“A Missão de Faldan”

Posted by admin on Novembro 15th, 2008 filed in Uncategorized

 

O

s olhos lentamente se abriram. A visão estava turva e a luz fraca, vinda de uma fresta nas cortinas de uma grande janela, mal iluminava o ambiente. Patton avistou dois vultos de pé a sua frente. Um maior, mais parrudo. O outro, menor e franzino. Levou suas mãos aos olhos e esfregou-os tentando desembaçar a vista.

            O jovem ouviu uma alegre voz feminina dando graças por ele ter acordado. O odor suave de pinho o fazia perceber o lugar aconchegante onde descansava. Quando a visão começou a voltar ao normal ele pode finalmente reconhecer os dois vultos. Alya e Ruprest o observavam de perto e a menina abaixou-se para dar um beijo nos lábios ainda febris do ferido.

            - Se soubesse que os enfermos seriam tão bem tratados nesta casa, não teria deixado que Ernandor me fizesse curativos em Celemar. - disse Ruprest, demonstrando estar bem feliz com a recuperação do amigo.

            Alya afagou o rosto de Patton suavemente e o rapaz retribuiu o carinho com um sorriso. Seu tórax ainda doía bastante e estava envolto em bandagens de algodão. Por baixo das faixas, Ernandor havia feito um curativo passando um láudano à base de ervas deixado por Rino, o druida do Olmo.

            - Há quanto tempo estou aqui inconsciente? E a batalha? Tivemos sucesso? - questionou Patton com uma expressão austera.

            - Calmo garoto! Primeiro você precisa alimentar seu corpo. Depois Faldan lhe contará toda a história. Estivestes no bico do corvo, meu amigo. Por pouco esta menina não virou viúva mesmo antes de se casar. - disse Ruprest, fitando Alya com um sorriso de cumplicidade estampado no rosto.

            Patton também sorriu, mas Alya só respirou aliviada, como se saísse de um pesadelo terrível. Ruprest caminhou até uma porta de madeira fechada, a abriu e mandou que os outros entrassem. Faldan e Ehrin esperavam por notícias no corredor, do lado de fora do aposento. Estavam impacientes e ficaram alegres ao serem chamados por Ruprest. Numa mesa perto da janela estava uma bandeja de prata, repleta de frutas frescas.

            Faldan tinha marcas de ferimentos e exibia alguns curativos no braço e no pescoço, que deixaram Patton curioso. O elfo pegou a bandeja de prata e levou-a para Patton. Alya serviu um copo de água para ele, ajudando-lhe a beber. Depois, ainda intrigado, perguntou:

            - Onde ganhastes estes ferimentos? Parecem feitos por uma fera e não pelas espadas yushers. E mesmo que tivessem garras e dentes afiados, duvido que eles conseguissem te acertar um golpe sequer, quanto mais deixá-lo neste estado.

            - É uma longa história essa, Patton. Mas agora que estamos a salvo e longe dos exércitos do oeste, acho que poderei contar-te-a toda. - respondeu Faldan.

            Ruprest pediu a Ehrin que fosse rapidamente até a sala do trono para avisar à Rainha Thalien e ao druida Ernandor do despertar de Patton. O rapaz saiu em disparada e logo voltou.

            Logo atrás de Ehrin estava Ernandor. Tinha um rosto pálido e parecia mais altivo e nobre do que antes. No entanto, ao entrar, despertou medo em alguns, pois tinha o semblante sério e frio.

            - Pregastes um susto em todos nós, Patton. E, embora eu saiba que não é o momento mais propício para recriminar-te, tu sabes que este incidente poderia ser evitado se você não fosse tão teimoso. - falou o druida severamente, mas ao mesmo tempo com uma suavidade acalentadora na voz - Teu coração é bom, mas duro e cheio de orgulho.

            - Sinto causar este transtorno a todos vocês. Alguma magia me impulsionou no campo de batalha e foi mais forte do que eu poderia imaginar. Quando vi o cavaleiro me desafiando fui tentado a me testar. - desculpou-se o aventureiro.

