A Batalha do Grande Fosso
Posted by admin on Novembro 11th, 2008 filed in Uncategorized
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m falcão mensageiro fora mandado naquela noite. Em suas asas, voava uma mensagem para as tropas de Nordwil: “A Batalha será daqui a dois dias, próximo ao lago Seiur. Contamos com sua força”.
Ázaro reuniu seus homens e os cavaleiros de Ka se uniram a ele. Logo o comandante Janô reunia todas as pás e picaretas que estavam no acampamento. O comandante permaneceu no local para comandar a infantaria na marcha do outro dia.
Não demorou muito para que os mais de dois mil cavaleiros partissem em meio ao breu, rumo ao local onde haviam decidido interceptar o inimigo.
Segundo as observações dos batedores, dias atrás, o inimigo marchava lentamente devido ao volume de soldados e a dificuldade em transportar as máquinas de guerra num terreno irregular. Mas, apesar disso, chegariam ao lago Seiur em dois dias, no máximo.
Faldan seguia na frente, guiando os cavaleiros. Nenhuma tocha foi acesa naquela noite e os cavalos se deslocavam acelerados. O ponto que seria palco da batalha ficava a cento e cinqüenta ceres do obelisco e se continuassem a cavalgar naquele ritmo, chegariam lá pouco depois do amanhecer.
Patton estava preocupado com a divisão das tropas. Seu plano era audacioso, porém arriscado. O aventureiro apostava que, mesmo se o inimigo notasse o deslocamento da cavalaria, não tentaria um ataque direto contra a infantaria, pois isso atrasaria seu destino, que era Nordwil.
Mas essa era apenas uma das preocupações do rapaz. E se a infantaria não chegasse a tempo? E se o falcão fosse interceptado pelo inimigo e as tropas de Nordwil nunca soubessem onde seria a batalha? E se a superioridade numérica fosse tão grande que mesmo com o ardil do fosso, a batalha fosse um massacre?
Muitas dúvidas pairavam pela mente de Patton. Ele tentava a todo o momento desviar sua atenção para coisas boas, como o doce sabor da boca de Alya. Afinal, não adiantava tanta preocupação durante a cavalgada. Teria ainda tempo o suficiente para reflexões quando chegasse.
Ruprest cavalgava ao lado de Ázaro e ambos permaneceram calados por muito tempo. No entanto, Ázaro se pronunciou:
- Lembra muito o pai. - sussurrou ele olhando para Patton - Cuidaste bem deste rapaz, meu velho. Ele cresceu forte e determinado. Será um líder, com toda certeza.
- Sim, mas me deu muito trabalho. - comentou Ruprest - Mulherengo, gozador e grande apreciador de cerveja. Quantas vezes bebeu tanto que mal conseguia se lembrar da noite anterior? E por várias vezes fora motivo de chacotas de pessoas sem metade de seu valor.
- E não era assim Raikar? Dado às farras e às mulheres. Mas quando foi preciso, mostrou sua responsabilidade. Assim Patton fará também.
Poucas vezes a caravana parou e a cada pausa, pouco tempo era perdido. O sol despontou ao leste e foi lentamente se erguendo. Os cavalos estavam cansados, mas não diminuíam a velocidade e no meio da manhã chegavam ao lago Seiur.
- Não há tempo para descansar, disse Patton. Não temos pás o suficiente para todos cavarem. Então, dividiremos os soldados em três grupos. Um grupo começará a escavar o fosso. Temos cerca de cem pás, cinqüenta picaretas e usaremos as alabardas e os machados também. Outro grupo irá cuidar dos cavalos e montar as tendas. O restante se organiza em unidades de seis homens e patrulha toda a área. Faldan cuidará da vigilância.
Os comandantes ouviram as ordens de Patton e as transmitiram para os soldados. Cerca de quinhentos homens começaram os trabalhos de escavação, a dois ceres do lago. Patton retirou sua armadura e se engajou no trabalho. Conforme as suas recomendações, o buraco teria dois curvos de profundidade por quatro de largura, para que a subida não fosse muito íngreme para os cavalos.
O trabalho era árduo e a cada uma hora os homens eram substituídos por aqueles que cuidavam dos cavalos. O dia se passou assim. A temperatura estava agradável, mas o sol queimava forte a pele branca dos homens de Locksun.
Patton cavava sem parar e lamentava que Janô não estivesse ali, pois este sim tinha habilidade neste tipo de trabalho.
No final da tarde, um cavaleiro enviado por Faldan veio trazer uma mensagem. Dizia ele que as tropas de Nordwil chegariam ao cair da noite. Patton esperou e tão logo o sol se pôs, as fileiras do Rei Endor chegavam às margens do lago.
Infelizmente, para Patton, eram soldados desmontados. Contavam em mil e trezentos homens, divididos em três pelotões. Os arqueiros formavam em duzentos, o que deixou Patton mais otimista. O segundo pelotão era o dos Falcões do Rei, uma tropa de elite da infantaria, munida de armas de haste e vestindo roupas negras e vermelhas. A última e mais numerosa das tropas era a da infantaria convencional, que marchava em cinco filas, sob o repique de tambores.
Quem estava no comando era Dars, um guerreiro experiente que havia lutado nos campos do sul na Guerra das Raças. Baixo, mas forte, tinha uma cabeça grande e pouco cabelo. O comandante olhou para o campo de atividades e disse:
- O rei Endor nos enviou. - disse ele ao chegar - Estamos prontos para nos engajar às tropas de Locksun.
O duque o recebeu e pediu para que ele entrasse numa das tendas armadas ali, para colocá-lo a par dos planos e da situação. Os soldados esperaram por seu comandante por alguns minutos e quando ele saiu, deu ordens para que todos descansassem por três horas e depois se revezassem nas escavações.
A noite já tinha chegado quando Patton foi procurar Ruprest. O velho conversava com o amigo Draconiano, quando o rapaz apareceu.
- Velhos amigos trazem velhas lembranças. - disse o rapaz - O que tanto falam dois guerreiros das épocas antigas?
- Somos das épocas antigas e, no entanto, vamos participar de mais uma batalha. Isso quer dizer, no mínimo, que somos sobreviventes. Mas na realidade, nós somos o terror dos campos do leste. - bradou Ázaro, arrancando uma gargalhada de Ruprest e Patton.
