda onde seria a reunião. Um dos capitães pediu autorização ao Senhor da Guerra de Locksun para que fossem acesas fogueiras e ele rispidamente negou-a.
- Nenhuma fogueira deverá ser acesa até que encontremos as tropas de Ka. O inimigo já tem vantagens suficientes. Não precisam saber de nossa localização.
O duque então iniciou a reunião dando as notícias que haviam chegado de seus batedores. Ele cerrou as sobrancelhas e começou a falar:
- Dois de meus batedores chegaram do oeste e trazem informações vitais. O primeiro vem do foz da ponte de Walky. Diz ele que o exército inimigo ainda não atravessou o Mayda. A cavalaria e os arqueiros já estão ao sul, mas a infantaria se demora em atravessar as máquinas de guerra e os mantimentos. Construíram uma ponte mais larga com as árvores altas de Linfor, mas são muitas carroças de comida e bebida e as torres para o cerco são imensas.
- Está correto - perguntou o nobre, olhando para um dos batedores.
- Sim, senhor. E receio que superem nosso número atual de quatro para um. A maioria e de orks e pequenos homens do oeste, porém entre os da infantaria estão gigantes trogloditas da raça feroz dos Duhr Kazur, a qual eu só conhecia por histórias de meu pai, que lutou na Grande Guerra das Raças.
- Tens certeza disto, soldado - argüiu Ruprest assustado. - Tens certeza de que são gigantes e não os grandes homens do norte?
- Senhor, certeza absoluta, eu tenho de que não são homens do Norte, pois estes chegam ao máximo de um curvo e meio de altura. Os gigantes de que falo têm facilmente dois curvos de altura. E parecem ainda mais altos, quando estão perto dos cruéis yushers do oeste.
- Se ele diz que são na proporção de quatro para um e nós temos quase três mil homens, isso quer dizer que são mais de doze milhares de soldados. - ponderou o nobre, já estarrecido e desesperançado.
- Isso sem contar com as máquinas de guerra. Eles devem ter catapultas poderosas e ainda contam com a força dos Duhr Kazur. - disse Janô, desanimado - Só um milagre poderia impedir o avanço inimigo.
- Um milagre, ou uma estratégia bem aplicada. - retrucou Patton - Lembrem-se que ainda vamos somar forças com as tropas de Ka, que devem estar concentradas com pelo menos dois mil homens. E virão ainda, de Nordwil, um contingente que não deverá ser menor do que mil homens. Mesmo assim, a desvantagem será de dois para um e muitos de nossos homens, apesar da disciplina, nunca entraram numa batalha. Serão massacrados pelos ferozes yushers.
O duque virou-se para um segundo batedor, que esperava para relatar o que vira na foz do Vaërn.
- Senhor, o que vi foi uma tropa de orks que estão patrulhando a floresta Linfor. Varrem cada pedaço da mata atrás de espiões ou refugiados escondidos. Acredito que não tenham me visto, mas me farejaram e sabem que alguém esteve os observando.
- Bem, essa é a nossa realidade. Precisamos de algo que alegre os ânimos dos soldados. Algo que os motive e faça-os lutar com uma vontade insuperável. - opinou Patton - Então, me parece que não há mais nada a se discutir por esta noite. Amanhã, antes de o sol raiar, o acampamento deverá ser levantado para seguirmos rumo ao Mayda. Se me permite senhor, indicarei um pelotão para tomar a vigilância durante a noite e me juntar aos meus amigos.
O duque deu permissão a Patton e este se retirou, sendo seguido por Ruprest. Os capitães saíram da tenda e carregavam em suas caras o semblante do desespero e da desesperança.
Os dois amigos seguiram por entre o acampamento até chegarem à tenda onde estavam Faldan e Ehrin. Patton chamou o capitão e lhe ordenou que destacasse dez de seus homens para montar guarda. Depois, sentou-se ao lado de Faldan e comeu um pedaço de pão.
- Dias cinzentos estão por vir, meu caro elfo. Descanse bem essa noite. Não sabemos quando iremos descansar de novo. - disse o aventureiro.
Os amigos conversaram por um tempo, mas logo adormeceram. Dormiram pouco, pois antes da quinta hora, Patton se levantou e ordenou que o arauto desse o toque da alvorada.