            - Não foi magia. O inimigo vê teu coração e sabe de tuas fraquezas. Se te chamo a atenção, não é pelo transtorno, Patton. Nossos corações ficaram pequenos, principalmente o de Alya. A sua morte seria como o fim de uma esperança para todos nós. Mas eu conheço muito bem o inimigo e sei de suas artimanhas. Você também deve conhecê-lo para estar preparado para quando voltar a encontrá-lo.

            - Mas o inimigo foi derrotado, Druida. Não haverá uma próxima vez. - disse Alya com uma voz temerosa - Eles se foram, não é mesmo, Patton? - continuou ela, procurando o respaldo do amado.

            Um silêncio sinistro se fez no quarto e Patton baixou os olhos. Mas Alya o abraçou com cuidado para que o ferimento não fosse tocado. Ruprest deu uma pigarreada e olhando para os demais, começou a falar:

            - Se quiseres, agora Faldan pode lhe contar sobre o que aconteceu a ti durante estes nove dias em que ficaste aqui entre a vida e a morte. E Ernandor poderá lhe dar as boas notícias vindas do sul.

 

            Patton olhou para o meio elfo e se ajeitou na cama. Todos tomaram seus lugares nas diversas cadeiras feitas de cedro que estavam ajeitadas em círculo naquele quarto. Apesar de conhecerem aquela história, queriam ouví-la mais uma vez, pois era, sem dúvida, emocionante.

            Faldan prendeu seu cabelo e se preparou para narrar sua aventura. Bebeu um copo de água, levantou-se e pôs-se a contar a história:

           

            - Como você deve se lembrar, o Cavaleiro Negro o desarmou no Campo de Celemar e o atravessou com sua lâmina negra. Poucos dos nossos te viram tombar e, mesmo os que viram, não tiveram coragem o bastante para se aproximar, pois ainda temiam aquela figura aterrorizante.

            - Eu estava em meio à batalha quando percebi Tawan sozinho sem seu cavaleiro. Corri para o local e te achei ferido, estirado no chão. O sangue manchava o uniforme de Locksun e saia por sua boca e seu tórax. Percebi que a situação era grave.

            - Logo Ruprest chegou. Ele ainda tinha uma flecha fincada em seu ombro, mas parecia mais preocupado com seu ferimento do que com o dele próprio. Seu rosto estava pálido e os olhos muito fundos. Parecia um cadáver.

            - Ernandor também nos viu e ordenou que eu te levasse para o norte montado em um unicórnio, pois o ferimento não poderia ser curado com a medicina. Mesmo a água de cura de Nayan não foi o bastante para cessar o sangramento. Segundo as palavras do nosso amigo druida, somente aqui, em Palari Kadun o veneno da lâmina negra poderia ser combatido.

 

            - Rapidamente eu montei no unicórnio e coloquei-o na minha frente. Era um belíssimo animal, que só depois eu vim saber que era Auhin Cembor, Rei dos Unicórnios, a mais veloz e forte montaria de Enthär. Não precisei dar nenhum comando para que ele partisse rápido como um falcão, mas suave como se seus cascos não tocassem o solo.

            - A noite já tinha caído sobre nós e o unicórnio não parava nem por um minuto. A escuridão era grande, até mesmo para mim, que tenho a visão privilegiada. Uma névoa parecia tapar meus olhos. Não era algo natural. Eu sentia que o mal nos seguia e seu corpo estava frio como a neve.

            Ao ouvir este trecho da história Alya, segurou forte a mão de Patton como se sentisse o que as palavras de Faldan narravam. O meio elfo interrompeu a fala por um segundo para beber mais um gole de água e limpar a garganta seca. Ehrin tinha os olhos vidrados nele e estava ansioso para que ele prosseguisse.

            - A esta altura, as patas de Cembor golpeavam fortemente o solo de Celemar, quebrando o silêncio da noite negra. O esforço por vencer o percurso o mais veloz possível era notado em sua respiração pesada e o frio fazia suas narinas exalarem fumaça.

            - Se alguma viva alma nos observasse naquela busca incansável, certamente adivinharia que se tratava de um espectro a passar pelo campo. Cembor cortava o caminho de volta como uma flecha e, o som de seus cascos em choque com a terra parecia com o dos tambores de mil exércitos.