- Vocês são dois abutres que só fazem tagarelar. - respondeu Patton, atormentando-os.
Ruprest e Ázaro deram mais uma gargalhada e viram o rapaz dar as costas a eles e partir. Ruprest ficou observando Patton com orgulho e antes, que se afastasse demais, perguntou:
- Aonde vais, seu buzarate? Sente-se aqui e beba uma caneca de um bom rum, que este guerreiro trouxe do sul.
- Preciso tomar um ar e refletir. Em algumas horas estarei de volta. Não se preocupem. Sei me cuidar. E como não existe taberna alguma nas imediações, não corro o risco de me embriagar e me esquecer da batalha.
Patton seguiu andando pelo acampamento. Alguns homens ainda trabalhavam no fosso e ele estava quase completo. O rapaz se dirigiu para a área onde estava descansando Tawan, seu corcel.
O garanhão negro estava sem sela e repousava ao lado de outros cavalos de comandantes. Destacava-se de todos os outros pelo tamanho e pelo porte. Patton chegou perto dele e o observou. Depois, lhe fez um agrado na cabeça e disse:
- Amanhã será um grande dia, meu rapaz. Acho que estás mais preparado para isso do que eu. Mas talvez, nem eu, nem você saiamos vivos deste inferno.
O cavalo relinchou e bateu com a pata dianteira no solo. Patton fitou seus olhos, que pareciam querer dizer alguma coisa. O aventureiro então soltou a corda que o prendia e, mesmo sem sela, subiu em seu lombo. Golpeou suavemente o animal com seus calcanhares e partiram numa galopada desabalada, rumo ao sul.
Uma unidade de vigilância fez menção de parar o cavaleiro, mas hesitou ao reconhecer o Senhor da Guerra de Locksun.
Tawan galopava em um ritmo alucinado, como se fugisse de algum algoz. Seu pêlo escuro quase desaparecia na noite e seus cascos fortes e furiosos faziam o solo tremer.
Patton cavalgou no dorso do cavalo por mais de dez ceres. Em sua mente, sempre as mesmas dúvidas: estaria ele liderando milhares de homens direto para a morte? Quanto mais pensava, mais Tawan corria. Os dois cavalgaram ininterruptamente, até acharem uma dúzia de árvores que se agrupavam em meio ao descampado.
Patton achou que era hora de voltar para o acampamento e puxou a crina de Tawan para que ele fizesse o contorno. No entanto, o rapaz viu uma luz fraca saindo do meio das árvores. Tawan se negou a dar a volta e relinchou.
O aventureiro saltou do dorso do animal e, observando o brilho que variava de intensidade, fez com que o animal se acalmasse.
O brilho foi aumentando lentamente e então Patton desembainhou sua espada. Na mesma hora, sua lâmina irradiou um brilho azul. Ele fez com que Tawan parasse ali e deu alguns passos para perto das árvores.
Seus olhos pareciam estar hipnotizados por aquele cintilar. Passo a passo, Patton foi se aproximando e seu rosto empalideceu ao notar a imagem de Thalien, a Senhora dos Unicórnios.
- Pode guardar tua lâmina, Patton. Hoje ela não verterá sangue.
- Senhora? O que fazes aqui? Algo de ruim aconteceu a Alya?
- Não, Patton. É contigo que me preocupo. Amanhã será um dia de batalha para você. Não só um embate entre dois exércitos, mas uma luta sua para provar a si mesmo que é capaz de liderar e sair vencedor. O destino desta guerra ninguém sabe, mas o que me preocupo é com o que o vento me disse esta noite. – ela continuou - Temo pelo que pode acontecer com você, pois o Lâmina Negra estará no campo de batalha. Ele virá atrás de ti. Quer certificar-se de que tu não sairás vivo deste embate.
- Mas você deve evitá-lo, pois ainda não está pronto para enfrentá-lo. Ele tentará te atrair até ele. Patton, você não pode confrontar tal poder. É cedo para isso.
- Do jeito que falas, me parece que tu conheces ele mais do que qualquer um. Mesmo Ruprest, que já o encarou de perto, não fala dele com tanto medo. - disse Patton.
- A minha história e a dele estão unidas pelo passado. Se hoje sou a Senhora dos Unicórnios, foi por conseqüência de seus atos. E se ele se tornou o que é hoje, é por não ter me ouvido quando o chamei. Mas isso não importa agora, vim apenas te informar do perigo que corres. Mantenha-se longe de Lorde Gwilber e não se aflija, a ajuda chegará.
Patton viu a figura da bela mulher desaparecer lentamente. Tentou perguntar sobre Alya, mas não conseguiu. Embainhou sua arma e voltou para perto de Tawan. O cavalo estava ali estático, mas parecia não ter se assustado com a aparição.
O jovem Senhor da Guerra subiu em Tawan de um só pulo. O cavalo prontamente o levou de volta ao acampamento. Patton se sentia mais leve depois da aparição da Senhora dos Unicórnios.
Ao se aproximar do acampamento, Patton percebeu uma movimentação. Uma pequena confusão se armara perto do fosso. Ruprest e Ázaro estavam de pé e em volta deles alguns soldados observavam o campo a frente.
Quando Patton chegou, foi logo informado do que acontecera. A unidade de vigilância em que Faldan estava tinha encontrado um espião ork e o próprio elfo havia abatido o intruso.
Faldan estava puxando a carcaça do ork cravada de flechas e se preparava para atear fogo. Muitos soldados gritavam e festejavam a mira certeira do colega. Ehrin estava empolgado e foi contar a cena a Patton.
- Graças a Faldan, nosso ardil está a salvo do inimigo. O maldito ork estava camuflado no meio do mato alto. Montava uma égua baia e observava nossa unidade.
- Nós não havíamos avistado o espião, Patton. Mas Faldan o detectou e galopou em sua direção, já com o arco em mãos. Ao perceber que Faldan ia em sua direção, o ork tentou fugir. Golpeava o lombo de sua montaria com um galho de árvore, mas Faldan foi ligeiro. Quando ele subia uma pequena colina Faldan desceu de seu cavalo e soltou duas flechas de uma só vez, antes que o alvo saísse de seu campo de visão.
- O ork caiu, mas ainda não estava morto e tentou subir na égua. Faldan puxou mais uma flecha e o atingiu em cheio. Quando conseguimos alcançar Faldan, o ork já estava morto.
Patton, que ouvia a tudo prestando atenção aos detalhes, deu um sorriso para Ehrin e olhou o meio elfo, que gozava dos louros de sua façanha.
- Tens certeza que este estava só? Não havia nenhum outro inimigo com ele? - indagou ele.
- Procurei rastros, Patton. Só encontrei o dele e os nossos. Nada mais. Nosso segredo está garantido para o dia da batalha. Mas eles estão perto daqui. Amanhã será o dia, com certeza. Espero que nossa infantaria chegue e rápido. - relatou o elfo.
Apesar da admiração, os soldados estavam intrigados como aquele cavaleiro conseguia ter tão boa mira na escuridão. E ainda, conseguia procurar rastros de cavalos durante a noite. Ázaro também estava curioso e já desconfiava, contudo perguntou:
- Fico feliz em saber que temos um vigilante que até em noite escura consegue acertar três flechas num ork em fuga. Mas diga-nos, rapaz. Qual o teu segredo? Fostes criado em uma caverna escura e enxergas em meio ao breu?
Ruprest fechou a cara ao se lembrar que o companheiro era da raça dos elfos. Patton sorriu, mas não delatou o amigo, esperando que a revelação fosse feita pelo próprio.
Faldan soltou o corpanzil do ork no chão e virou-se para o draconiano. Todos que observavam estavam na expectativa de uma resposta do arqueiro e Faldan finalmente retirou o bacinete de sua cabeça, deixando a mostra suas orelhas pontiagudas.
Os soldados ficaram espantados, mas Ázaro, que já suspeitava, deu uma gargalhada. O cavaleiro fitou o rapaz nos olhos e depois se virou para Ruprest.
- Quer dizer que o amigo dos anões agora anda lado a lado com elfos? - indagou com ar de deboche.
Ruprest deu as costas e resmungou algumas palavras, mas Ázaro tornou a olhar para Faldan e parabenizou pelo bom trabalho. Os soldados que estavam surpresos, agora eram só admiração. Muitos nunca haviam visto um elfo, porém a maioria gostou de saber da procedência do arqueiro, pois era notória a habilidade destes com o arco.
- De volta ao trabalho. - berrou Patton - Agora que todos já conhecem o capitão dos arqueiros, podem voltar a seus afazeres. Temos uma batalha ferrenha amanhã. Precisamos que tudo esteja pronto antes do raiar do dia.
A rotina voltou ao acampamento e horas antes do amanhecer, o imenso fosso estava pronto. Os cavalos estavam posicionados e os soldados puderam descansar.
Nas primeiras horas do dia, Janô chegava liderando a infantaria. Foi recebido por Locksun, que ordenou que seus soldados também descansassem até a chegada dos mensageiros com a notícia de que a guerra era iminente.
O meio do dia chegou e uma refeição foi servida. O rum já havia sido suspendido desde o raiar do dia. Somente água era servida para matar a sede. O vento soprava forte e assobiava. Fazia os galhos das pequenas moitas se envergarem e parecia trazer maus presságios. O sol brilhava alto, mas não tinha a intensidade do dia anterior.
Era por volta da terceira hora quando um cavalo veio em galope veloz na direção do acampamento. Era um mensageiro de Ka, que vinha trazer a notícia que todos aguardavam, mas ninguém queria ouvir:
- Estão chegando. Avistei-os a dez ceres daqui. São muitos e seguem em ritmo acelerado.
Um grande clangor de trombetas foi ouvido e todos sabiam o que aquele sinal significava. Houve um grande alvoroço, mas logo os capitães controlaram seus homens. Patton se levantou da cadeira onde polia sua espada e vestiu sua armadura. Depois foi ao encontro de Ruprest.
O velho continuava conversando com Ázaro, mas ambos já estavam se preparando para a batalha. Patton pediu que um dos soldados encontrasse Faldan e Ehrin e os mandasse encontrá-los ali.
- É, meu caro… Mais uma batalha iremos travar. - disse Ruprest, prendendo um protetor ao seu antebraço - Parece que as histórias se repetem. Alguns personagens mudam, mas outros continuam os mesmos.
- Nossas vidas inteiras foram assim, Ruprest. Guerras, batalhas, disputas pelo poder. Hoje eu entendo porque Raikar decidiu se afastar e deixar essa vida belicosa. Uma luta como esta faz sentido, mas o povo dos homens é muito inconstante. Quando finalmente o mal é derrotado, ou afastado, começam as disputas locais pelo poder. Sempre foi assim e eu temo que isso nunca mude.
- Mas os sonhos são feitos de esperança. - disse Patton, intrometendo-se na conversa dos dois - E é por isso que vocês dois continuam lutando.
Ruprest e Ázaro concordaram e então Patton abraçou o velho ruivo. O caçador-de-bruxas havia cuidado dele como um filho, no entanto, apesar da diferença de idade, eles eram como irmãos. Ruprest sempre chamando sua atenção e ele, sempre atormentando sua paciência.
Ehrin e Faldan chegaram naquele momento e então Ázaro desembainhou sua espada e convocou os outros que fizessem o mesmo. O pedido foi prontamente atendido e o Draconiano bradou:
- Irmãos em armas, vamos à vitória!
Os outros presentes repetiram o brado e seguiram Patton para onde as tropas se reuniam. A cavalaria já estava a postos e a infantaria se posicionava em concentração.
Ficou decidido que dois pelotões de quinhentos homens ficariam à frente do grande fosso, para escondê-lo. Quem os liderava era o Próprio Duque de Locksun. Outros quinhentos arqueiros ficariam a frente da infantaria, liderados por Faldan. Ao todo, dois mil e duzentos cavaleiros esperavam dentro da escavação e todos os demais soldados de infantaria estavam atrás da cavalaria. Eram cinco pelotões, cada um contando com quatrocentos e vinte guerreiros.