            - Bem, eu imaginei que havia um mal muito grande nos assolando. A noite era escura, sem estrelas e sem lua. Um vento frio soprava do norte quando senti um odor horrível invadindo minhas narinas. Algo como o cheiro de carne podre que senti, durante dias dentro das ruínas, antes que vocês me salvassem. A cada passo de Cembor, o frio aumentava e o odor ia se tornando quase insuportável.

            - Ao longe, avistei dois pontos vermelhos que brilhavam como um fogo pálido de tochas há muito acesas. Prossegui.  Ao me aproximar notei que eram os olhos de uma criatura que as sombras da noite não me permitiam distinguir. Puxei forte a crina de Cembor e te segurei junto a mim para que não caísses. O vulto tinha a forma de um urso, mas era bem maior e fedia bem mais do que cem cadáveres. Ele parecia nos esperar ali, sentado, apoiado sobre suas patas traseiras, com seus olhos brilhantes nos observando.

            O elfo contava a história e ninguém ali ousava interrompê-lo em momento algum. Nos momentos de pausa, podia se ouvir perfeitamente a respiração tensa dos demais. Ruprest segurava firme na empunhadura de sua espada, imaginando a situação terrível passada pelos amigos. O velho ruivo já tinha ouvido aquela trama duas vezes, mas seus nervos ficavam tensos a cada vez que ela era recontada.

            - Cembor se aproximou lentamente da direção do vulto, mas de repente cessou bruscamente. O Rei dos Unicórnios empinou as duas patas dianteiras, mas não nos derrubou. Eu, mais uma vez, segurei firme em sua crina e me equilibrei.

            - Estávamos a poucos curvos da fera, suas formas já estavam bem mais definidas, mas ainda assim não passavam de sombras no breu. Eu nunca havia visto ou escutado falar de nada parecido em toda a minha vida e meu sangue gelou ao ouvir aquela respiração compelida.

            - Por alguns segundos eu e Cembor encaramos a criatura sem nada fazer. Ela também permaneceu imóvel por algum tempo, como se nos estudasse. Mas, de repente, como um trovão, a criatura se levantou sobre suas patas traseiras e urrou. Urrou como que dominado por um ódio profundo e seu berro ecoou por todo o campo, fazendo o chão tremer e o ar correr forte, trazendo aquele odor indescritível para a nossa direção.

            - O unicórnio deu um passo para trás e eu tive que proteger meu rosto com um dos braços. Tive a sensação de que ele nos atacaria, mas ele ficou ali, de pé a nossa frente, nos aterrorizando por mais alguns instantes.

            - Me preparei para o pior. Sabia que o ataque era iminente e que não tardaria. Pensei em desviar meu caminho e dar-lhe a volta. Porém, algo dentro de mim avisava que a fuga seria em vão. Então saquei o arco e armei uma flecha.

            - Cedo foi o inevitável. A criatura ficou mais uma vez apoiado nas quatro patas e deu um passo a frente. Cembor não vacilou e se manteve imóvel. Tenho certeza que, se montasse um cavalo naquela hora, o animal teria se aterrorizado e teria sido nossa ruína, Patton.

            - Tenho certeza que sim. - comentou Patton, interrompendo a narrativa - Mas talvez não, se este cavalo fosse Tawan.

            - Talvez. - concordou Faldan - Mas não tenho toda esta certeza. Tenho que admitir que nunca senti um medo assim em minha vida e acredito que seria assim com qualquer um, elfo ou anão.

            Ruprest franziu a testa e lançou um olhar severo para o elfo, o recriminando por citar o povo anão. Faldan deu um pequeno sorriso e bebeu mais um gole de água.

            - Bem, talvez um anão não sentisse todo esse medo, mas eu senti. E, embora estivesse assustado, soltei minha flecha na direção da fera, numa tentativa frustrada de feri-lo.

            - A flecha se perdeu na escuridão e a criatura nem sequer se moveu. Percebi então que teria que usar uma arma mais contundente contra aquela besta, ou acabaria morto sem completar a missão a mim incumbida.