Patton, já montado em Tawan, foi à frente das fileiras e fez com que fizessem silêncio. Todos estavam posicionados e, sacando sua espada, o senhor da guerra começou a discursar.
- Estão aqui por um ideal. Vamos aqui ser um dos focos da resistência contra uma força invasora, que deseja o domínio total de nossas terras, de nossas famílias e de nossas vidas. Se falharmos aqui, nada irá adiantar em parte alguma. Temos uma missão e muitos contam com nosso êxito. Se desapontarmos nossos irmãos do sul, seremos saqueados, escravizados e provavelmente mortos.
- Não peço que sejam mais fortes do que podem ser. Não peço que não sintam medo. Não peço que gostem do que vão fazer. A única coisa que peço a todos vocês, é que lutem com a força de seus corações e dêem o melhor de si nesta batalha! Irmãos em armas, vamos à vitória!
Os soldados, inflamados pelo discurso de Patton começaram a gritar. Muitos gritavam o nome do Senhor da Guerra, mas a maioria bramava em coro, berros de vitória.
O moral do exército havia se elevado, mas a tensão não abandonara o campo de batalha. De repente um rufar de tambores foi ouvido ao longe. Era um ritmo frenético e logo veio também o clangor de cornetas. A terra começou a tremer quando as primeiras fileiras de orks começaram a aparecer.
Logo, todo o horizonte estava tomado por guerreiros ostentando o estandarte da águia bicéfala. Vinham marchando e se concentrando. Primeiro os infantes, depois a cavalaria. Eram três mil cavaleiros yushers, montados com seus belos cavalos do oeste. Cavalos resistentes e de espírito forte. Os yushers eram baixos, mas fortes. Muitos usavam cabelos longos, mas que cresciam apenas do topo da cabeça e na nuca. A maior parte deles usava longos bigodes e tinha a pele bronzeada pelo sol.
Os orks usavam bacinetes negros feitos de ferro e corceletes de metal cobertos pelo uniforme negro do oeste. Usavam escudos redondos, diferentes dos pentagonais de Locksun. A maioria vinha a pé, pisando forte no chão verde e gritando urros ininteligíveis para os homens do leste.
Na retaguarda vinham os Duhr Kazur. Imensos e extremamente fortes, os gigantes puxavam quatro torres de cerco e três enormes catapultas. Eram poucos, mas grandes o bastante para encher de medo os corações dos guerreiros da resistência.
Na frente de batalha de Swannpala, somente alguns poucos cavalos estavam fora do fosso, sobretudo os de oficiais, para não despertar suspeitas. Patton, que levara Tawan para o fosso, observava a tudo desmontado. Ele empunhava uma lança de cavaleiro de quase quatro curvos de comprimento e calculava ao longe o tamanho das forças inimigas. Segundo seus prognósticos, somavam mais de três mil cavaleiros e o dobro de infantes, além de milhares de arqueiros que se abrigavam nas quatro torres de cerco.
Com uma visão privilegiada, o senhor da guerra avistou o comandante inimigo. Era o mesmo cavaleiro de armadura branca e dourada que havia observado dias atrás, em Phalanx. Patton procurava sem sucesso localizar o Lâmina Negra. As palavras de Thalien ecoavam em sua cabeça e o deixavam um tanto curioso e ansioso também. Janô se juntou a ele e disse:
- Veja, Patton. Eles estão mandando uma comitiva. Devem ser emissários ordenando nossa rendição.
- Avise ao duque! Vamos encontrá-los e mandá-los voltarem para o buraco fedegoso de onde eles saíram. Nenhuma rendição será firmada aqui. - disse Patton e depois cuspiu para o lado.
Janô fez o que Patton pedira e trouxe três cavalos para que fossem ao encontro da comitiva. O próprio duque ia à frente do grupo, seguido por Patton e o comandante.
A meio cere do grupo inimigo, Patton atestou que a comitiva dos opositores também era formada por um trio, mas se espantou ao perceber que o pequeno estandarte levado por um dos cavaleiros inimigos levava o brasão do urso verde de Phalanx.
Chegando mais perto, Patton e seus aliados notaram o jogo maligno do inimigo. Seus rostos empalideceram e as expressões, outrora decididas, mudaram. Janô segurou no pomo de sua espada cuspiu para o lado e praguejou:
- Pelos deuses, a maldade não tem fim!
Trotando em cavalos yushers, três figuras hediondas se aproximaram. Eram homens de Phalanx que haviam sido espancados e sofrido toda sorte de crueldades.
Os cavaleiros pareciam mulambos e estavam amarrados nos corcéis para não caírem. Um deles havia sido despelado e era difícil para Patton e seus amigos olharem para aquela figura.
O porta-estandarte tinha o mastro amarrado em seu corpo e uma venda sobre os olhos. Patton se aproximou e, com sua espada, cortou as cordas que o prendiam ao estandarte. O rapaz colocou a mão em seu pescoço e atestou que, apesar de mortalmente ferido, aquele cavaleiro ainda vivia. Então, mais uma vez, ele usou sua lâmina, porém agora para cortar a venda que tapava-lhe os olhos.
Para o horror da comitiva de Swannpala, o cair da venda revelou que os dois olhos do porta-estandarte haviam sido arrancados.
O duque se aproximou de um dos cavaleiros moribundos e o reconheceu o próprio Duque Yubar, de Phalanx. Ele se aproximou do nobre do lago Vaërn e, como Patton, colocou a mão em sua garganta e garantiu:
- Está morto!
Janô não precisou fazer o mesmo com o terceiro cavaleiro para constatar que este estava morto. Sua carne despelada já começava a entrar em decomposição e atraía dezenas de moscas.
Os três de Swannpala desmontaram de seus cavalos e cortaram as amarras que prendiam os cadáveres nos corcéis yushers. Recolheram os corpos e os deitaram nas selas de bruços. Patton sugeriu que o duque e Janô retirassem suas capas e cobrissem os corpos, para que a visão daquela barbárie não baixasse o moral da tropa.
Patton e seus dois companheiros subiram novamente em seus cavalos e voltaram para as linhas de Swannpala trazendo os três cavalos com suas cargas sinistras.
Os corpos foram levados para trás das linhas, mas os soldados curiosos não puderam ver o que acontecera. Patton desmontou. Juntou-se a Ruprest e detalhou em voz baixa o que havia acontecido.
Ruprest se abaixou, apoiando-se no joelho esquerdo e olhou para o horizonte, onde as fileiras inimigas se organizavam. Respirou profundamente e, súbito, sacou suas espadas de prata e as fincou no solo até metade das lâminas. O velho olhou novamente para o inimigo e sentiu seu coração acelerar. Não era medo, porque o medo típico dos momentos que precedem uma batalha, havia lhe abandonado há tempos.
As fileiras inimigas se preparavam, mas a distância fazia com que Ruprest não enxergasse tudo com nitidez o bastante para analisar a movimentação. Ele percebeu os cavalos yusher tomandoa vanguarda e ficou feliz, pois isso era sinal de que, provavelmente, estavam caindo no ardil de Patton.
Ainda ajoelhado, Ruprest passou as mãos no chão, pegou um punhado de terra e esfregou nas palmas. Depois puxou uma bandagem que estava presa em sua couraça e a enrolou na mão direita. Segurou suas espadas e as embainhou.
Quando se levantou, Ruprest foi abordado por um veterano do exército de Locksun. O soldado era mais velho do que Ruprest e não lhe restavam muitos dentes na boca, o que fazia com que sua fala fosse engraçada e sibilante.
- Você é Ruprest? - perguntou o veterano, para surpresa do ruivo - Ruprest, o campeão dos anões? - insistiu o velho.
- Quem quer saber? - retrucou Ruprest, cauteloso.
- Ruprest, o campeão dos anões. Herói da Guerra das raças. - continuou o soldado - Lutei ao seu lado, senhor. Lutamos contra esses miseráveis na fronteira de Kalpang. No “Massacre do Keld”.
- Não tivemos sorte naquela batalha. - disse Ruprest, tocando seu amuleto supersticiosamente, para afastar o mau agouro.
- Muito azar, meu senhor. - concordou o veterano, mostrando seu braço direito, que terminava precocemente no punho, mas mesmo assim, tinha um broquel amarrado - Um machado ork, senhor. Mas era o braço ruim e ainda posso ceifar algumas vidas com o esquerdo. - continuou ele, segurando o pomo de sua espada embainhada.
- Mas hoje teremos uma bela vitória, soldado. - previu Ruprest - Como na batalha final. Vamos botá-los para correr.
- É uma honra lutar novamente ao seu lado.
- A honra é recíproca. Qual o seu nome, soldado?
- Karvo, senhor. Karvo, o maneta.
Ruprest deu um tapinha nas costas do companheiro e sabia que durante o combate, teria um companheiro leal.
- Karvo, o incansável lhe cairia melhor, soldado.
- Parece que eles foram atraídos por nossa armadilha. Estão posicionando os cavalos na dianteira. A essas alturas, o comandante inimigo já deve estar cantando vitória. - disse Janô, entusiasmado.
- Faldan! - chamou Patton - Prepare-se para o ataque da cavalaria.
O elfo ouviu a ordem prontamente e deu um sinal para seus comandados. No mesmo instante, todos os arqueiros, inclusive ele, retiraram três flechas de suas aljavas. Duas delas foram fincadas no chão e as outras, armadas nos arcos longos.
Do outro lado, a aproximadamente um cere de distância, os cavaleiros selvagens berravam e levantavam suas armas para a tropa inimiga. Estavam sem armadura, como Patton previra. Os arqueiros permaneciam imóveis esperando por um sinal de Faldan.
Patton correu para o fosso e montou em Tawan, seu corcel negro. Empunhou uma lança e fez uma oração em voz baixa, pedindo aos seus antepassados que lhe ajudassem e aos deuses, para que não atrapalhassem.
O repique dos tambores aumentou a cadência e de repente cessaram. O comandante inimigo deu um sinal com sua espada e a horda de cavaleiros partiu em disparada contra as linhas de Swannpala. Os yushers eram excelentes domadores de animais e montavam como ninguém. Seus cavalos não tinham sela e eles não precisavam das mãos para ter domínio total de suas montarias.
Os belos corcéis eram baias ou brancos, mas possuíam a crina escura. Eram selvagens como seus donos e eram fortes e velozes. Rapidamente foram ganhando terreno, num ataque que seria fulminante.
Patton, de dentro do fosso, não enxergava nada, mas podia sentir a vibração do solo produzido pelo golpear dos cascos dos cavalos yushes. Tawan permanecia impassível e esperava a hora de atacar.
A cavalaria avançava rapidamente. Ao percorrerem o primeiro quarto de cere, Faldan deu mais um sinal aos arqueiros. Esses por sua vez, elevaram seus arcos armados.
Já haviam percorrido metade do caminho quando Faldan deu outro sinal, fazendo com que seus homens escolhessem seus alvos e travassem mira.
- Flecha! - gritou ele.
E todos os arqueiros, inclusive ele, dispararam suas setas mortais contra os yushers. Mais de trezentos cavaleiros tombaram. Algumas flechas atingiram os cavalos, que mesmo feridos continuaram seu galope feroz.
Faldan acertara um cavaleiro no pescoço e percebeu sua queda. Rapidamente puxou mais uma flecha e acertou outro, perfurando-lhe o olho esquerdo.
- Flecha! - gritou ele mais uma vez.
Ele puxou sua terceira seta, enquanto os demais arqueiros disparavam a segunda.
A nova saraivada de flechas foi mais mortal e quase quinhentos cavaleiros foram atingidos. Nem todos caíram, mas os ferimentos iam deixá-los debilitados para a batalha.
O elfo ainda teve tempo de matar mais três cavaleiros antes que Patton desse o sinal de ataque à cavalaria. Os arqueiros e a infantaria deram passagem para os cavalos. Eram mais de dois mil soldados montados, protegidos por armaduras e escudos, armados com longas lanças de mais de três curvos de comprimento.
Os cavalos saíram do fosso sem dificuldade e atacaram a já debilitada cavalaria inimiga. Os yushers tinham se limitado a pouco mais de dois mil e agora estavam em desvantagem, pois não usavam armaduras e não contavam com a surpresa preparada por Patton.