            - Olhei para o seu corpo inerte a minha frente, Patton. Devo lhe atestar que, em seu estado, um cadáver ganharia uma corrida. Você estava pálido como mármore e sua respiração não passava de alguns suspiros. Cembor relinchou e bateu com uma pata no chão, tentando intimidar o monstro. A resposta foi outro urro grotesco como o primeiro.

            - Segurei o punho de uma de minhas adagas e senti que não era a arma ideal. Essa foi a hora em que vi em teu cinturão, a Lâmina Askai embainhada. Hesitei em sacá-la por alguns instantes, mas puxei-a de uma só vez. Ela irradiou um brilho magnífico. A escuridão da noite dera lugar a uma penumbra razoável, como se a lua estivesse alta e cheia.

            - Antes a escuridão não tivesse nos deixado. A luz de tua espada iluminou o local e finalmente revelou todo o horror daquela criatura. Era realmente um ser feito de ossos e carne decomposta que exalava aquele fedor. Tinha um crânio comprido de onde saiam uma fileira de chifres de vários tamanhos que se estendiam até o meio do dorso. Em seu abdome quase não se via carne, só os ossos das costelas que tornavam visíveis as suas vísceras apodrecidas.

            - Quando a criatura viu o brilho da espada, eu pude notar certo receio, mas foi nesta hora que ela deu seu terceiro e mais poderoso urro. A fera mostrou seus longos dentes, todos escuros e recheados de carne podre de algum ser que virara alimento, mas eram fortes e afiados. Depois o monstro correu para cima de nós.

            - Cembor mais uma vez empinou, mas desta vez, num movimento mais suave e majestoso. O unicórnio estava confiante com o brilho da Askai e atacou o monstro com seu chifre. Eu aproveitei a proximidade da besta para golpeá-la, mas ela se esquivou do ataque, num movimento incrivelmente ágil, levando-se em conta o seu tamanho.      

            - A criatura tentou dar uma mordida em meu braço, mas eu defendi sua investida com a espada e ele se feriu. Não possuía sangue, mas percebi sua dor e mais uma vez investi contra ele. Desta vez o golpe acertou seu crânio e ele teve de baixar. Cembor também o estocara com seu chifre e o golpeava com suas patas.

            - Os golpes tinham sido duros, mas a fera reagiu e com suas garras, feriu gravemente Cembor. Olhei para o peito alvo do unicórnio. Vi bastante sangue escorrendo ali e senti que era o momento de tomar uma decisão. Saltei do unicórnio e mandei que ele te levasse para casa o mais rápido que ele conseguisse.

            - A partir daí, o combate se desenvolveu de uma forma mais violenta e cruel. Praticamente durante horas eu me esquivava dos fortes golpes da criatura e esperava chances para um contra-ataque. Apesar de toda a minha agilidade, esses momentos foram poucos, pois eu estava cada vez mais cansado. Minhas pernas pareciam estar atadas a pedras e meu pescoço quase não conseguia suportar o peso de minha cabeça. No entanto, a criatura parecia não se abater e, mesmo que de raspão, seus golpes acabavam por me ferir.

            - Tive o azar de me deixar ferir por uma patada da fera que me rasgou o braço. Quase sucumbi, mas consegui me recuperar e atacá-lo novamente. Por três vezes fui atingido por suas garras afiadas, mas com um golpe potente e carregado de ódio, parti uma das patas da criatura. Gritei numa explosão de fúria e senti pela primeira vez que realmente tinha uma chance de sair vitorioso daquele embate. O monstro não conseguia mais se locomover com a agilidade de antes e eu me aproveitei para saltar por sobre sua cabeça e cravar-lhe a Lâmina de Askai no alto de seu crânio.

            - Ele emitiu mais um grito, mas esse era diferente, denotava dor. Vi seus olhos lentamente perderem o brilho vermelho e suas patas perderem as forças até não agüentarem o peso daquela carcaça podre. A fera estava morta, se é que algum dia ela esteve viva, mas eu estava completamente envolto numa crosta de sangue e suor. Minhas pernas já não sustentavam meu corpo e finquei a espada no chão para me firmar. Ajoelhei-me e tentei me manter ereto apoiado ao guarda mão da espada, mas o esforço foi em vão. Tombei ali no breu da noite e daqui por diante, esta história seria mais bem contada por Ruprest, ou talvez Ernandor.