O choque das tropas foi brutal. As lanças do leste perfuravam os corpos dos selvagens facilmente. As armas curtas dos yushers não eram páreas para um ataque tão arquitetado. Quando as últimas fileiras dos inimigos conseguiram se esquivar das lanças, a infantaria entrou em ação, auxiliando a cavalaria.
Os Falcões do Rei foram os primeiros a chegarem com suas alabardas e armas de haste. Os yushers iam tombando sem quase causar baixas ao exército liderado por Patton.
Distante dali, o comandante inimigo observava ao ardil de dentro de seu elmo branco. Parecia não se abalar com o truque e não deu ordem alguma ao restante dos soldados.
Com a cavalaria inimiga dizimada, Patton levantou sua lança e deu um berro sem nada falar. Seus soldados vibraram com ele e festejaram o sucesso do ataque. O rapaz sabia que a batalha ainda estava longe de acabar e que o destino era incerto.
Com um sinal de Patton, os cavaleiros partiram para um novo ataque. As baixas tinham sido poucas, cerca de uma centena de homens do leste haviam perecido. A infantaria se reuniu e começaram a marchar rumo ao inimigo.
Faldan montou um cavalo yushe e pegou uma lança de um cavaleiro tombado. Ordenou que um capitão dos arqueiros comandasse seus homens e cuidasse da retaguarda da infantaria e seguiu com Patton ao ataque.
Mais uma vez a terra tremeu. Desta vez eram corcéis Nordskog e Suhrds que atropelavam o mato verde dos Campos de Celemar. Tawan era o mais veloz e o mais forte entre todos eles. Seus cascos com uma pelagem abundante, se moviam mais rápido do que se podia acompanhar.
Quando estavam na metade do caminho, o comandante ocidental fez um sinal com sua arma e um clangor de cornetas foi ouvido. Prontamente as catapultas foram acionadas. Pedras imensas, pesando dois aquitos ou mais, foram lançadas sobre as tropas do leste. A cada pedra que caía, cinco ou seis soldados eram esmagados.
O conde de Locksun se assustou com o ataque. Janô gritava para que não parassem, mas alguns cavalos assustados não obedeciam a seus cavaleiros.
Logo a cavalaria saiu do campo de alcance das catapultas, mas o massacre foi ainda maior quando a infantaria atravessou o campo. Ehrin, que havia obtido êxito em seu primeiro confronto, agora via companheiros sendo esmagados pelas imensas pedras. Ruprest corria alucinadamente incentivando a infantaria. Ele empunhava suas duas espadas e gritava como um selvagem em direção ao confronto.
As pedras caíam com velocidade incrível. Os trogloditas Duhr Kazur carregavam as catapultas enquanto orks as manejavam.
Patton foi o primeiro a chegar às fileiras inimigas. Os orks esperavam preparados para a carga, organizados numa poderosa parede de escudos, mas o golpe foi tão brutal que nenhuma defesa seria possível. A lança do Senhor da Guerra perfurara a couraça metálica de um ork, varando seu corpo por mais de um curvo. O guerreiro levantou sua lança ainda varada no inimigo e fez com que o sangue escuro e espesso da criatura escorresse por ela. Depois abandonou a lança e sacou a Lâmina de Askai.
Um brilho azul radiou da espada e por um segundo os orks hesitaram. Uma avalanche de cavalos e lanças caiu sobre os orks. A vanguarda da infantaria inimiga fora destruída pelas armas dos cavaleiros, mas ainda restavam quinhentos orks a cavalo e mais de seis mil infantes.
A infantaria de Locksun tinha dificuldades em passar pela zona onde as pedras da catapulta eram lançadas, mas enfim chegaram para auxiliar os cavaleiros. Muitos morreram no caminho, esmagados pelos imensos mísseis. Alguns ainda estavam vivos, mas não podiam mais lutar.
Patton e Ruprest ceifavam orks lado a lado e tentavam atravessar aquele mar de guerreiros, para chegar às catapultas. As tropas inimigas começavam sua reação. Os planos de Patton saíram perfeitamente como ele previa, mas a superioridade numérica era absurda e as baixas produzidas pelas catapultas foram de vital importância para as forças inimigas.
O cavaleiro branco acompanhava a tudo da retaguarda. Continuava impassível, apenas sinalizando ordens para seus capitães. Patton o olhava com fúria, enquanto descia sua lâmina sobre os orks.
Ázaro usava um machado de combate com maestria. Era um guerreiro experiente, além de possuir uma grande habilidade em batalhas. Ele observava a situação com preocupação. Os orks, cada vez mais ferozes, pareciam se multiplicar. A cada ork morto, mais dois apareciam para o combate e as tropas do leste iam se enfraquecendo.
Ruprest e Patton sentiam a mesma coisa. Podiam agüentar ali durante horas, porém a vitória era incerta. Os soldados inimigos eram muitos e lutavam movidos por um ódio que lhes aumentava a força.
Faldan, em cima do cavalo, atacava com agilidade e era o terror dos orks. Suas adagas cortavam o vento e perfuravam os soldados. Ele estava concentrado na batalha, mas de repente teve um presságio. Olhou para o norte e viu uma imagem que afagou sua alma.
Do alto de uma pequena elevação ao lado do campo de batalha se ouviu o toque de uma trombeta. O som ecoou por toda área durante um longo tempo. O toque era tão alto e imponente que todos se viraram para o lugar de onde vinha.
Menos de um cere dali, duzentos cavaleiros encapuzados montados em unicórnios esperavam em uma grande fileira, lado a lado. À frente deles, um dos cavaleiros tocava uma trombeta feita de chifre e adornada em ouro. Seu som era familiar aos aventureiros que outrora foram hospedes em Palari Kadun.
O som cessou e Patton notou que o cavaleiro branco agora estava se movimentando e parecia preocupado. Mais um cavaleiro se adiantou e todos, ao mesmo tempo, retiraram seus capuzes.
À frente deles, estava Fabrion com seus grandes olhos azuis e a pele alva feito a neve. A seu lado estava Ernandor, o único de pele morena em meio a duas centenas de cavaleiros élficos. Estavam cobertos por capas brancas e tinham na mão belos arcos longos. Na cintura, ainda levavam espadas de um brilho intenso.
O Cavaleiro Branco, comandante das tropas do oeste ordenou um ataque imediato aos recém chegados inimigos. Todos os orks montados partiram para uma carga contra os elfos. Fabrion tocou novamente o chifre e os cavaleiros armaram seus arcos com flechas prateadas.
Os orks galopavam rapidamente, mas nenhum conseguiu chegar ao destino ordenado pelo mestre. Flechas às centenas foram disparadas, não dando chances aos opositores. Faldan viu aquilo com orgulho e retirou o bacinete da cabeça, revelando suas orelhas élficas.
Patton aproveitou a baixa do inimigo para atravessar a infantaria. Sem o obstáculo dos cavaleiros orks, Ele e Ruprest lideraram uma ofensiva contra as torres de cerco. Ao passar pelos infantes, os cavaleiros foram recebidos por uma saraivada de flechas, vindas das torres. As bestas orks levaram a vida de vários cavaleiros, mas eram lentas e difíceis de serem armadas.
Os cavaleiros élficos novamente armaram suas flechas prateadas e atiraram contra as torres. Acertaram as paredes de três das quatro torres que estavam ao alcance. Como que por algum encanto, as setas entraram em combustão e as torres começaram a queimar rapidamente. Os orks tentavam sair de dentro das torres, mas o fogo as consumia muito depressa e a maioria morreu queimada.
Logo vieram os Duhr Kazur. Vinham armados com grandes maças forjadas pelos orks, que terminavam numa esfera cravejada de espetos. Faldan acertou um com quatro flechas, mas foi necessário o golpe do machado de Ázaro para que o gigante tombasse.
Ruprest confrontou um deles que corria em sua direção. Mesmo barrigudo, o velho era ágil e toda vez que esquivava de um golpe do troglodita, fincava-lhe uma de suas espadas de prata. Bastaram três estocadas com suas lâminas centenárias para o duhr kazur tombar.

Todavia, outros vieram. O ruivo chegou a lutar com três gigantes de uma só vez. Teve a ajuda de Ehrin e o velho Karvo, que tombaram juntos um deles, mas quando vieram mais guerreiros daquela raça, foi preciso que os cavaleiros élficos o socorressem. Mais uma saraivada de flechas fez com que os oponentes caíssem.
- Maldição! Salvo por elfos! - praguejou o caçador-de-bruxas.
Ázaro saltou de seu cavalo e pediu ajuda para outros que estavam ao seu lado. Ele queria derrubar a última torre, que não havia sido lambida pelas chamas, pois de lá saiam as últimas flechas orks que ameaçavam os cavaleiros.
Ruprest correu na direção da torre e ajudou na tentativa. Do alto, um ork armado com sua besta mirou no velho ruivo, que empurrava a torre com toda sua força. Sem que o ruivo percebesse, o ork disparou, varando seu corpo na altura do ombro. O guerreiro soltou um urro de dor, mas continuou empurrando a torre até que esta foi ao chão.
Os orks dentro do engenho ficaram desesperados e então os homens do leste caíram sobre eles. Ruprest era o mais furioso e, mesmo com um só braço em condições, cortou e furou os orks como parias.
Patton lutava com um troglodita, quando um vento gelado soprou do oeste. Ele continuou lutando até matar o adversário. Quando o gigante estava caído no chão, algo fez o rapaz olhar para trás.
Não muito longe dali, montado num corcel negro, estava um cavaleiro em uma armadura escura, com adornos dourados. O guerreiro emanava uma aura de terror e muitos se afastaram dali. Sua capa revoava com o vento gelado que soprava do oeste.
- Lutai comigo. - disse o guerreiro, com uma voz fria e rouca, que vinha de dentro de um elmo de topo chato.
Patton pensou nas palavras de Thalien, sobre sua sorte na batalha. Porém, quando deu por si, já estava desembainhando novamente sua espada e partindo para cima do inimigo.
O cavaleiro do leste sacou lentamente sua espada e ela tinha uma lâmina negra. Tawan correu de encontro ao outro corcel, levando Patton, que já preparava um golpe.
O primeiro choque das duas espadas radiou uma energia que foi sentida em todo o campo de batalha e em toda região. Os dois se enfrentavam como se fossem inimigos seculares. Havia ódio em cada golpe e o som do aço fazia toda Enthär tremer.
Muitos observavam, mas ninguém pôde se intrometer naquele duelo. Patton desferia seus ataques, mas o Lâmina Negra defendia a todos.
O combate permaneceu equilibrado por algum tempo, mas num descuido de Patton, o Lâmina Negra tirou-lhe a arma da mão. Patton caiu de cima de Tawan e ficou indefeso, de joelhos. O Cavaleiro do Oeste virou-se para o Cavaleiro Branco.
- Então é este o escolhido? Decepcionante! - disse ele com sua voz fria - Não passa de um garoto prepotente.
O guerreiro olhou mais uma vez para o rapaz, desceu de seu corcel negro e atravessou-o lentamente com sua espada de lâmina negra na altura do peito. A lóriga de Patton foi perfurada com extrema facilidade e o sangue escorria pelo metal brilhoso.
- Não é páreo para o campeão do oeste, meu senhor. - disse o cavaleiro branco, com uma voz fina, mas igualmente tenebrosa - Mas parece que subestimamos o poder do inimigo, Lorde Gwilber. Nossas tropas não durarão muito no campo de batalha. A chegada dos elfos do norte parece ter virado a sorte contra nós.
- Não importa. Já esperei por mais de um século. Posso esperar por mais um. Logo nossas tropas ao oeste estarão com sua força total. Logo, a queda do oriente e a redenção de Talbor serão inevitáveis.
Os dois reuniram a tropa de elite que os rodeava e partiram rumo ao norte, deixando para trás Patton. O rapaz estava caído e sangrava muito. Estava inconsciente. Seus olhos estavam fechados. Mas ele via cenas de batalhas antigas em seus sonhos e em todas elas, via Gwilber, ceifando vidas e espalhando o caos.
A batalha parecia estar chegando ao fim e muitos orks já batiam em retirada. Patton ainda estava caído e ninguém chegava para ajudá-lo, até que Faldan viu Tawan solto, sem seu cavaleiro.