            Um suspiro uníssono foi ouvido naquele quarto. Mesmo com a temperatura agradável, os espectadores suavam ao acompanharem a narrativa do meio elfo e ficavam tensos ao imaginar as cenas daquele combate.

            - Bem, eu só tenho que agradecer-te por ter salvo a minha vida, Faldan. Alegro-me de ver que estais recuperado deste encontro enfadonho. Esse é o tipo de acontecimento que merece virar uma bela canção élfica, meu amigo. - disse Patton.

            - Sim, mas esta história ainda não acabou. - disse Ruprest, limpando o suor de sua testa com um lenço que guardava num bolso do colete que usava - Se bem, que a parte mais tensa já passou, agora que sabemos que tu estás bem.

            - Realmente, meu amigo. Agora que Patton está se recuperando e você está mais calmo, seria agradável ouvi-lo contar o resto desta história. - sugeriu Ernandor.

           

            Ruprest se levantou e ajeitou o cinto de couro marrom, onde levava suas espadas centenárias. Pegou novamente o lenço, secou o suor que lhe escorria pelo canto da boca e começou a relatar a seqüência de seu ponto de vista.

            - Como o elfo disse, ficamos preocupados com o seu ferimento, Patton. Ernandor me disse que você não sobreviveria àquele ferimento se permanecesse ali. Então ele mandou que Faldan o trouxesse para cá, montado naquele belo unicórnio.

            - A batalha estava quase terminada. Tivemos uma vitória esplendorosa, mas o custo fora alto. Milhares de baixas entre os soldados, além de você, que até aquele momento não sabíamos se sobreviveria ou não.

            - Ázaro partiu para Dracon. Nós enterramos nossos mortos com honras e queimamos as carcaças malcheirosas de orks, duhr kazur e yushers. Esperamos por notícias do sul por dois dias e quando o falcão mensageiro chegou, os corações se elevaram. O Rei Endor sagrou-se vitorioso na frente de batalha sul. A batalha lá se mostrou mais fácil do que em Celemar. Os anões vieram mais uma vez em socorro do povo de Nordwil, liderados pelo Rei Owid e seu filho Mandoon. Embora o próprio Rei Endor não estivesse à frente do exército, pois não tinha condições para isso, a batalha foi breve, comandada por seu sobrinho, Lorde Fya. O povo de Driev montado nos Grandes Lobos mostrou para todos que, além de grandes ferreiros, são guerreiros vorazes.

- Logo que recebemos as boas novas partimos de volta para casa e o Lorde Locksun ordenou que fossem feitas patrulhas de caça para aniquilarem os inimigos que ainda estivessem em nosso solo.

            - Cavalgamos em ritmo lento, pois tanto cavalos como guerreiros estavam exaustos. Os boatos sobre sua sorte eram cada vez maiores. Capitães vinham perguntar sobre o seu estado, mas infelizmente nenhuma resposta havia chegado de Palari Kadun. Após uma grande marcha, avistamos ao longe um vulto de uma carcaça imensa.

            - Devo salientar que se não tivesse visto de perto tal criatura, não acreditaria nas palavras de Faldan. A criatura era realmente hedionda e putrefiz. Estava jogada no solo, mas a grama abaixo dela estava queimada. Ao lado, jazia o corpo do nosso companheiro elfo. Ao vê-lo, senti sua perda, pois estava em situação pior do que quando o encontramos da primeira vez. Mas Ernandor desceu de sua montaria e achou um sinal de vida em meio ao sangue, lama e suor que o cobriam.

            - Com ajuda de dois soldados, colocamos o rapaz numa das carroças de mantimentos e o druida foi fazendo curativos. Em minha mente, só sentia que o elfo falhara em sua missão de levá-lo para casa, porém Ernandor lembrou-me que o unicórnio não tinha perecido e, certamente teria seguido na missão.

            - Finalmente, após dias de viagem, estávamos chegando a Locksun. Uma multidão foi nos receber com honrarias, mas nem eu nem Ernandor tínhamos tempo a perder. O Duque entrou na cidade sob aplausos e brados de glória, mas disse que logo viria buscar Lady Lavia. Ele prometeu que Faldan seria cuidado de seus ferimentos e que tão logo se recuperasse, cederia um cavalo para que viesse para cá. Despedimos-nos de Janô e cavalgamos o mais rápido que as patas de nossas montarias podiam se movimentar.

            - Quando chegamos à Floresta dos Unicórnios fomos interceptados por Serger e Aleyan. Eles nos deram logo notícias de você. Disseram que o unicórnio havia chegado lhe trazendo, dias atrás. Serger disse que sua febre era alta, mas que a Rainha havia chamado Rino, o druida do Olmo, para cuidar de você. Ernandor me garantiu que nas mãos de Rino, você estaria a salvo.

            - Quando chegamos, você já estava nesta cama e Rino já havia partido, pois nada mais poderia fazer e, ao que parece, tinha assuntos importantes a tratar ao sul.

            - Faldan chegou aqui dois dias depois de nós, acompanhado do Duque, que viera buscar sua esposa. E assim, você foi salvo do manto de Grey.

            - É Ruprest. Seu amigo foi salvo por elfos. Não só uma vez, mas duas. E isso você carregará por todos os dias de sua vida. - disse Faldan - E um elfo do sul, como aqueles que os anões acusam de ladrões.

            Por um momento, Ruprest se enfureceu. Seu rosto enrubesceu e sua garganta engoliu a seco. Mas, mantendo a calma virou-se para Faldan e disse:

            - Por terem salvado a vida daquele por quem tenho mais apreço nessa vida e por não deixarem que eu faltasse com a minha palavra, dada a Raicar, a quem prometi cuidar dele até o final da minha vida, estou grato até o dia de minha morte. Estarei grato a ti, mesmo que me apunhales pelas costas, pois conheço minhas qualidades e meus defeitos e sei que dentre estes últimos, não consta a ingratidão. Porém, me sinto como um anão, pois em Driev cresci e considero o povo de lá minha família. Pelo o que teu povo fez ao meu, não há desculpas. Apesar de acreditar que entre o joio há trigo e saber que tu és digno de confiança e de meu respeito.

            O clima no quarto ficou pesado, mas apesar de tudo, o respeito entre os dois era recíproco e a amizade por Patton os deixava mais unidos. Ernandor interveio na conversa acalentada, mas parou de falar ao perceber a porta se abrindo e uma claridade invadir o aposento, bela como a dos primeiros raios do sol da manhã.

            Era a majestosa Senhora de Palari Kadun, que viera visitar seu hóspede. Ao seu lado estavam duas de suas damas élficas. Lindas elas eram, mas eram ofuscadas pela beleza de sua senhora. 

            - Bom vê-lo acordado e disposto, Patton, filho de Raikar. Seus amigos quase sucumbiram esperando por uma melhora sua. Ernandor foi sábio em suas palavras te repreendendo, mas eu sei, mais do que ninguém, o quanto o inimigo pode ser ardiloso. Sei também que tu não cometerás o mesmo erro duas vezes. Não caminhará novamente por cima de seus próprios passos. Enfim, não falarei mais de tristezas e mau agouros. Hoje é um dia de felicidade e os pássaros de Palari Kadun poderão voltar a cantar como antes. Os povos do leste, Anões, Homens e Elfos poderão festejar mais uma vitória sobre o oeste. Embora cedo seja a hora de voltarmos a nos enfrentar na última das batalhas desta nova Guerra das raças.

 


3 Responses to ““A Missão de Faldan””

  1. Erick Koguma Says:

    E minha vontade de jogar RPG só aumenta hahaha
    mto bom!

  2. Braitner Says:

    Muito boa a descrição da cena!

  3. Dani Says:

    Tucano,

    Assim vc mata a gente de tanta ansiedade!! Estamos esperando capítulos novos!!!!

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