O elfo correu para o local onde o combate havia sido travado. Rapidamente percebeu o corpo de Patton estirado no chão e foi ao seu encontro. O sangue escorria pela sua boca e o elfo começou a gritar por socorro.
Ruprest correu para perto de Patton e se desesperou ao ver o rosto pálido do rapaz. O velho se sentia incapaz e que havia falhado com seu amigo Raikar. Ele ainda tinha a flecha cravada no ombro, mas não se preocupava com ela.
Os elfos dourados tinham cavalgado para o centro da batalha e, com suas espadas empunhadas, combatiam os soldados remanescentes. Ernandor estava entre eles, todavia desviou sua atenção do combate e notando o desespero de Ruprest, cavalgou até o local.
- O que aconteceu? - inquiriu o druida - Quem o feriu?
Ruprest balbuciou algumas palavras, mas foi Faldan quem respondeu de fato. Ele dizia não ter certeza, mas vira quando um cavaleiro, de armadura sinistra, partia bradando sua lâmina negra.
- Então não podemos perder tempo. Nenhuma erva ou láudano que eu preparar vai ser suficiente para curar este ferimento. - noticiou Ernandor gravemente - Vamos ter que levá-lo a Palari Kadun o quanto antes.
- Ele não agüentaria a viagem. - disse Ruprest, com um nó na garganta - Pereceria antes mesmo de chegar a Locksun.
- Não, Ruprest. Os unicórnios nos levarão e ele terá alguma chance. Se ficar aqui, seu destino será a morte.
Ruprest fez que sim com a cabeça e olhou novamente para Patton. Seu rosto estava gélido e o sangue não parava de correr. O ruivo retirou sua armadura e Ernandor fez um curativo para tentar estancar o sangramento. Ruprest lembrou-se de seu cantil e despejou toda água que ele havia coletado na fonte da Dríade Nayan. Então, o meio elfo fez o mesmo e Ernandor sorriu. O ferimento começou a borbulhar e espumar, mas o poder da Lâmina Negra era maior e o ferimento não cicatrizou.
- Ele precisa ir. A água de Nayan ajudou, mas não foi eficaz o bastante. - disse o Druida.
Faldan levantou Patton e o colocou no lombo de um unicórnio.
- Leve-o para o norte. - disse Ernandor - Logo estarei lá, mas enquanto isso, peça à Senhora dos Unicórnios que cuide dele.
O meio-elfo subiu na criatura alva e partiu, deixando Ruprest desolado. O druida olhou para o velho ruivo e notou a seta fincada em seu ombro. Pediu para que se abaixasse e quebrou a flecha, retirando primeiro a ponta de metal, que saía pelo seu dorso e, depois, a parte de trás, que permanecia na parte superior do ombro.
A dor foi grande e Ruprest dera um berro quase tão alto quanto os clangores da corneta élfica. O caçador-de-bruxas apertou forte o cabo de sua espada e amaldiçoou o druida. Mas Ernandor não deu atenção a ele e fez um curativo, recomendando que ele ficasse fora da batalha.
Ruprest ignorou o conselho do druida e voltou para o combate. Pouco a pouco, os orks iam sendo dizimados numa chuva de metal contra seus corpanzis. Os que desistiam da luta e fugiam, eram perseguidos pelos cavaleiros, que não tinham misericórdia por aquela raça vil.
Os trogloditas duhr kazur foram eliminados e as catapultas incendiadas. Antes do breu da noite, todo o exército inimigo havia tombado. Ehrin tinha um hematoma na parte posterior da perna, feito por uma maça inimiga, andando com dificuldade. O jovem olhou a sua volta e viu Ázaro em cima de seu cavalo branco. Perguntou a ele sobre Patton, Ruprest e Faldan e ficou triste ao tomar conhecimento da sorte do amigo.
Com a mão segurando o braço ferido, Ruprest se aproximou lentamente de Ehrin. Ele vinha cabisbaixo e seus cabelos tapavam-lhe o rosto. Suas espadas estavam embainhadas e ele chutava algumas carcaças de orks mortos.
- Uma vitória esplendorosa. - disse ele - Mas que preço nós pagamos? Parece que o chão sumiu debaixo de meus pés. Estou me sentindo em débito com Raikar.
- Não sejas tolo, Ruprest. Tu cuidaste do garoto a vida inteira. Ele agora é um homem e tu não podes se achar responsável por ele o resto da tua vida - recriminou Ázaro.
Logo chegavam também o Lorde de Locksun e Janô, seu comandante. Souberam do ferimento de Patton e sentiram por ele. O duque mandou que seus homens enterrassem os corpos dos soldados mortos e que queimassem as carcaças dos orks e yushers em uma grande fogueira. Ordenou que descansassem antes de voltar para casa e liberou o rum e as fogueiras. Mandou um falcão mensageiro à Nordwil para enviar as boas notícias e mandou que preparassem um belo banquete para os capitães do leste.
Os elfos dourados partiram tão misteriosamente quanto chegaram, mas deixaram Ernandor para que cuidasse dos feridos e acompanhasse Ruprest e Ehrin para Palari Kadun, no dia seguinte.
Ázaro jantou com os comandantes e partiu para Dracon durante aquela noite. Antes, porém, despediu-se do amigo de longa data.
- Espero notícias de Patton, Ruprest. Tenho certeza de que ele irá sobreviver, pois seu destino é tomar a liderança dos Draconianos e nos conduzir nesta guerra que está longe de terminar.
- Que os deuses te ouçam, Ázaro. Como você disse, esta guerra ainda vai durar muito.




Novembro 11th, 2008 at 11:10 am
Cada vez melhor!
\o/
Novembro 11th, 2008 at 12:24 pm
Meu deus… Li de uma vez sem nem mesmo piscar…ehehhe
parabéns
Novembro 14th, 2008 at 6:26 am
Muito bom!!!!
Eu comecei a ler o prólogo na quarta (dia 12) e terminei de ler o capítulo 12 ontem!!! Está sensacional a estória!!!
Achei fantástico a forma em que fora descrita a estratégia de guerra envolvendo o leitor!!!!
Mais uma vez parabéns!